O Estado de S. Paulo
Existe um ‘humor sombrio’ no eleitorado do País que afeta também a oposição
Profissionais frios e calculistas que lidam com pesquisas de intenção de voto dizem que as eleições trarão um resultado de 52 a 48 “para alguém”. Quem? Ainda não sabem. O que eles aprenderam de recentes episódios da História é que eleições não têm automaticamente o dom de alterar “grandes correntes” que formam comportamentos. O exemplo em questão foi a vitória de Dilma em 2014 – que pouco freou o fenômeno de indignação social logo depois simbolizada pela Lava Jato (sem a qual é difícil explicar o impeachment dela).
Assumem que a “grande corrente” atual não é
de bom augúrio para qualquer candidato. Uma grande quantidade de pessoas
enxerga a combinação de impostos, burocracia e a insegurança (jurídica e
pública) como situação que “ninguém muda” – ou seja, também a oposição como
parte do “sistema”. Os problemas de Flávio Bolsonaro antigos e o mais novo,
relacionado a Vorcaro, se encaixam aí.
Ao longo da linha do tempo verifica-se o
aumento do descrédito em relação a instituições, especialmente as que fazem
parte direta do sistema político. A novidade nesse fenômeno generalizado é o
grau desse descrédito em relação ao Judiciário, e o óbvio perigo que isso
representa. Num processo que se intensifica, segundo as pesquisas, suas
decisões são vistas como simples parte do jogo político, sem legitimidade.
A baixa “popularidade” do STF registrada nos
levantamentos indica um cenário preocupante que as eleições parecem que vão
agravar. É a perspectiva de que a já irreparável distorção na relação entre os
Poderes leve a “afrontas” que serão respondidas com “afrontas”. A possibilidade
de algum tipo de “desobediência civil” já está no radar de quem eventualmente
teria de garantir lei e ordem.
Um ponto que intriga os pesquisadores é a
frequência com que a palavra “moral” surge nos tais levantamentos qualitativos.
“Moral”, nesse contexto, entendida como falta de. Briga-se, xinga-se,
persegue-se e ganham tração comportamentos na selvageria de redes sociais sem
qualquer limite – situação que muito se lamenta, mas à qual acostuma-se. Como
se o País tivesse perdido qualquer norte.
Esse “humor sombrio” é função do momento, do
cotidiano, ou tem aí algo mais profundo? É o ponto que as pesquisas não
conseguem responder. Como entender isso num país com tantas potencialidades (e
agraciado com oportunidades até mesmo na bagunça geopolítica)?
Talvez seja a percepção de estagnação
relativa. Isto não está no “pensar”, mas provavelmente no “sentir” que
crescemos muito aquém do necessário, que não conseguimos ser o que poderíamos.
E o medo de que eleições trazem trocas, mas não mudanças.

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