segunda-feira, 11 de maio de 2026

Trump ‘versus’ Maga, o cisma, por Demétrio Magnoli

O Globo

Ataque ao Irã representaria uma renúncia crucial: a adesão do presidente à ordem que jurou destruir

‘Eu não caracterizaria isso como uma ruptura com Trump. Ele traiu suas promessas a mim e a todos os demais. Isso não faz de mim a pessoa que violou o contrato. Ele é quem violou o contrato.’ Numa longa entrevista ao New York Times, Tucker Carlson explicou sua acusação: ao deflagrar a fracassada guerra no Irã, o presidente traiu o Make America Great Again (Maga) e, por extensão, os Estados Unidos.

Carlson, ao lado de JD Vance, foi uma voz essencial no movimento que sustentou a ascensão de Trump. O cisma esclarece os fundamentos ideológicos da direita nacionalista nos Estados Uniods, que se encontra numa encruzilhada decisiva.

O discurso de Carlson — e, portanto, do Maga — segue uma linha paralela à da esquerda tradicional. Sob o comando de sua elite financeira, os Estados Unidos entregam-se ao imperialismo, produzindo sucessivas guerras externas que prejudicam os interesses do povo americano. Sob a hegemonia da mesma elite, praticam um capitalismo predatório que amplia as desigualdades sociais. Carlson chega a expressar simpatia pelos protestos esquerdistas do Occupy Wall Street, que eclodiram em 2011, no rastro da grande recessão.

As respostas de Carlson são o populismo econômico e uma postura geopolítica baseada na renúncia a guerras imperiais. Só se desviam das propostas da esquerda tradicional por derivarem do medo da “ruptura social” e por abrangerem uma política anti-imigração radical. No protecionismo tarifário e na xenofobia, Trump está certo, segundo Carlson. Mas, para ele, a aventura no Irã, mais que equívoco estratégico, representa um pecado mortal.

Segundo um antigo chiste da esquerda “anti-imperialista”, os Estados Unidos têm um único partido, separado em duas facções eleitorais. Carlson concorda: para ele, quase todos os republicanos e democratas são, no fim das contas, neoconservadores. Seu apoio histórico a Trump baseou-se na oposição compartilhada à ordem tradicional da política americana.

— Sou contrário à ideia de que o Hezbollah e o Hamas ocupem o centro de nosso debate nacional. São eles os grandes problemas que encaramos? Não são! Não são problemas maiores que o comportamento do Citibank. O endividamento no cartão de crédito é um problema muito maior que o Hezbollah jamais será.

Visto através dessas lentes, o ataque ao Irã representaria uma renúncia crucial: a adesão do presidente à ordem que jurou destruir. Mas eis o mistério: por que Trump deflagrou a guerra que prometeu jamais iniciar? “Minha forte impressão é que Trump foi mais um refém que um soberano” ao tomar uma decisão cuja consequência seria, diz Carlson, “o fim de sua Presidência”. E quem o tomou como refém? “Benjamin Netanyahu e seus inúmeros defensores nos Estados Unidos.” Carlson acusa Israel e o lobby israelense na política americana. Vai mais longe: expõe a tese de que a invasão do Iraque, sob George W. Bush, em 2003, também decorreu do controle israelense sobre as mais estratégicas deliberações da Casa Branca.

A operação no Irã foi a primeira guerra conjunta de Estados Unidos e Israel. Faz sentido argumentar que Netanyahu exerceu poderosa influência na decisão de Trump. Mas a invocação da mesma alegação para o Iraque, mais que equívoco factual, representa uma restauração das narrativas conspiratórias antissemitas de Henry Ford e os isolacionistas do Entreguerras. Nesse ponto, novamente, as vozes do Maga profundo harmonizam-se com as de significativas correntes da esquerda.

Os crimes cometidos por Israel em Gaza e no Líbano adubam o discurso de Carlson:

— Não se pode usar a guerra no Irã como pretexto para roubar mais terras de um país soberano. Pensei que combatíamos a maior ameaça existencial, o Irã. E agora toma-se a oportunidade para ocupar o litoral do Líbano e o Rio Litani e para bombardear Beirute.

O acusador corta, com a habilidade de um alfaiate, o fragmento da realidade que interessa à sua causa. A passagem, que seria ovacionada em manifestações estudantis nos campi dos Estados Unidos, reflete o estado de espírito da maioria do eleitorado.

Trump perdeu a guerra no Irã. A histórica aliança Estados Unidos-Israel vai se convertendo numa das vítimas do desastre.

 

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