Folha de S. Paulo
Flávio Bolsonaro disse que não responde pelas
pessoas com quem tem proximidade
Por coincidência, todas essas pessoas tiveram
problemas com a lei envolvendo o seu nome
Um dos efeitos imediatos da Revolução dos
Cravos, que, em 1974, derrubou a ditadura que sepultava Portugal há
48 anos, foi a extinção da Pide (Polícia Internacional de Defesa do Estado),
sua odiosa polícia política infiltrada em todo o país. Eu trabalhava em Lisboa
na época e, como jornalista estrangeiro, devia estar na mira dos pides, como
eram chamados os agentes. Caído o regime, logo começou a caça a eles e a seus
informantes.
O novo governo instituiu uma recompensa a quem ajudasse a pegá-los: 100 escudos por cabeça (o escudo era a moeda nacional, ainda não existia o euro). O resultado é que as denúncias pulularam, a ponto de a Justiça ter de adotar uma prática severa: "Se denuncias um pide, ganhas 100 escudos. Se denuncias dois pides, ganhas 200 escudos. Se denuncias três pides, vais preso por conheceres pides demais." Ou seja, as pessoas respondem, sim, por aqueles com quem têm proximidade.
O senador Flávio
Bolsonaro, pré-candidato à Presidência e já prevendo ser associado a
bandidos de todo tipo em sua carreira política, declarou "não poder
responder por quem tem proximidade com ele". Se os ditos bandidos fossem
apenas Fabrício
Queiroz, seu ex-chefe de gabinete e do esquema de arrecadação de
"rachadinhas", e o executado Adriano
Magalhães da Nóbrega, da milícia Escritório do Crime e a quem
condecorou na prisão, ele poderia tirar o corpo fora alegando ter sido
"traído". Mas os citados eram apenas os cabeças de núcleos envolvendo
dezenas de acusados, todos a seu serviço ou a de seu pai, patrono do complô.
Esses núcleos incluem assessores, policiais,
advogados, criminosos comuns e suas ex-esposas, mães e filhas, todos
processados. O fato de esses processos terem sido anulados por mutretas
judiciais não apaga o fato de que Flávio Bolsonaro conhece acusados demais.
Esses núcleos incluem assessores, policiais,
advogados, criminosos comuns e suas ex-esposas, mães e filhas, todos
processados. O fato de esses processos terem sido anulados por mutretas
judiciais não apaga o fato de que Flávio Bolsonaro conhece acusados demais.
P.S.: Esta coluna já estava escrita quando estourou a bomba do áudio de Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro ao acusado máster do país, Daniel Vorcaro —comovente pelo tom de voz em que quase lhe implora pela grana.

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