Valor Econômico
Operação da PF atinge federação PP-União no momento da definição de chapas e dos critérios de repartição do fundo eleitoral e das inserções comerciais
No mesmo dia em que Tarcísio de Freitas (Republicanos) soltou um “doa a quem doer” na defesa da apuração do “grande escândalo” que envolve o senador Ciro Nogueira (PP-PI), o diretório estadual do Progressistas anunciou o adiamento da cerimônia, marcada para esta segunda, em que seria oficializado o apoio do partido à reeleição do governador de São Paulo e o lançamento da candidatura do deputado Guilherme Derrite (PP-SP) ao Senado. Na véspera, o pré-candidato do PL à Presidência, senador Flávio Bolsonaro (RJ), já havia soltado uma nota em que reputou de “graves” as acusações que pesam sobre o senador que foi ministro da Casa Civil do governo do seu pai e a quem já havia cobiçado para vice.
A troca do advogado de Ciro Nogueira, quatro
dias depois da operação de busca e apreensão na sua casa, deixou claro que
ainda está em busca de uma estratégia de defesa. A proximidade do novo
advogado, Conrado Gontijo, com o antecessor, Antonio Carlos de Almeida Castro,
o Kakay, sugere terceirização com propósito indefinido. O que está mais claro é
que, abandonado por aliados, Ciro Nogueira pretende fazer do Progressistas, que
ainda preside, a última trincheira de defesa.
O PP disputará esta eleição em aliança com o
União Brasil numa federação que detém a maior fatia do fundo eleitoral (R$ 953
milhões) e das inserções comerciais (20% do total). É com esses recursos que
busca a proteção dos aliados para que se mobilizem em sua defesa. Como o
presidente do União, Antonio Rueda, é considerado o próximo da fila, há uma
convergência de propósitos no maior cartório partidário do país. A dúvida é se
vai funcionar.
Se Tarcísio e Flávio Bolsonaro temem o dano
de imagem da associação com Ciro, seus correligionários também o fazem. E já
exigem, no mínimo, uma licença do senador da presidência. O dano, porém, vai
muito além da imagem. Paira, entre parlamentares do PP, a dúvida sobre como o
senador será capaz de, sob a mira da Polícia Federal, presidir o processo de
distribuição do tempo de TV e do fundo eleitoral.
A PF chegou num momento de montagem de chapas
em que os recursos partidários são tradicional moeda de negociação. Sem a
arbitragem do senador, que permanece recluso em casa recebendo e falando ao
telefone com poucas pessoas, como o líder do PP na Câmara, Dr. Luizinho (RJ), o
dano é gigantesco. Só não é maior porque os pré-candidatos já não podem mudar a
legenda pela qual disputarão em outubro.
Nada consta, no estatuto do PP, sobre o
afastamento de um presidente investigado. Por isso, a decisão, em última
instância, é do próprio Ciro Nogueira a partir das pressões que vier a receber.
Em 2017, quando foi gravado pedindo propina a Joesley Batista, do grupo
J&F, o deputado Aécio Neves (MG) não queria se afastar da presidência do
PSDB mas, pressionado, acabou cedendo, o que não evitou o declínio do partido
que voltou a presidir no final de 2025.
Ao contrário de outra grande federação, como
a do PT com o PCdoB e PV, a que reúne o PP e o União é parelha nas bancadas na
Câmara e no Senado. Dos 96 deputados da federação, 47 são do PP e 49 são do
União. No Senado, a dianteira se inverte. Da bancada de dez, sete são do PP e
três do União. Por isso, as decisões dos dois partidos têm o mesmo peso ou,
pelo menos, tinham até a implosão do Master.
No PP, a pressão é para que Tereza Cristina
(MS) assuma a presidência do partido. A senadora, a despeito de
correligionária, não é do grupo político de Ciro. Tampouco leva a sério as
elocubrações em torno de sua presença, como vice, na chapa de Flávio Bolsonaro.
Com quatro anos a mais de mandato, está focada na presidência da mesa diretora
da Casa.
Na condição de líder no Senado, Tereza
Cristina integra, juntamente com o líder na Câmara, Dr. Luizinho, a comissão
partidária que, sob o comando do deputado Ricardo Barros (PR), ex-ministro da
Saúde do governo Michel Temer, e do presidente da fundação partidária, o
deputado Covatti Filho (RS), estabelecerá critérios para a distribuição de
tempo e dinheiro com os candidatos.
Se, no PP, a despeito da centralização, há
alguma governança, no União esta é zero. A distribuição é feita por Rueda e sua
irmã, Maria Emília, tesoureira do partido e, assim como o irmão, sem mandato
eletivo. Se o atual presidente vier a ser alvejado pela PF, o vice, Antonio
Carlos Magalhães Neto, pré-candidato ao governo da Bahia, assume formalmente e
delega as atribuições a um aliado.
A incipiente governança, em plena campanha,
ameaça a principal estrutura partidária do Centrão. A ameaça é proporcional à
tentativa de blindagem que seus dirigentes buscam na federação. A começar pela
defesa do foro privilegiado de Ciro Nogueira. A esta altura, só lhe resta
tentar vaga na Câmara pelo Piauí. Já Rueda, se sair em busca de seu primeiro
mandato, terá dificuldades ainda maiores, principalmente se Paulo Henrique
Costa, ex-presidente do BRB, tiver sua delação aceita.
A crise da federação tende a dificultar o
apoio político ao atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que
busca a recondução à mesa diretora, mas pode abrir caminho para o PSD de
Gilberto Kassab e, em segundo plano, para o MDB. Ainda que o PL de Valdemar
Costa Neto possa vir a ganhar terreno sobre a federação, o dano reputacional e
de máquina partidária advindo do cerco do inquérito do Master terá um impacto
incontornável, no mínimo de imagem, sobre Flávio Bolsonaro.

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