O Globo
A explicação não colou muito — ainda —, mas
acredito que seja apenas questão de tempo
A quarta-feira foi marcada pelo terremoto da
revelação do áudio em que Flávio Bolsonaro pede dinheiro a Daniel
Vorcaro para realizar um filme sobre o pai. Em tempos normais, uma
revelação dessa magnitude teria o poder de destruir uma candidatura
presidencial. Um candidato recebe dezenas de milhões de um banqueiro que
fraudou o sistema financeiro e corrompeu todo o sistema político brasileiro.
Seria devastador.
Mas não vivemos tempos normais. Vivemos tempos em que uma fiscalização da Anvisa encontra contaminação em produtos domésticos de limpeza e gera uma reação de solidariedade porque os proprietários da empresa são bolsonaristas — e uma fiscalização que autua a empresa só poderia ser perseguição política.
Flávio Bolsonaro reagiu à divulgação do áudio
observando, com grande tranquilidade, que seu pedido não tinha nada demais,
consistia apenas num pedido de financiamento privado a um filme. A explicação
não colou muito — ainda —,mas acredito que seja apenas questão de tempo. Hoje,
toda a nossa percepção do mundo está distorcida por identidades políticas
hipertrofiadas, até os índices de percepção econômica antes usados pelos bancos
centrais como termômetro das atividades econômicas.
O Índice de Sentimento do Consumidor da
Universidade de Michigan é uma das medidas mais respeitadas de percepção
econômica nos Estados Unidos.
Mensalmente, uma amostra nacional de consumidores responde a cinco perguntas
que medem a confiança do consumidor, uma combinação de percepção da situação
econômica recente com expectativa futura. A partir de março de 2023, os
pesquisadores da universidade começaram a recolher, além dos dados de
percepção, a identidade política dos entrevistados. Descobriram que a percepção
econômica está fortemente moldada (e distorcida) pela identidade política.
No gráfico abaixo é possível ver que, entre
os democratas, o índice caiu de 88, em novembro de 2024, para 52 em março de
2025, depois da eleição de Donald Trump. Entre os republicanos, aconteceu o
oposto: o índice cresceu de 57, em novembro de 2024, para 87 em março de 2025.
Vale observar que não houve nenhuma mudança econômica significativa no
intervalo. A mera eleição de Trump fez seus eleitores melhorarem de percepção econômica
e os eleitores da candidata adversária piorarem.
Aqui no Brasil, Felipe Nunes e Thomas
Traumann observaram o mesmo fato no livro “Biografia do abismo”. Em outubro de
2022, no final do governo Bolsonaro, 65% dos eleitores de Lula diziam
que a economia brasileira tinha piorado no último ano, enquanto apenas 11% dos
eleitores de Bolsonaro achavam a economia pior. Com a eleição de Lula, o quadro
se inverteu. Em abril de 2023, sem que nenhuma mudança econômica relevante
tivesse acontecido, apenas 20% dos eleitores de Lula passaram a dizer que a
economia havia piorado, enquanto entre os eleitores de Bolsonaro o índice subiu
para 49%.
Se até a percepção econômica está distorcida
a esse ponto, dificilmente o juízo sobre a licitude ou razoabilidade da
interação com um empresário será objetivo — basta lembrarmos o que aconteceu no
petrolão.
Apostei com meu amigo Waldomiro José da Silva
Filho que, em dois meses, a candidatura de Flávio Bolsonaro terá assimilado o
baque e seguirá competitiva contra Lula. Não é desejo meu, é a constatação de
como as coisas funcionam hoje no universo da política.

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