quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

Celso Ming - Haddad e a conta a pagar

O Estado de S. Paulo.

Uma coisa é sair por aí dizendo o que tem de ser feito na economia e proclamar sustentabilidade social e fiscal, sem explicar como se faz isso. E outra é executar essas coisas. O governo Lula começa a ter que lidar com trombadas e a ter de fazer escolhas dolorosas.

Política econômica é como o velho jogo do pega-varetas. É preciso concentração e habilidade para libertar pauzinho por pauzinho, porque o deslocamento de um pode desequilibrar irremediavelmente o outro e fazer ruir o todo.

O caso dos subsídios federais aos combustíveis que levou o governo ao primeiro bate-cabeças é a prova disso. O ministro Fernando Haddad dava como certa a revogação dessas isenções tributárias, porque entendeu que é preciso reduzir o rombo fiscal. A área política vetou, pelo seu impacto sobre o orçamento do consumidor. A decisão do presidente Lula foi adiar a revogação das isenções – o que desautorizou Haddad –, que tinha anunciado outra coisa.

O ministro assume a Fazenda carregado de promessas. Mas, até agora, não foi capaz de apontar direções. Non hay camino; se hace camino al andar. E isso parece pouco diante do rombo fiscal de mais de R$ 230 bilhões e da rota de colisão pela qual se encaminha a dívida pública.

Deixar rolar esse déficit sem distribuição de contas a pagar pela sociedade vai produzir efeitos sobre cada pauzinho do pega-varetas. Um deles é mais inflação que, por sua vez, exige juros lá em cima, que Haddad já considera excessivos. Enfrentar mais juros é tirar o pé do acelerador, é tolerar mais desemprego e menos renda. O mais pobre paga o preço mais alto porque não tem as mesmas condições de defesa com que contam os mais ricos. Ou seja, déficit fiscal é antipolítica social.

Outra tentação é agir como a presidente Dilma, que tentou manter em pé sua “nova matriz econômica”. Entre outros desastres, obrigou o então presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, a derrubar os juros a canetadas. Produziu mais inflação e mais confusão.

Mais um efeito de uma decisão desastrada pode ser a quebra de confiança ou a não criação de confiança. E isso tem potencial para reduzir investimentos e para elevar ainda mais as cotações do dólar, que tendem a produzir mais inflação a partir do aumento dos preços dos importados.

Como já está na PEC da Transição, Haddad garantiu também que trataria de decidir por nova âncora fiscal para substituir o teto de gastos que, em seu discurso de posse, o presidente Lula considerou “uma idiotice”.

Mas até onde Haddad poderá repetir o experimentalismo intervencionista do governo Dilma? Haddad é um animal político. Como todo político, é movido a ambições políticas. Ele sabe que, se conduzir uma política econômica equivocada, corre o risco de ter suas asas políticas irremediavelmente cortadas.

 

4 comentários:

Anônimo disse...

Celso Ming é um animal jornalista acometido de raiva dilmista.

Anônimo disse...

Celso Ming, competente jornalista econômico. Seu artigo é realista e bem fundamentado.

Anônimo disse...

Para quem entende o Sr. é perfeito,há muitos anos que eu não deixo de ler seus comentários, aprecio gente inteligente, p mundo está cheio de imbecil invejosíssimo.

ADEMAR AMANCIO disse...

A Dilma é ótima,o colunista é ótimo e os três comentários também são ótimos,rs.