quarta-feira, 6 de maio de 2026

Sem saída, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Donald Trump iniciou uma guerra contra o Irã que não sabe como encerrar

Impopularidade do conflito nos EUA pode ser decisiva nas eleições de novembro

Donald Trump começou uma guerra absolutamente desnecessária contra o Irã, só colheu reveses e agora não consegue sair da encrenca que armou para si mesmo. Embora proclame várias vezes por dia ter vencido brilhante vitória, os fatos são que o regime de Teerã continua de pé, o estreito de Hormuz continua fechado para a navegação e os iranianos continuam em posse de seu urânio enriquecido, sem dar sinais de que pretendam encerrar seu programa nuclear. Pelo contrário, a guerra deve ter reforçado a convicção dos generais persas de que só estarão seguros se desenvolverem armas atômicas.

No papel, a economia dos EUA tem muito mais condições de suportar as restrições impostas pelo conflito do que a depauperada economia iraniana. Na prática, porém, a tolerância psicológica dos eleitores americanos a frustrações econômicas é muito menor do que a dos iranianos, que nem têm muitas condições de opinar. Apesar dos muitos estragos à democracia que Trump já ocasionou, os EUA ainda são um regime sensível à opinião pública, que não está gostando nem um pouco dessa guerra e menos ainda da alta de preços que ela gerou.

O mandato do Agente Laranja vai até janeiro de 2029, mas em novembro próximo ele enfrenta eleições legislativas. Se perder o controle do Congresso, hoje com as duas Casas nas mãos dos republicanos, sua capacidade de provocar novos danos aos EUA e ao mundo será parcialmente contida. O tamanho da contenção dependerá da habilidade dos democratas de selecionar candidatos com boas perspectivas de vitória. O mais provável é que a Câmara mude de comando, mas, no Senado, que é mais importante, as chances estão em 50%.

O que aconteceu com o mundo, deve estar-se perguntando o leitor são. Meu palpite é que a memória coletiva dos desastres gerados por dirigentes autoritários e delirantes só dura algumas décadas. De tempos em tempos, o esquecimento engendra crises. Se tivermos sorte, as democracias sobrevivem a elas e saem com suas defesas temporariamente reforçadas contra essa patologia.

 

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