O Globo
A arte deixou de ser julgada por critérios
estéticos e virou campo de batalha identitário
Assim como existe o voto urso — você abraça
um candidato e vota noutro —, os tempos woke nos
forçam a dizer que gostamos de um filme quando, na verdade, o achamos bem
médio. É o caso de “O agente secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho, cuja
narrativa é desencapada, mas aplaudida pela crítica por estar cheia de
citações. A situação lembra o comentário de Paulo Francis sobre “Terra em
transe”, de Gláuber Rocha, quando a crítica era pesadamente a favor da obra:
— O filme é uma bosta, mas o diretor é um gênio.
Os casos de interdição ao debate usam
diversos figurinos, em geral aparecem disfarçados sob o discurso de justiça ou
correção histórica. Dias atrás, o curador camaronês da Bienal de São Paulo
vetou a presença num debate da artista belga Marie-Esméralda. Ela foi
descartada sob a alegação de ser sobrinha-bisneta do rei Leopoldo II, um
conhecido genocida. Responsabilidade ancestral virou critério curatorial — como
se a genética determinasse posição política, ou como se descendentes devessem
responder pelos crimes de antepassados mortos há um século.
Os dois casos ilustram a mesma tendência: a
arte deixou de ser julgada por critérios estéticos e virou campo de batalha
identitário. Os episódios se inserem no uso do gosto pela política.
Disfarçadamente, o produto cultural é transformado em ato ideológico — e quem o
desfruta é posto no papel de marionete.
O espectador assiste ao filme, come sua
pipoca e sai do cinema mais ou menos satisfeito. De volta para casa, consulta a
internet e lá depara com uma campanha on-line bem orquestrada: é obra de gênio!
O sujeito engole em seco, fica envergonhado com sua pequenez intelectual.
Sente-se um rato. Como é que não percebeu o beijo supremo da arte? Daí para o
voto woke,
é um passo.
Por trás da defesa, esconde-se uma causa.
Toleram-se as deficiências em nome de compadrio político. Isso era comum nas
décadas de 1950, 60 e 70, quando o Partido Comunista cerrava fileiras em defesa
de seus militantes. A primeira fase de Jorge Amado, com a hagiografia de Luís
Carlos Prestes, “O cavaleiro da esperança”, era incensada. Mas é esquemática
dentro de seu realismo socialista. Idem com Cândido Portinari e seus
personagens populares, idealizados como super-heróis.
A postura vinha inscrita no uso da arte como
ferramenta política de convencimento. Ficou conhecida como período stalinista:
o discurso substitui a intuição artística e se transforma em manifestação
regrada.
A queda do Muro de Berlim em 1989 soterrou a
visão do realismo socialista. Deveria ter sido enterrada antes, em 1956, ano em
que Kruschev denunciou os crimes de Stálin. Mas tudo leva um tempo; até a
verdade por vezes precisa de décadas para se tornar fato. (A frase não vale para
Prestes e Oscar Niemeyer, que nunca acreditaram em Kruschev.) A militância woke
na arte trabalha contra a própria arte. Assim como o stalinismo com seu
realismo socialista só valorizou aspectos militantes, o atual pensamento
crítico caminha na defesa de teses no lugar do estético e do artístico.
O Godard de “A chinesa”, em sua fase maoista,
não se compara ao anarquismo poético e niilista de “Acossado”. Simples: a obra
militante é inferior, só que a causa política fechava os olhos às deficiências
de um filme maniqueísta.
Indicado como representante brasileiro ao
Oscar, “O agente secreto” é vendido como cobertura de frente para o mar. Quando
são apontadas suas falhas, principalmente pelo público, o batalhão crítico sai
em sua defesa. Estranhamente, o mérito do filme — escancarar a violência do
cotidiano brasileiro — sempre é atenuado. A obra mostra um país desumano, sem
empatia, incivilizado em sua natureza egoísta. Infelizmente, a narrativa se
deseja culta e, ao final, contenta-se com referências cinematográficas quando
poderia aprofundar o dedo na ferida.
O empresário sulista da história é um retrato
acabado da arte em forma de tese. É raso, discursivo. Tem a pitada woke ao
discutir com a mulher do protagonista. Está no roteiro para trazer o conflito,
o drama. Mas abriga um tipo de rancor falsamente regionalista. Os fios em
aberto da história demonstram receio em chamar pelo nome o que foi levantado
pelo enredo, adoçando o que é cruel — uma sociedade insensível ao valor da
vida. Wagner Moura, o Marcelo da história, é quem dá cor e nuance. Seu
desespero diante do inexplicável de sua situação, com economia de gestos, só no
olhar, é um alívio de inteligência.

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