sábado, 16 de maio de 2026

O resgate da confiança, por Oscar Vilhena Vieira*

Folha de S. Paulo

Em matéria judicial, não apenas as ações, mas também as aparências importam

Quando o Judiciário deixa de ser percebido como árbitro imparcial, o Estado democrático de Direito ingressa em um processo silencioso de erosão

A autoridade do Poder Judiciário, em uma democracia constitucional, depende da confiança dos cidadãos. Sem a percepção de imparcialidade, independência e integridade dos tribunais, até decisões juridicamente corretas passam a ser vistas como expressões de interesses políticos ou influências privadas. Quando isso ocorre, a própria estabilidade democrática se fragiliza.

Esse entendimento levou democracias contemporâneas a tratar a ética judicial como questão estrutural. Os Princípios de Bangalore, organizados em 2001 sob os auspícios das Nações Unidas, consolidaram a ideia de que a legitimidade do Judiciário depende não apenas da integridade efetiva dos magistrados, mas também da confiança social em sua conduta. Em matéria judicial, portanto, não apenas as ações, mas também as aparências importam.

A relação íntima entre os Bolsonaros e Vorcaro, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Filho 01 e empresário trambiqueiro tinham um pacto: 'Estarei contigo sempre'

03 pode ter usado dinheiro sujo do Master para tramar contra o Brasil nos EUA

No fim de abril, com as duas derrotas impostas a Lula no Congresso em menos de 24 horas —rejeição de Jorge Messias ao STF e derrubada do veto ao projeto de lei da dosimetria—, Flávio Bolsonaro subiu nas tamancas. "O governo acabou", disse.

O otimismo não era um reflexo das pesquisas —que apontavam o bolsonarista e o petista tecnicamente empatados no segundo turno—, mas sim de um acordo com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, carregando a certeza de que os fisiológicos do centrão iriam abraçar a candidatura do filho 01. Logo depois, num discurso a empresários de Santa Catarina, Flávio garantiu que ficaria no poder no mínimo por dois mandatos e que, com sua ascensão, a esquerda seria insignificante durante 40 anos.

A partidarização da bactéria, por Cláudio Couto

CartaCapital

Na visão dos bolsonaristas, a Pseudomonas aeruginosa é um micro-organismo de esquerda

Durante os últimos anos, nos acostumamos a testemunhar repetidos factoides criados pela ultradireita, seja o bolsonarismo, sejam outros grupos extremistas, como o MBL. Por vezes tais episódios ocorrem no âmbito de interações humanas diretas, como em provocações e assédios a desafetos ideológicos, sempre registrados em vídeos que possam ser replicados no mundo virtual. Assim, provocadores e assediadores se apresentam como justiceiros em defesa da moralidade pública e vítimas do que seria a intolerância de seus alvos, pegos em armadilhas quando reagem a agressões sofridas. O esculacho no mundo real torna-se lacração no virtual, excitando seguidores, que podem dar vazão a seus instintos mais primitivos.

Mr. Magoo e os economistas, Manfred Back e Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

Ortodoxos ou heterodoxos, os arautos da economia de manual se recusam a enxergar a realidade

Mr. Magoo, personagem de desenho animado nos bons tempos da televisão. Um velhinho bem de vida, teimoso e com deficiência visual, se recusava a usar óculos. Sua péssima visão, causada pela miopia, o colocava sempre em situações perigosas e engraçadas. Onde sempre escapava ileso. Nossos ­Magoos da macroeconomia de manual também se recusam a usar óculos. Sua deficiência não é visual, é uma miopia em relação à realidade e às relações econômicas. A deficiência visual é democrática, essa miopia se estende aos ortodoxos e heterodoxos. Ambos têm seus campos de visão estreitos e dividem a economia, enxergando-a em blocos. O sistema financeiro e o rentismo são vistos como anomalias do sistema, um tumor, uma metástase disfuncional.

A indefinição ainda predomina, por Murillo de Aragão

Veja

O acaso vai continuar no comando do processo eleitoral

A expectativa sobre o resultado das eleições é uma constante no mundo econômico. Em sucessivos eventos promovidos em torno da premiação do Person of the Year, em Nova York, o tema era as pesquisas eleitorais e as tendências. Todos queriam saber para onde o Brasil irá com o novo presidente. O recente desempenho de Lula surpreendeu alguns em Wall Street, mas não todos. Outros se mostravam decepcionados com as últimas notícias. De fato, nos últimos tempos, parte expressiva dos analistas de mercado começou a considerar a eleição presidencial praticamente decidida em favor de Flávio Bolsonaro. Essa leitura, contudo, padece de um vício recorrente: tenta projetar de forma linear um processo que, por natureza, é descontínuo, contingente e sensível a circunstâncias. Enfim, a campanha ainda está em seu estágio inicial. As eleições serão submetidas aos fatos novos. O vazamento do áudio de Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro sobre o filme que conta a história de Jair Bolsonaro, por exemplo, já repercute nas preferências eleitorais e prova a letalidade de certas novidades para os candidatos. O que se observa agora é um instantâneo, construído a partir de pesquisas preliminares, movimentos incipientes de aliança e, sobretudo, expectativas. Ainda não é um filme.

Brasil 2070: que legado queremos deixar? Por Marcus Pestana

O Brasil, de 1980 a 2025, prisioneiro da armadilha de renda média, viu o PIB per capita global ultrapassar o PIB per capita brasileiro. Em 1980, a riqueza brasileira gerada por nossa economia em um ano, dividida pela população, era de US$ 4.427. Em 2025, foi de US$ 23. 381. Ou seja, teve um crescimento de apenas 428%. Enquanto isso, o PIB per capita global foi de US$ 3.380 para US$ 26.189. Um incremento de 675%. No mesmo período os países que já eram ricos tiveram um crescimento de 625% e os países emergentes avançaram 1.128%.

Mannheim e a questão dos intelectuais, por Ivan Alves Filho*

Prefácio de Ivan Alves Filho para a obra Mannheim e a questão dos intelectuais, de André Malina, Rio de Janeiro, Autografia Editora, 2026. 

Uma questão sempre me acompanhou e ela tem que ver com a influência das ideias marxistas na construção da cultura contemporânea. Pensadores, estrategistas políticos, artistas plásticos, escritores, cineastas, pesquisadores das ciências – foram muitos os homens da intelligentsia atraídos pelas propostas que Karl Marx e Friedrich Engels começaram a esboçar no célebre Manifesto do Partido Comunista, de 1848. E que, posteriormente, Marx aprimoraria, no tocante à sua concepção do desenvolvimento das ideias, no seu livro Teses sobre Feuerbach, quando estabelece os vínculos entre teoria e prática – a práxis, justamente.

Poesia | Soneto do Amigo, de Vinicius de Moraes

 

Música | Ze Keti - Opinião