terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Bazar mundial às moscas

Vinicius Torres Freire
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


Queda abrupta do comércio mundial derruba Japão e pode criar nova onda de deterioração de empresas

ATÉ A METADE de fevereiro, o valor das exportações brasileiras foi 22% menor que o do primeiro mês e meio do ano passado. As importações caíram 14%.

No Japão superexportador de manufaturados, a queda das vendas externas nos primeiros 20 dias de janeiro foi de 46%, também em relação a 2008. Em dezembro, as vendas de produtos japoneses para o exterior já haviam levado um tombo inédito de 35%. O massacre da serra elétrica do PIB japonês do trimestre final de 2008, queda de 3,3% ante o trimestre anterior, deveu-se em grande parte ao desastre comercial.

Nos principais portos do Atlântico, os custos do frete de grãos caíram algo em torno de 60% a 70% em relação a fevereiro de 2008.

Dados comerciais de um mês e pouco dizem também pouco, é preciso lembrar. Mas quedas tão abruptas são inusuais. Diga-se também que o Brasil não depende necessariamente do comércio exterior para sustentar seu crescimento. Ou melhor, ao menos não depende da mesma maneira como o Japão. Para nós, mais crítico que o choque direto na produção é a escassez de dólares que um déficit comercial grande pode causar. Mas um outro aspecto relevante dos números acabrunhadores do comércio não é apenas o impacto dessa baixa na produção exportável do país. O encolhimento vertiginoso do mercado mundial, com as decorrentes baixas de preços, é obviamente um mau sinal para o investimento, doméstico e internacional.

O investimento estrangeiro na produção não é apenas uma fonte importante de aumento do capital no Brasil -é também uma fonte de dólares para balancear as contas externas do país. Até dezembro, a conta do investimento estrangeiro direto andava felizmente muito bem. Mas, a princípio, ou pelo menos por enquanto, déficits externos também não parecem ameaça imediata e direta à economia brasileira, a não ser no caso de o país crescer demasiadamente neste ano, em descompasso excessivo com o resto do mundo.

Mas, além do risco de protecionismo, que provocaria baixas ainda maiores no comércio mundial, a baixa abrupta nas vendas dos grandes países exportadores parece em linha com as piores previsões para o PIB das maiores economias do planeta.

Alguns calculistas e analistas da economia chinesa dizem que a queda de 17,5% nas exportações chinesas de janeiro, a maior em 13 anos, não foi tão grave se considerado o "efeito calendário" (as festas do Ano-Novo chinês). Pode ser. Porém os cálculos são díspares, e os chineses também estão importando menos componentes e insumos (pode ser expectativa de exportações ainda menores). De resto, o comércio "doméstico" asiático, entre os países da região, vem caindo desde outubro. Enfim, os demais grandes exportadores, como Japão, Alemanha e Estados Unidos, não passaram a vender menos porque estavam a soltar fogos para a virada do ano chinês.

Comércio menor implica menos investimentos, o que resulta em menos gastos de capital, o que pode detonar a saúde das empresas. Por ora, as piores notícias aparecem em fábricas de bens de consumo, como carros. Mas a baixa abrupta do comércio pode criar uma nova onda de deterioração "corporativa", como se diz hoje em dia.

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