sexta-feira, 27 de março de 2026

Inteligências, por José Eli da Veiga*

Valor Econômico

Decisões que antes pertenciam ao espaço da política e da deliberação pública são substituídas por mecanismos opacos de modulação algorítmica

Sistemas algorítmicos exercem cada vez mais influência em decisões judiciais, políticas públicas, campanhas eleitorais, rotinas administrativas e no próprio funcionamento da esfera pública em geral. Mas não parecem alterar o contraste entre os pavores e os entusiasmos relativos à inteligência artificial (IA).

Segundo alguns conceituados analistas, sistemas de IA tendem a destruir instituições cívicas capitais. Corroer a expertise, prejudicar decisões e isolar as pessoas umas das outras. Contra os desejáveis níveis de transparência, cooperação e responsabilidade, há quem garanta que a IA é um “câncer”.

Numa economia baseada em intensa extração de dados comportamentais, a IA não apenas organiza informações, mas antecipa, direciona e molda condutas humanas. Decisões que antes pertenciam ao espaço da política e da deliberação pública são substituídas por mecanismos opacos de modulação algorítmica, concentrados nas mãos de gigantescas plataformas privadas.

Além disto, é uma infraestrutura pesada, dependente de recursos naturais, trabalho humano precarizado e escolhas políticas. Na qual os algoritmos reproduzem e ampliam desigualdades — raciais, socioeconômicas e geopolíticas —, além de introduzir novas assimetrias de poder.

No extremo oposto, não falta quem veja na IA uma oportunidade decisiva de fortalecimento institucional. Enfatizando que ela aumentará substancialmente a capacidade produtiva e administrativa de Estados e organizações.

Para eles, o problema não estaria na tecnologia em si, mas na forma como seus ganhos são distribuídos. Instituições bem desenhadas poderiam usar sistemas inteligentes para melhorar políticas públicas, ampliar o acesso a serviços e liberar servidores humanos de tarefas repetitivas.

Mas também há quem prefira rejeitar a alternativa. Pois a IA seria uma tecnologia “plástica”, com efeitos que dependem dos incentivos econômicos, das regras institucionais e do grau de controle democrático. Sem regulação, tende a concentrar poder e renda, mas, com adequada gestão, pode favorecer participação, transparência e inovação institucional.

A ideia-chave desta espécie de “caminho do meio” é que os impactos da IA não estarão predeterminados por linhas de código. Mas, sim, pelas decisões coletivas que definirem quem controla os sistemas, com quais objetivos e sob quais mecanismos de responsabilização.

Não é outra a postura que mais pode estimular o pragmatismo: botar tamanha controvérsia em banho-maria de fogo baixíssimo, para melhor investigar as dinâmicas evolutivas de empresas que já façam uso dos sistemas algorítmicos.

Foi o que fez um time de 14 profissionais dedicados a este tipo de prática, cujas principais conclusões podem ser sintetizadas em meia dúzia de afirmações.

Isolada, a IA tende a gerar ganhos pontuais de eficiência. Mas, se incorporada a uma boa estratégia, pode redefinir o papel das empresas na economia e na sociedade. Ela só funciona bem se integrada a uma visão mais ampla de sustentabilidade, propósito e regeneração.

O comportamento empresarial contemporâneo precisa superar a lógica extrativista. Em um contexto de crise climática, desigualdade social e instabilidade econômica, modelos regenerativos — capazes de restaurar recursos naturais, fortalecer comunidades e criar valor de longo prazo — deixam de ser periféricos e passam a ser centrais.

Nesta perspectiva, a IA funciona como catalisadora: ao ampliar a capacidade analítica e preditiva das organizações, permite decisões mais informadas, responsáveis e voltadas a objetivos socioambientais.

Muitas empresas aplicam soluções de IA dissociadas da cultura organizacional, da governança e da diversidade, o que limita os seus melhores efeitos. Não terão êxito sem integração entre tecnologia, pessoas e valores, além de lideranças capazes de traduzir dados em boas decisões econômica e sociais.

No fundo, a IA tende a dar um novo sentido ao termo “estratégia”. Em vez de planos rígidos e lineares, as organizações precisam operar com aprendizagem contínua, adaptação e visão de longo prazo. E há empresas de diferentes setores usando inteligência artificial para inovar, reduzir riscos e reposicionar os seus negócios em direção a uma economia mais sustentável.

Em suma, não se trata apenas de usar inteligência artificial, mas de convertê-la em “inteligência estratégica”, colocando a tecnologia a serviço de um modelo de desenvolvimento menos vulnerável, versátil, ético e regenerativo.

São justificativas bem circunstanciadas destes seis entendimentos que constituem a riqueza reflexiva do livro “Inteligência Estratégica — Como IA e Regeneração Transformam os Negócios” (Exame/Saint Paul).

Quase todo o conteúdo é de produção coletiva, apresentado em capítulos em coautoria com a organizadora Regina Magalhães. Consultora em inovação e sustentabilidade, Regina é doutora em ciência ambiental (Procam-USP), teve formações executivas no MIT e Stanford e ocupou posições de liderança na Microsoft, Johnson Controls, Schneider Electric e IFC.

*José Eli da Veiga é professor sênior do Instituto de Estudos Avançados da USP.

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