terça-feira, 5 de maio de 2026

Combate ao sistema é truque para enganar eleitor, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Governistas e oposicionistas disputam a pauta antissistema, sendo todos eles criaturas da ordem institucional

No lugar de propostas de desmonte, a sociedade seria mais bem atendida com uma agenda racional de reconstrução

Uma das saídas defendidas por petistas para superar a fase de adversidades é vestir o figurino antissistema. Isso equivale à difícil tarefa de convencer as pessoas de que o governo é, ao mesmo tempo, de situação e de oposição.

Pode ser que o conceito fique um tanto confuso na mente do eleitorado, porque sendo governo e se colocando no lugar de opositor a "tudo isso que está aí", esse ente híbrido seria adversário de si mesmo.

E aí, de que lado se localiza o argumento? A sugestão propõe mais um enigma do que uma solução. Ademais, insere o risco de soar como falsidade, pois, quando interessa, os detentores do poder de turno argumentam que a sua força segue inabalável e resistente ante as investidas dos inimigos. Reivindicam, com razão, suas prerrogativas —todas decorrentes das regras do "sistema".

É a chamada contradição em termos, da qual busca se valer também a oposição, cujos pretendentes a presidente são um senador, dois ex-governadores, um presidente de partido e um ex-ministro e ex-presidente da Câmara. Todos devidamente criados nos critérios da ordem institucional. O sistema, portanto.

A partir dessa realidade inquebrantável chega-se à conclusão de que essa história de antissistema é só uma tentativa mal-ajambrada de enganar o eleitorado.

Gente que, obviamente, em sua maioria, não se deixa enganar nem se levar pela ideia do desmonte da ordem na qual se organizam os Poderes, os partidos, as eleições, as demandas populares, enfim, tudo aquilo que rege a democracia.

Falta aos defensores da tese da confrontação dizer claramente o que querem. Seria a terra arrasada? Acabar com tudo, refazer a República? Com base em quais preceitos? Posta assim, a questão dos pretensos insurgentes revela-se apenas o caso de rebeldes de uma causa vazia.

O tempo perdido com falácias seria mais bem aceito pela sociedade se preenchido com o exame claro e detalhado das muitas distorções a serem corrigidas, a fim de que o dito sistema funcione no molde equilibrado postulado pela Constituição.

 

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