Profundo conhecedor de História Econômica,
Pierre Vilar foi, ao lado de Eric Hobsbawm, o historiador marxista de maior
peso no século XX. Sua trajetória impressiona. Assim, Vilar pertenceu à
célebre revista Annales, trabalhando ao lado de Lucien Febvre e Marc
Bloch. Era um admirador da obra de Ernest Labrousse, destacando sua
contribuição inigualável para o conhecimento da Revolução Francesa de 1789, ao
estudar a série estatística sobre o recuo da produção de trigo no país.
Labrousse comprovou que a Revolução de 1789 estourou quando se deu um recuo nas
forças produtivas da França, frustrando as aspirações de consumo das massas. Ou
seja, a revolução não estoura na penúria nem na abundância: se existe uma lei
do processo revolucionário, essa tem que ver com a quebra ou reversão da
expectativa das massas populares. Nesse sentido, o empobrecimento pode ser
ainda pior do que a pobreza propriamente dita. Autor dos clássicos Ouro
e moeda na História: 1540 – 1920 e Desenvolvimento Económico e
Análise Histórica (este último citado aqui em edição portuguesa),
Pierre Vilar ficou preso em vários campos de concentração nazistas, entre
1940 e 1945. Naturalmente, essa experiência o marcou muito. O próprio Marc
Bloch seria torturado e depois fuzilado em um campo de concentração.
Quanto a Maurice Godelier, ele pesquisou nos
arquivos que guardam manuscritos de Karl Marx, organizando em particular os
textos do revolucionário e pensador alemão relativos ao Modo de Produção
Asiático (MPA), fundamentais para a compreensão da transição da sociedade sem
classes para a sociedade de classes. Eu me recordo que Maurice Godelier
considerava que o antropólogo Lévi-Strauss, de quem fora assistente por alguns
anos, se encontrava “na mesma ordem de grandeza de Karl Marx”. Godelier
lembrava com frequência que o homem, diferentemente dos demais primatas, não se
limitava a viver em sociedade, mas produzia sociedade para poder viver.
Sem dúvida a EHESS reunia o que havia de
melhor em matéria de ensino no país, juntamente com o Collège de France e a
Science Po. Situada na Rue du Bac, em pleno Quartier Latin, estava rodeada de
livrarias como a Joie de Lire, do também editor François Maspero, e salas de
cinema da melhor qualidade. Sozinha, a Rue du Bac valia por uma aula – e que
aula! – de Literatura: ali viveu Mme Staël, por cerca de dez anos. E nesta rua
morreu, nos braços da sua amada Juliette Récamier, François-René de
Chateaubriand. Mais: nela morou ainda André Malraux, quando ali
escreveu A Condição humana. O norte-americano James Baldwin se
hospedou por um período no Grand Hôtel da Rue du Bac. Romain Gary, estupendo
romancista, morava na Rue du Bac.
Há momentos em que acredito ter me matriculado no curso errado..
*Ivan Alves Filho, historiador

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