O Globo
Povos cindidos, divididos em partes que
perderam a capacidade de se tolerar, poderão voltar a conviver
Talvez, apenas talvez, a política das democracias ocidentais esteja para sofrer um baque tão grande quanto aquele que vivemos na última década e meia. Se uma tese que começa a se consolidar estiver correta, lentamente retornaremos a sociedades onde o consenso é não só possível, como provável. Onde deputados não se elegerão pela capacidade de inflamar as redes sociais, em que demagogos autoritários perderão espaço. Povos cindidos, divididos em partes que perderam a capacidade de se tolerar, poderão voltar a conviver. O que promoverá essa mudança tão radical é o lento declínio das redes sociais, seguido pela ampliação de uso da inteligência artificial (IA). E a tese não é mera suposição. Há ciência por trás dela.
O motor que faz redes sociais funcionar são
os algoritmos de recomendação. Eles identificam, com base em nosso
comportamento, o que devem apresentar para chamar nossa atenção. Tudo entra na
conta: o ponto da tela em que nosso dedo toca, a velocidade com que deslizamos
de uma janela a outra, o que comentamos, que comentários lemos, onde nos
detemos e por onde passamos rápido, do que gostamos, o que publicamos. Tudo
conta. Nosso comportamento é comparado ao de milhões de pessoas até que as mais
parecidas conosco em certos hábitos apareçam. O que atrai quem se parece
conosco muito provavelmente nos atrairá.
Os modelos de linguagem de grande porte, ou
LLMs, as IAs por trás de GPT, Claude, Gemini e o que for funcionam com outra
lógica. Absorvem uma quantidade inimaginável de textos e buscam,
sistematicamente, as medianas. O ponto para o qual o conhecimento conflui. É da
natureza dessas IAs que busquem os pontos de vista consensuais, que nos debates
procurem a ponderação em detrimento do antagonismo.
Os dois mecanismos produzem resultados muito
diferentes. Os algoritmos das redes descobrem rápido que acirrar o atrito,
ampliar o confronto, gera audiência. É o ambiente de onde boa parte da
informação política que a sociedade absorve tem vindo. LLMs, em contraste, põem
panos quentes, trazem para um lugar de moderação. Não inflamam, desaceleram.
Apelam à curiosidade, não ao conflito. A primeira é uma máquina de gerar
dissenso, a segunda, consenso.
Petter Törnberg, cientista da computação da
Universidade de Amsterdã que se especializou no que chama de geografia digital,
comparou como bots se comportam numa rede social de posts curtos, exatamente
como o X. Depois colocou os mesmos bots para conversar entre si. Os robôs
rodavam GPT 3.5, um modelo de três anos atrás. No X simulado, só dava briga.
Quando trataram uns dos gostos dos outros, os bots demonstravam “alegria” em
descobrir pontos em comum.
John Burn-Murdoch, do Financial Times,
descobriu algo mais interessante. Tomou emprestado de pesquisadores de Harvard
as respostas a um questionário feito para estudar comportamento eleitoral e
gerou debates entre usuários fictícios com IAs. Testou GPT, Gemini, Grok e
DeepSeek. Todas as conversas, não importa o argumento inicial, são levadas
pelas IAs a um lugar de moderação. No caso do Grok, à centro-direita, no das
outras três à centro-esquerda. O impacto de um diálogo, não importa o tema,
distancia quem o trava de posições extremistas.
Esse argumento já tem sido usado por alguns.
O filósofo Dan Williams, da Universidade de Sussex, sugere que esse jogo de
vaivém é natural da história do mundo. O texto impresso levou a dissensos mil,
ao permitir que os leitores comparassem textos distintos com mais frequência. A
televisão com poucos canais foi uma máquina de gerar consenso, com grandes
massas se informando pela mesma fonte. Redes sociais quebraram esse fluxo.
Talvez seja papel das IAs o reconstruírem de outro jeito.
Em janeiro deste ano, o jornalista americano
Dylan Matthews concluiu que as respostas do Grok — a IA de Elon Musk que
qualquer usuário pode chamar dentro do X —consistentemente põem panos quentes
nos debates mais difíceis. Com frequência, aliás, irritando quem queria usá-la
para acusar alguém.
O mundo não está todo em concerto, usando IAs
o dia todo. Mas, possivelmente, isso começará a acontecer mais e mais. A adoção
tende a crescer. A eleição deste ano, quem sabe, será a última da pancadaria.

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