Correio Braziliense
Lula tem sido um raro exemplo de líder que
tenta defender ao mesmo tempo os desejos e valores específicos do Brasil sem
ignorar os compromissos humanistas com o mundo inteiro
O mapa-múndi não é mais a soma de países independentes, cada um com a própria cor; a globalização transformou cada país em um pedaço do mundo, com interesses entrelaçados. Mas a política continua por país. Os líderes ficam perplexos porque seus países são pedaços do mundo, seus habitantes vivem problemas globais, mas seus eleitores continuam nacionais na defesa dos interesses do seu país no presente. Embora estejam entrelaçados pela crise ecológica, pressão demográfica e drama social, seus líderes não têm propostas que atendam aos interesses específicos de seus eleitores e ofereçam solução para os problemas globais. Diferentemente do que ocorria até algumas décadas atrás, a democracia nacional hoje se opõe ao humanismo planetário. A Europa se adaptou ampliando suas fronteiras formando a Comunidade Econômica Europeia, mas tratando os habitantes dos demais países como imigrantes indesejáveis, como se fossem invasores. Ao unirem-se, isolaram-se para atender aos desejos dos eleitores europeus, em detrimento dos seres humanos do restante do mundo.
Lula tem sido um raro exemplo de líder que
tenta defender ao mesmo tempo os desejos e valores específicos do Brasil sem
ignorar os compromissos humanistas com o mundo inteiro. Estadista com dois
chapéus: o do país e o da humanidade. Mostrou isso ao liderar a COP30, mas
entendendo que o eleitor brasileiro ainda está mais preocupado com o preço da
gasolina hoje do que com o nível do mar na próxima década. Apresentou mapa do
caminho para abolir o uso de combustíveis fósseis no mundo, mas
contraditoriamente atendeu ao interesse do eleitor do Amapá por produção de
petróleo na Amazônia. Pode pagar um preço eleitoral quando os interesses locais
e imediatos defenderem com vigor a construção de barreiras contra a imigração
social dos pobres, muros contra a imigração geográfica de estrangeiros e
desregramento da proteção do patrimônio ambiental que pertence aos
imigrantes geracionais, que ainda não nasceram.
Desde a posse de Donald Trump, em nenhum
momento Lula deixou de falar com altivez, representando os eleitores
brasileiros, e ao mesmo tempo os habitantes do chamado Sul Global, inclusive os
pobres dos EUA e da Europa. Enquanto dirigentes, inclusive de grandes países,
se apequenavam assustados com as consequências do tarifaço, Lula enfrentou o
problema buscando novos mercados e aprovando medidas de reciprocidade contra os
Estados Unidos. Defendeu a soberania nacional, sem deixar de defender os povos
do Sul Global. Denunciou o genocídio praticado por Israel contra o povo de
Gaza, mesmo diante da pressão dos que acusam de antissemitismo aqueles que
criticam especificamente ao atual governo de Israel. Criticou a invasão da
Ucrânia sem cair no discurso antirrusso dos membros da Otan. Apoiou a não
disseminação de armas nucleares, mas não apoiou o bombardeio ao Irã.
Ainda é cedo para saber se o exemplo do
estadismo humanista e planetário de Lula terá sucesso eleitoral suficiente para
lhe dar mais um mandato ou se uma eventual derrota impedirá que ele inspire
lideranças políticas de outros "pedaços do mundo" a se tornarem
lideranças para o mundo inteiro. Mas, desde já, ele marcou a história como um
líder planetário, talvez o primeiro a tentar combinar democracia com humanismo.
Já é, portanto, um exemplo.
Graças ao seu talento e firmeza, mas
sobretudo por ser presidente do Brasil: país que, além do expressivo tamanho, é
aquele que mais se parece com o conjunto da atual civilização com seus sucessos
e fracassos. Diferentemente de outros países pequenos, mais desenvolvidos ou
mais atrasados, os problemas do Brasil são problemas do mundo, e nossas
soluções servem para o mundo. Na fronteira cuidamos dos imigrantes
venezuelanos, na defesa dos nossos povos primitivos regularizamos os arrozais,
e na proteção do meio ambiente enfrentamos garimpeiros e regulamentamos o
agronegócio para proteger nossas matas. Com o Bolsa Escola/Família, mostramos
como cuidar com humanismo da pressão migratória interna. Daqui pode partir o
exemplo da ideia de um Bolsa Família Internacional que, no lugar de barrar
imigração com muros, faz desnecessária a emigração graças a uma renda mínima
local.
*Cristovam Buarque — professor emérito da Universidade de Brasília (UnB).

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