Folha de S. Paulo
Governistas e oposicionistas disputam a pauta antissistema, sendo todos eles criaturas da ordem institucional
No lugar de propostas de desmonte, a
sociedade seria mais bem atendida com uma agenda racional de reconstrução
Uma das saídas defendidas por petistas para
superar a fase de adversidades é vestir o
figurino antissistema. Isso equivale à difícil tarefa de convencer
as pessoas de que o governo é, ao mesmo tempo, de situação e de oposição.
Pode ser que o conceito fique um tanto confuso na mente do eleitorado, porque sendo governo e se colocando no lugar de opositor a "tudo isso que está aí", esse ente híbrido seria adversário de si mesmo.
E aí, de que lado se localiza o argumento? A
sugestão propõe mais um enigma do que uma solução. Ademais, insere o risco de
soar como falsidade, pois, quando interessa, os detentores do poder de turno
argumentam que a sua força segue inabalável e resistente ante as investidas dos
inimigos. Reivindicam, com razão, suas prerrogativas —todas decorrentes das
regras do "sistema".
É a chamada contradição em termos, da qual busca se valer também a oposição,
cujos pretendentes a presidente são um senador, dois ex-governadores, um
presidente de partido e um ex-ministro e ex-presidente da Câmara. Todos
devidamente criados nos critérios da ordem institucional. O sistema, portanto.
A partir dessa realidade inquebrantável chega-se à conclusão de que essa
história de antissistema é só uma tentativa mal-ajambrada de enganar o
eleitorado.
Gente que, obviamente, em sua maioria, não se deixa enganar nem se levar pela
ideia do desmonte da ordem na qual se organizam os Poderes, os partidos, as
eleições, as demandas populares, enfim, tudo aquilo que rege a democracia.
Falta aos defensores da tese da confrontação dizer claramente o que querem.
Seria a terra arrasada? Acabar com tudo, refazer a República? Com base em quais
preceitos? Posta assim, a questão dos pretensos insurgentes revela-se apenas o
caso de rebeldes de uma causa vazia.
O tempo perdido com falácias seria mais bem aceito pela sociedade se preenchido
com o exame claro e detalhado das muitas distorções a serem corrigidas, a fim
de que o dito sistema funcione no molde equilibrado postulado pela Constituição.

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