terça-feira, 12 de maio de 2026

Cerco sobre Ciro trinca maior cartório do Centrão, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Operação da PF atinge federação PP-União no momento da definição de chapas e dos critérios de repartição do fundo eleitoral e das inserções comerciais

No mesmo dia em que Tarcísio de Freitas (Republicanos) soltou um “doa a quem doer” na defesa da apuração do “grande escândalo” que envolve o senador Ciro Nogueira (PP-PI), o diretório estadual do Progressistas anunciou o adiamento da cerimônia, marcada para esta segunda, em que seria oficializado o apoio do partido à reeleição do governador de São Paulo e o lançamento da candidatura do deputado Guilherme Derrite (PP-SP) ao Senado. Na véspera, o pré-candidato do PL à Presidência, senador Flávio Bolsonaro (RJ), já havia soltado uma nota em que reputou de “graves” as acusações que pesam sobre o senador que foi ministro da Casa Civil do governo do seu pai e a quem já havia cobiçado para vice.

A troca do advogado de Ciro Nogueira, quatro dias depois da operação de busca e apreensão na sua casa, deixou claro que ainda está em busca de uma estratégia de defesa. A proximidade do novo advogado, Conrado Gontijo, com o antecessor, Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, sugere terceirização com propósito indefinido. O que está mais claro é que, abandonado por aliados, Ciro Nogueira pretende fazer do Progressistas, que ainda preside, a última trincheira de defesa.

O PP disputará esta eleição em aliança com o União Brasil numa federação que detém a maior fatia do fundo eleitoral (R$ 953 milhões) e das inserções comerciais (20% do total). É com esses recursos que busca a proteção dos aliados para que se mobilizem em sua defesa. Como o presidente do União, Antonio Rueda, é considerado o próximo da fila, há uma convergência de propósitos no maior cartório partidário do país. A dúvida é se vai funcionar.

Se Tarcísio e Flávio Bolsonaro temem o dano de imagem da associação com Ciro, seus correligionários também o fazem. E já exigem, no mínimo, uma licença do senador da presidência. O dano, porém, vai muito além da imagem. Paira, entre parlamentares do PP, a dúvida sobre como o senador será capaz de, sob a mira da Polícia Federal, presidir o processo de distribuição do tempo de TV e do fundo eleitoral.

A PF chegou num momento de montagem de chapas em que os recursos partidários são tradicional moeda de negociação. Sem a arbitragem do senador, que permanece recluso em casa recebendo e falando ao telefone com poucas pessoas, como o líder do PP na Câmara, Dr. Luizinho (RJ), o dano é gigantesco. Só não é maior porque os pré-candidatos já não podem mudar a legenda pela qual disputarão em outubro.

Nada consta, no estatuto do PP, sobre o afastamento de um presidente investigado. Por isso, a decisão, em última instância, é do próprio Ciro Nogueira a partir das pressões que vier a receber. Em 2017, quando foi gravado pedindo propina a Joesley Batista, do grupo J&F, o deputado Aécio Neves (MG) não queria se afastar da presidência do PSDB mas, pressionado, acabou cedendo, o que não evitou o declínio do partido que voltou a presidir no final de 2025.

Ao contrário de outra grande federação, como a do PT com o PCdoB e PV, a que reúne o PP e o União é parelha nas bancadas na Câmara e no Senado. Dos 96 deputados da federação, 47 são do PP e 49 são do União. No Senado, a dianteira se inverte. Da bancada de dez, sete são do PP e três do União. Por isso, as decisões dos dois partidos têm o mesmo peso ou, pelo menos, tinham até a implosão do Master.

No PP, a pressão é para que Tereza Cristina (MS) assuma a presidência do partido. A senadora, a despeito de correligionária, não é do grupo político de Ciro. Tampouco leva a sério as elocubrações em torno de sua presença, como vice, na chapa de Flávio Bolsonaro. Com quatro anos a mais de mandato, está focada na presidência da mesa diretora da Casa.

Na condição de líder no Senado, Tereza Cristina integra, juntamente com o líder na Câmara, Dr. Luizinho, a comissão partidária que, sob o comando do deputado Ricardo Barros (PR), ex-ministro da Saúde do governo Michel Temer, e do presidente da fundação partidária, o deputado Covatti Filho (RS), estabelecerá critérios para a distribuição de tempo e dinheiro com os candidatos.

Se, no PP, a despeito da centralização, há alguma governança, no União esta é zero. A distribuição é feita por Rueda e sua irmã, Maria Emília, tesoureira do partido e, assim como o irmão, sem mandato eletivo. Se o atual presidente vier a ser alvejado pela PF, o vice, Antonio Carlos Magalhães Neto, pré-candidato ao governo da Bahia, assume formalmente e delega as atribuições a um aliado.

A incipiente governança, em plena campanha, ameaça a principal estrutura partidária do Centrão. A ameaça é proporcional à tentativa de blindagem que seus dirigentes buscam na federação. A começar pela defesa do foro privilegiado de Ciro Nogueira. A esta altura, só lhe resta tentar vaga na Câmara pelo Piauí. Já Rueda, se sair em busca de seu primeiro mandato, terá dificuldades ainda maiores, principalmente se Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, tiver sua delação aceita.

A crise da federação tende a dificultar o apoio político ao atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que busca a recondução à mesa diretora, mas pode abrir caminho para o PSD de Gilberto Kassab e, em segundo plano, para o MDB. Ainda que o PL de Valdemar Costa Neto possa vir a ganhar terreno sobre a federação, o dano reputacional e de máquina partidária advindo do cerco do inquérito do Master terá um impacto incontornável, no mínimo de imagem, sobre Flávio Bolsonaro.

 

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