Cury é candidato pelo Avante, partido que
surgiu de uma dissidência do trabalhismo (PTB, também conhecido como PTdoB). É
considerado de centro, pragmático, com presença marcante em legislativos
estaduais e municipais. O nosso respeitável psiquiatra desenha com cuidado
alternativas para fugir dos vícios do mandonismo e do populismo em
que "... se dá com uma mão, e se tira com a outra",
práticas temperadas nesses últimos anos por frustrações e o cultivo
sistemático do ódio rasteiro.
As " Aves de Rapina" (Getúlio)
inspiraram os correligionários a mudar-lhe o nome para Avante, identificado
pelo número "70". Buscaram algo mais compatível com as demandas da
sociedade atual, submetida sistematicamente à políticas fluídas. Situa-se na
crista da onda eleitoreira, buscando o espaço restante, fora da
bipolaridade, disponibilizado pelo novo pleito. O trabalhismo retomou
uma certa evidência pública por meio da atuação de alguns
parlamentares, entre os quais o deputado federal André Janones, com
protagonismo amplo nas redes sociais e no Congresso Nacional. O número de
registro "70" posiciona-o como uma legenda que investe em bases
petebistas submersas e remanescentes entre prefeitos, vereadores e
parlamentares estaduais.
Como cientista da mente,
Cury assiste de longe dramas, de um lado, e, de outro,
uma festa com financiamentos silenciosos, sobretudo do BNDES,
em estilo chinês, apoiando projetos de " empresas irmãs".
Surpreende-se ao ver, não mais exclusivamente a Petrobras, mas entre
elas a JBS (JIS) envolvida no processo. O psiquiatra está
concentrado, entretanto, em desvendar e desconstruir o radicalismo
que aprisionou o brasileiro a promessas não cumpridas, estatísticas
fantasiosas, narrativas falsas e mentiras explícitas. Sem pretender viver de
alegorias ou de um exotismo, afirma que, eleito, vai tentar reconfigurar a
Justiça no Brasil, procurando dar aderência ao Estado apenas a pessoas
juridicamente qualificadas e mais humanamente generosas. Considera a
anistia, e entende o caso estigmatizado como "Débora do Batom" como
um desrespeito à cidadania. Seria cobrado dos ministros a obediência à
Constituição e às leis vigentes, histórico pessoal ilibado
e a desvinculação total da política partidária. O
"presidencialismo ", com perfil narcisista ou polarizado estaria fora
de cogitação. Tentará um apaziguamento de ânimos.
Ao tomar posse em fevereiro de 2027, o
Presidente da República terá a seu favor a prerrogativa de indicar três
candidatos a ocupação, no Supremo, das vagas de Luís Fux, 2008; Cármem Lúcia,
2009; e Gilmar Mendes, 2030, que atingirão a idade limite da aposentadoria
compulsória durante o novo mandato presidencial. Haverá ainda a vacância de
seis lugares de ministros em outros tribunais (Trabalho, Justiça, Eleitoral,
Militar e Procuradoria Geral). Preocupa mesmo é se o novo ocupante da chefia do
Executivo revelar-se uma personalidade ideologicamente forte ou menos
disciplinada tentando novamente criar blocos (Turmas) no Judiciário, o que,
para o leigo, evidencia algo próximo de um pensamento homogêneo. Não parece
digerível. É pernicioso para a instituição, ao aproxima-la da ideia de um
corporativismo. Tenderá ceder às pressões e a acomodar o assédio judicial, por
meio de processos criminais ou de decisões jurisprudenciais, originados do
Executivo.
A rejeição, no Senado
do candidato a ministro do STF, Jorge Messias e aos vetos do
Projeto de lei da Dosimetria, deram certa visibilidade para
esse tipo de homogeneização política na Corte, terminando por expor "
Folhas Corridas" de protagonistas que, há muito, vem tentando contaminar
a hermenêutica jurídica com suas interpretações parciais e
convenientes, dando-lhes legitimidade em decisões e
julgamentos virtuais e até monocráticos. É preciso examinar isso Dr. Cury.
A polaridade política interna, que tanto
preocupa o nosso psiquiatra alimenta a interrupção de planos, programas e
projetos que, sucessivamente, um governo nega ao outro, ao longo das
alternâncias de gestão. Vem atrasando o Brasil há quase 30 anos, ao
interromper um processo de desenvolvimento e modelos
de administração da coisa pública, afetando uma cadeia de
empregos na área privada. Alimenta-se a polaridade, lançando problemas e
ambiguidades na arena das divergências e, através dela, destila-se
o ódio contra quem pensa diferente. Nunca houve meio termo. Enquanto os
políticos se ocupam dessa politicagem errática, ignoram
a devassa que as novas tecnologias, como a Inteligência
Artificial, estão fazendo no mercado de trabalho humano. O
aumento da carga fiscal é respondida com a adoção de novas tecnologias.
Cerca de 8 milhões de jovens
profissionalizados perambulam por aí como apenas números e
estatísticas oficiais insensíveis , anunciando excessos da oferta de
emprego. Os presídios mantém encarcerados cerca de 800 mil pessoas. Metade
da população brasileira está endividada, 60 por cento de idosos, a maioria
vítima de uma gangue que manipulava as contas do INSS. Esse cenário é
agravado por uma inflação subdimensionada, o subemprego, o desemprego, os
salários congelados, o desvio de salário de aposentados, os roubos no Banco
Master, a quebra do Correio o desvio da poupança do sistema produtivo para o
rentismo financeiro. Criou-se um buraco nas contas públicas. O
Tesouro propõe-se a cobrir, e nunca mais se fala no dinheiro que
desapareceu. O cidadão não come narrativas.
Estamos há quase duzentos anos da "
Primavera dos Povos", de 1848, que provocou em toda a Europa
levantes liberais, nacionalistas e socialistas unindo burguesia e operários
contra o absolutismo, que governava por gestos. Foi impulsionada
por crises econômicas e fome mesmo. Desdobrou-se em reações
violentas por todo o continente e depois pelo mundo. No
Brasil chegou um pouco tarde por meio do anarquismo do final do
século XIX, que, na metade do século passado, abortou, essa
tal de bipolaridade, ganhando, entretanto, um perfil
caipira, meio "selvático", com a disseminação dos tais
dossiês. Atropelar, portanto, a história é complicado. Nem os
militares conseguiram. Em muitos países houve retrocessos. Torço
para que antes que o povo brasileiro se interne em um hospício
machadiano (O Alienista), o doutor Augusto Cury ganhe as eleições. Até que
enfim, suponho, chega gente qualificada para governar o País. Reclama-se
por um estadista. Um dos primeiros passos - sugiro - será decodificar esse
discurso anárquico e oportunista de "Democracia", que termina
confundindo a todos e privilegiando interesses de pequenos grupos. É nele
que está a chave da governança do Brasil neste momento.
*Jornalista e Professor

Nenhum comentário:
Postar um comentário