domingo, 17 de maio de 2026

Tempos difíceis para a direita, por Míriam Leitão

O Globo

O envolvimento com Daniel Vorcaro se entranha entre políticos da direita bolsonarista, que já se considerava vencedora da eleição

A direita vive tempos difíceis. Nenhuma explicação do senador Flávio Bolsonaro fica de pé. Ciro Nogueira torce para que a onda sobre Flávio seja tão grande que o país esqueça da mesada que ele recebia. O ex-governador Cláudio Castro foi visitado pela Polícia Federal. Os analistas de mercado suspiram de saudade da candidatura presidencial que não foi e poderia ter sido, a do governador Tarcísio de Freitas. A direita bolsonarista briga com os outros pré-candidatos da direita que criticaram Flávio Bolsonaro. Eduardo Bolsonaro vê a onda que atingiu seu irmão se voltar também contra ele. O ex-governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, finge de morto enquanto o BRB luta para sobreviver. E a família Vorcaro já tem quatro elementos na cadeia.

Flávio Bolsonaro afirmou, há dois meses, que nunca teve contato com Vorcaro. No áudio divulgado na última quarta-feira pelo site "The Intercept Brasil”, ele aparece cobrando dinheiro do banqueiro – “muita parcela para trás” e “muita conta para pagar”– e declara haver entre eles união estável, “irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente”.

O repórter do site fez uma pergunta direta sobre o financiamento de Vorcaro. O senador respondeu: “Mentira, de onde você tirou isso? Pelo amor de Deus. Militante não dá, cara”. Na quinta-feira, em entrevista à GloboNews, disse que não tinha afirmado que era mentira. Um espanto negar a fala da véspera. Tal pai, tal filho. Jair, quando presidente, atacava repórteres e mentia sobre seus atos e palavras.

Na versão atual, Flávio Bolsonaro afirma que o filme recebeu só dinheiro privado, e que não falou antes porque o contrato é confidencial. A verdade: o contrato caducou, portanto, poderia ter sido divulgado. O filme tinha verba pública, sim. O banqueiro que o financiava deixou um rombo de R$ 12 bilhões em banco estadual, um déficit de R$ 2 bilhões em fundos de previdência de servidores, e um buraco de R$ 55 bilhões no Fundo Garantidor de Créditos (FGC), formado em parte por depósitos do Banco do Brasil e Caixa. A rota da doação é nebulosa. Sai de fundos do ecossistema do Master e termina num fundo gerido pelo advogado que cuidou do processo de imigração de Eduardo. A dúvida que paira é se esse recurso financiou também Eduardo.

No começo desse escândalo, Daniel Vorcaro era um banqueiro acusado de gestão temerária. Hoje já se sabe que é chefe de máfia. Tinha uma milícia privada de intimidação, um grupo de hackers para invadir sistemas digitais públicos, era um corruptor serial e mantinha infiltrados em órgãos de controle. Seu pai, Henrique, foi preso semana passada acusado de ser demandante, beneficiário e operador financeiro do esquema mafioso. O primo também foi preso após fracassar na fuga num carrinho de golfe. O cunhado já estava preso. Vorcaro tentava comprar todo mundo, mas teve especial sucesso na direita.

Ciro Nogueira, o “amigo da vida” de Vorcaro, foi acusado de ato de ofício. Ou seja, recebeu dinheiro e em troca usou seu mandato para beneficiar o Master na emenda que arrombaria o FGC para salvar o banqueiro encrencado. As suspeitas sobre Ciro são fortes. O Ministério Público avaliou que “os elementos da investigação revelam indícios concretos de estreita relação pessoal, empresarial e financeira entre os investigados”. Era o vice dos sonhos de Flávio e depois passou a ser tratado como tóxico pelo mesmo Flávio, que agora também se tornou tóxico.

O ex-governador bolsonarista de Brasília, Ibaneis Rocha, tem poucas chances de escapar de tudo isso, dado que o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa, escolhido por ele e que comandou todas as falcatruas no banco em favor de Vorcaro, está fazendo delação premiada. O ex-governador bolsonarista no Rio, Cláudio Castro, devia explicação sobre o R$ 1 bilhão que a previdência dos servidores aplicou em papéis podres de Vorcaro. Na sexta, foi alvo da Operação Sem Refino sob a suspeita de ter colocado a máquina do Estado em favor do maior sonegador do país, Ricardo Magro, um foragido da Justiça, que mora hoje nos Estados Unidos.

Todos esses casos atingiram a direita bolsonarista. E a outra direita? Não tem vida independente desde que se deixou capturar pelos extremistas. Poderia até escapar deste destino de satélite, mas anda meio perdida. Quanto a Flávio Bolsonaro, ele posava como vitorioso de véspera e agora tenta salvar a candidatura.

 

Nenhum comentário: