Valor Econômico
No Iluminismo Sombrio temos o domínio do
Estado pelas Big Techs
Entre as tendências do nosso tempo,
sobressai-se, ainda uma vez, a crescente submissão da política aos ditames do
autoritarismo embuçado nos ouropéis da liberdade.
Aqui cabe ressaltar que as concepções “sub-positivistas” ensinam: narrativas (ideologias?) que proclamam que não podem desmentir os fatos, como se os “fatos” da vida social não fossem inseparáveis das narrativas sobre eles. Para desagrado da matilha de cães raivosos que emitem latidos “factuais” e (anti)democráticos, os humanos formulam narrativas para configurar a “realidade”. Escravos da linguagem, os bípedes falantes estão sempre diante de uma disputa de narrativas, significados, até mesmo quando escolhem instrumentos de comprovação empírica dos fatos que pretendem narrar.
Em parceria com Nathan Caixeta, escrevi sobre
Michael Foucault. No livro “As Palavras e as Coisas”, Foucault trata da relação
entre a linguagem e a estruturação material das sociedades ao longo da
história. O filósofo francês distingue as formas de linguagem. A linguagem
clássica cuja soberania das palavras e conceitos era vinculada à propriedade
natural e divina das coisas reais e visíveis em contraposição à linguagem
esculpida por obra do iluminismo, que colocou o homem e seu cogito como
soberanos sobre as palavras e as coisas, igualmente reais e visíveis, mas, que
a partir da época das luzes foram subordinadas à designação dos desejos e da
autonomia do próprio homem.
Entre as narrativas dos autocratas liberais
contemporâneos, predominam os consensos que deploram o peso excessivo do Estado
e investem contra as tentativas de disciplinar as forças, simultaneamente
criadoras e destrutivas, do capitalismo.
A ação do Estado, particularmente sua
prerrogativa fiscal, vem sendo contestada pelo intenso processo de
homogeneização ideológica que celebra o orçamento equilibrado. Os enriquecidos
contestam qualquer interferência no processo de diferenciação entre o poder da
riqueza e a renda dos desvalidos.
A visão coletiva que subordina a decantada
racionalidade dos mercados afirma e reafirma a irracionalidade das
transferências fiscais e previdenciárias, ao mesmo tempo em que impõe
restrições à capacidade impositiva e de endividamento do setor público. Isso
porque é imperioso tornar mais livre o espaço de circulação da riqueza e da
renda dos mais abonados.
Aqui deve-se registrar que a ação do Estado é
vista como contraproducente pelos bem-sucedidos e integrados, mas como
insuficiente pelos desmobilizados e desprotegidos. Estas duas percepções
convergem na direção da “deslegitimação” do poder do Estado e da desvalorização
da política, o que culmina em esgares autoritários travestidos de democracia.
Entre tais desgraças, sobressai-se a contaminação dos Parlamentos, não só no
Brasil, mas também em outros pagos.
No livro “Iluminismo Sombrio”, Arnaud Miranda
empreende uma investigação sobre o neoconservadorismo “tecnológico” abrigado na
direita nos Estados Unidos. “Por toda parte, nas telas publicitárias, podemos
ver retratos gigantescos do Rei da América.
O triunfo vai para os profetas visionários,
os Sábios das Luzes Negras, que, por anos e no segredo da internet, prepararam
o golpe de Estado que mandou à morte a antiga república corrupta e decadente...
Os espaços de informação e de formação da
consciência política e coletiva estão ocupados pelas fake news
E, ainda assim, esse cenário não é menos
inspirado pela visão política de intelectuais muito reais, que emergiram das
profundezas da Internet no final dos anos 2000 e que hoje imaginam desempenhar
o papel de profetas das Luzes Sombrias...
Alguns desses pensadores, sustentados por
alguns milionários da tecnologia californiana, estavam parados até se
infiltrarem nos círculos coloridos da Casa Branca e agora estão entre os
ideólogos mais influentes ao se infiltrarem nos quadros políticos da primeira
potência mundia”.
Nesse pacote do Iluminismo Sombrio está o
domínio do Estado pelas Big Techs.
A Inteligência Artificial “libertadora”
aprisiona homens e mulheres alcançados pelos terremotos que fazem tremer a vida
social submetida às condições políticas e econômicas da sociedade de massas,
agora assolada pelos riscos de “desumanização” tecnológica. A pretendida
autonomia do indivíduo, nascida no âmago do projeto iluminista, não resistiu
aos percalços desatados pelas turbulências da vida social, econômica e
política.
Assim, a resposta esperançosa às incertezas
do futuro depende crucialmente da capacidade de mobilização democrática e
radical dos Deserdados, os perdedores na liça da concorrência. Desgraçadamente,
os espaços de informação e de formação da consciência política e coletiva são
ocupados pelas fake news desabrochadas nas redes sociais por aparatos
comprometidos com a força das BigTechs, agora instaladas nos domínios do Estado
americano.
As concepções conservadoras de todos os
tempos assombram também nossos tempos. Deixam de examinar o conjunto de relações
que estruturam as sociedades capitalistas como uma organização econômica,
social e política singular, singular porque histórica. Isso significa que essas
relações se reproduzem num movimento incessante de diferenciação e
autotransformação no interior de sua estrutura. Não há determinismo nem
indeterminação: o capitalismo se transforma no processo de reprodução de suas
próprias estruturas.
A negação de uma estrutura em movimento, em
si mesma, é um método eficaz de bloquear o imaginário social, uma comprovação
dolorosa das agruras que martirizam as criaturas da história humana. As forças
impessoais adquirem dinâmicas próprias e passam a constranger a liberdade de
homens e mulheres.
A boa sociedade deve tornar livres os seus
integrantes, não apenas livres de um ponto de vista negativo - no sentido de
não serem coagidos a fazer o que não fariam por espontânea vontade - mas
positivamente livres, no sentido de serem capazes de fazer algo da própria
liberdade. Isto significa primordialmente o poder de influenciar as condições
da própria existência, dar um significado para o bem comum e fazer as
instituições sociais funcionarem adequadamente.
*É professor da Unicamp e fundador da Facamp.
Em 2001, foi um dos 100 maiores economistas heterodoxos no Biographical Dictionary
of Dissenting Economists.

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