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O verdadeiro debate por trás do fim da
jornada 6×1
O possível fim da jornada 6×1, seis dias de trabalho para um de descanso, tem sido apresentado como uma mudança de grande impacto econômico. No debate público, a proposta frequentemente aparece cercada de previsões alarmistas sobre emprego, produtividade e crescimento. Mas, quando analisada com mais cuidado, a evidência sugere um quadro bem mais modesto. Trata-se, essencialmente, de uma redução marginal na jornada formal de trabalho, com efeitos macroeconômicos limitados.
Levantamentos sobre o mercado de trabalho,
inclusive as análises do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e de outros
centros de estudo, indicam que mudanças moderadas na duração da jornada
raramente provocam alterações significativas nos níveis de emprego ou
desemprego. Empresas tendem a se ajustar, reorganizando escalas, turnos e
contratos. Não há sinais consistentes de que reduções desse tipo levem a uma
destruição relevante de postos de trabalho.
Do ponto de vista dos trabalhadores, a
mudança pode, no entanto, ter efeitos positivos no curto prazo. Caso as empresas optem por
manter o mesmo volume total de horas trabalhadas, será necessário recorrer a
horas extras ou a novas contratações pontuais. Em ambos os casos, pode haver
algum aumento de renda para parte dos trabalhadores formais. Além disso, a
melhora nas condições de descanso e na qualidade de vida não é desprezível – e
faz sentido do ponto de vista social.
Ainda assim, é importante não exagerar o
alcance da medida. O debate sobre a jornada de trabalho, embora relevante, não
toca no principal problema da economia brasileira. Com frequência, afirma-se
que o País sofre de baixa produtividade. Mas essa leitura, isoladamente, pode
ser enganosa. O verdadeiro desafio está no baixo valor adicionado das
atividades econômicas.
Grande parte da força de trabalho brasileira
está concentrada em setores que produzem bens e serviços com baixo conteúdo
tecnológico e reduzida sofisticação produtiva. Nessas atividades, mesmo
trabalhadores eficientes geram pouco valor econômico por hora trabalhada. O
resultado aparece nas estatísticas como baixa produtividade, mas a raiz do
problema está na estrutura produtiva.
Esta é a principal diferença entre economias
ricas e países de renda média. Nas economias avançadas, uma parcela
significativa da produção ocorre em setores intensivos em tecnologia,
conhecimento e inovação, como indústria de alta complexidade, serviços
sofisticados e Tecnologia da Informação. Nesses segmentos, cada trabalhador é
capaz de gerar muito mais valor.
No Brasil, ao contrário, houve nas últimas
décadas uma perda relevante de complexidade produtiva, com redução do peso da
indústria mais sofisticada e maior dependência de atividades de menor valor
agregado. Esse movimento ajuda a explicar por que o País fica atrás de
economias avançadas – e até de alguns emergentes – nos indicadores de
produtividade.
A própria forma de medir produtividade
reforça essa interpretação. Em geral, calcula-se a produtividade do trabalho
como o valor adicionado dividido pelo número de trabalhadores. Se a economia
gera pouco valor, porque produz bens e serviços pouco sofisticados, o indicador
será baixo, independentemente do esforço individual dos trabalhadores.
Não há evidência de que o trabalhador
brasileiro seja menos dedicado ou eficiente. Ao contrário, a jornada média no
Brasil já é relativamente longa, superior àquela observada em muitas economias
desenvolvidas. O problema, portanto, não está na quantidade de horas
trabalhadas, mas na qualidade econômica das atividades realizadas.
Nesse contexto, mudanças na jornada, como o
fim da escala 6×1, têm impacto limitado sobre o desempenho agregado da
economia. Elas podem melhorar o bem-estar dos trabalhadores e gerar pequenos
ganhos distributivos, mas não alteram de forma significativa a trajetória de
crescimento do País.
O que realmente pode transformar o desempenho
econômico brasileiro são políticas voltadas ao aumento do valor adicionado:
investimento em inovação, desenvolvimento tecnológico, fortalecimento da indústria
e estratégias de sofisticação produtiva. Em outras palavras, o desafio central
do Brasil não é fazer os empregados trabalharem mais – ou menos – horas, mas
produzir melhor. Porque, no fim, não é o relógio que define a riqueza de um
país, e sim aquilo que ele é capaz de criar dentro dele.
Publicado na edição n° 1406 de CartaCapital, em 01 de abril de 2026.

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