Folha de S. Paulo
País seria uma das nações mais poderosas e
desenvolvidas do mundo
Ponto de partida é a reparação depois da assinatura da Lei Áurea
A utopia de um Brasil sem racismo é
meu exercício de ficção predileto. Já me peguei pensando nisso umas mil vezes.
Acredito que seríamos uma sociedade muito melhor, mais justa e menos desigual
se o Estado tivesse promovido reparação depois da assinatura
da Lei Áurea, em 1888.
Hoje, 138 anos após a "abolição da escravatura" no último país das Américas a libertar os africanos escravizados, compartilho um vislumbre deste meu devaneio.
Imagino o Brasil como uma das nações mais
poderosas e desenvolvidas do mundo. As cidades são planejadas, a economia é
pujante e o índice de desenvolvimento humano (IDH) é dos mais elevados.
Com amplo acesso à educação de qualidade, as
pessoas aprendem desde cedo a valorizar a contribuição de cada etnia na
formação do nosso país. E ninguém se acha superior ao outro pela mera aparência
física.
Temos incontáveis médicos, magistrados,
engenheiros, arquitetos, empresários, professores, parlamentares, governadores,
enfim, pessoas de todas as etnias, atuando em todas as áreas do conhecimento, e
em quantidade proporcional à nossa composição demográfica. E todos
(independentemente do gênero ou raça) são remunerados na mesma medida pelo
desempenho de atividades iguais.
Nossa diversidade e riqueza de recursos
naturais garantem uma enorme vantagem competitiva no mercado global. A extensão
territorial é mais do que suficiente para que os brasileiros, em regra, tenham
acesso à moradia digna, fora de zonas de risco ambiental.
A consciência crítica e cívica é elevada.
Ninguém se contenta com pouco, pois a maioria conhece seus direitos
constitucionais e rechaça tentativas de golpe ou embuste político que possam
colocar em risco a democracia.
Pessoas negras, indígenas e LGBTQIAPN+
frequentam espaços de convívio social normalmente, sem qualquer importunação. E
as forças policiais tratam a todos da mesma maneira.
Na minha utopia, a esperança de viver uma
vida digna deixa de ser um sonho para se tornar a realidade da maioria dos
brasileiros —que é negra.

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