Folha de S. Paulo
Pesquisas mostram que polarização afetiva se
cristalizou
Lógica recomendaria busca por candidatos de
baixa rejeição
A semana passada foi desastrosa para Lula,
mas é cedo para considerar sua candidatura
como carta fora do baralho. Apesar de os sinais emitidos pelo
Parlamento não serem alvissareiros para o petista, são os eleitores e não os
senadores que definirão o nome do próximo presidente. E isso faz diferença.
Minha leitura da última safra de pesquisas é que os dois principais blocos de eleitores —lulistas e bolsonaristas— se deixaram aprisionar por suas preferências. A polarização, que ocorre não apenas na régua da política mas também na dos afetos, se cristalizou. Cada um dos lados sente a perspectiva de vitória do adversário como ameaça física. Aceitam tudo para evitar que o outro time triunfe.
A melhor evidência disso é que Flávio
Bolsonaro, uma nulidade política que ostenta só escândalos no
currículo, herdou a quase totalidade dos votos do pai. Mais, nas simulações de
segundo turno, qualquer nome da direita chega bem perto de Lula. Pela inversa,
sondagens que testaram Fernando
Haddad e Geraldo
Alckmin no lugar de Lula trouxeram resultados semelhantes. Num
hipotético segundo turno genérico, qualquer representante do lulismo ou do
bolsonarismo estaria em situação de empate técnico ou quase com o rival.
Se o governismo decidisse lançar Alckmin, o
eleitor petista, que até 2022 descrevia o vice-presidente como um direitista
empedernido próximo do Opus Dei,
não teria remédio que não sufragar seu nome, tamanho é o medo de ver um
Bolsonaro subindo a rampa do Planalto.
É um quadro não muito dessemelhante ao de
2022. Lá como cá, o mais provável é que a polarização se mantenha e o pleito
acabe sendo definido por um contingente relativamente pequeno de eleitores que
não se identificam, aberta nem veladamente, com nenhum dos dois blocos. Pela
lógica, ambos os lados deveriam estar em busca de candidaturas de baixa
rejeição. Não é, contudo, o que estamos vendo. Por vezes, política tem mais a
ver com soberba ("hýbris") do que com cálculo. Vimos isso na semana
passada com a derrota de
Messias.
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