segunda-feira, 30 de março de 2026

Por que o Brasil passou à frente dos EUA em ranking global de democracia, por João Gabriel de Lima*

Folha de S. Paulo

Instituto aponta que líderes autoritários pesam mais que escândalos de corrupção na deterioração do regime político

País perdeu status de democracia liberal em relatório do V-Dem, que alertou para a corrosão de instituições sob Trump

[RESUMO] Autor expõe como funcionam e para que servem os rankings que avaliam a qualidade da democracia em todo o mundo. Os relatórios do V-Dem, instituto que produz o levantamento mais utilizado, apontam que líderes com tendências autoritárias como Trump são os grandes responsáveis pela erosão dos regimes democráticos, mais que casos de corrupção e guerra entre Poderes.

A democracia americana está doente. O check-up feito pelo V-Dem apontou disfunção no sistema judicial, falência múltipla de liberdades civis e hipertrofia da Presidência da República, sintomas causados por um vírus chamado Donald Trump.

O instituto rebaixou os Estados Unidos à categoria de democracia eleitoral, uma espécie de segunda divisão dos regimes de liberdade. Na pontuação final, ficou atrás de países como Coreia do Sul, Japão, Portugal e Brasil.

Rankings de democracia como o V-Dem, o mais utilizado em pesquisas acadêmicas na área de ciência política, há muito tempo saltaram o muro das universidades e entraram na corrente sanguínea do debate público. Nas redes sociais brasileiras, nossa colocação à frente dos EUA gerou um questionamento: como podemos ter uma boa pontuação se estamos mergulhados em uma crise institucional, em que um escândalo financeiro abala a credibilidade do Judiciário e joga os Poderes uns contra os outros?

Para responder a essa pergunta, é necessário entender como funcionam os rankings de democracia, para que servem e como, ao longo dos anos, vêm mostrando que nada tem mais peso para a deterioração dos regimes de liberdade que a existência de um líder com tendências autoritárias.

Donald Trump motivou um capítulo à parte no relatório do V-Dem, da mesma maneira que, em edições anteriores, mereceram destaque o húngaro Viktor Orbán, o indiano Narendra Modi, o polonês Jaroslaw Kaczynski e Jair Bolsonaro.

As eleições constituem o momento central nos regimes de liberdade. Desde pelo menos os anos 1950, no entanto, os cientistas políticos entendem que as democracias são processos contínuos. Entre um pleito e outro, partidos políticos negociam, Legislativos fiscalizam Executivos, ONGs e o poder econômico fazem seus lobbies, a sociedade civil se mobiliza, a academia e a imprensa municiam o debate público —e quanto mais esses atores exercem seus papéis e interagem, mesmo com alto grau de fricção, maior é a qualidade da democracia.

A essa vibração cívica algo caótica, o cientista político Robert Dahl (1915-2014) deu o nome de poliarquia. Resumindo em uma frase uma ideia complexa, poliarquia seria a tradução para o mundo real do conceito original de democracia, um regime em que, em tese, todos teriam o mesmo peso e a mesma influência nas decisões coletivas, um ideal por definição inatingível.

A partir desse insight, Larry Diamond e Leonardo Morlino sistematizaram, na virada do século 21, a ideia de que os regimes de liberdade se aproximariam desse ideal à medida que obedeciam a vários pré-requisitos, indo muito além das eleições livres e justas. Estava dado o alicerce teórico para os rankings de democracia.

O V-Dem reúne dados sobre diversos desses aspectos definidos pelos teóricos da política. Em uma democracia, deve prevalecer a vontade da maioria —a dimensão eleitoral— ao mesmo tempo que são garantidos os direitos de todos —a dimensão liberal.

A alta participação política deve ser valorizada, assim como a capacidade de os cidadãos efetivamente interferirem nos resultados das políticas públicas —os aspectos participativo e deliberativo. Por último, a assimetria de poder e de recursos entre os cidadãos conspira contra o ideal democrático, o que faz o V-Dem valorizar uma quinta dimensão, chamada de igualitária.

O instituto hospedado na cidade sueca de Gotemburgo tabula notas de 4.000 especialistas espalhados pelo mundo. Há sempre, como é óbvio, algo de subjetivo nas avaliações. Os resultados, no entanto, mostram que não há captura política por um ou outro campo ideológico. O processo permite identificar, nos diferentes países, tendências autoritárias de esquerda e de direita, da Venezuela à Índia, da Hungria ao México.

Outra vantagem é que os dados quantitativos permitem acompanhar a evolução dos países. Um artigo publicado em 2019 pelo sueco Staffan Lindberg, diretor do V-Dem, e pela cientista política alemã Anna Lührmann estabeleceu o conceito de autocratização, processo que se verifica empiricamente quando as notas de democracia de um país vão diminuindo recorrentemente.

No artigo, eles propõem que vivemos uma era de autocratização que se segue à terceira onda de democratização definida pelo cientista político americano Samuel Huntington (1927-2008) —a que começou com a Revolução dos Cravos em Portugal e continuou com a queda dos regimes militares latino-americanos e das ditaduras comunistas do Leste Europeu.

Os sucessivos relatórios do V-Dem —e de outros levantamentos similares, como o da Freedom House americana e o da revista britânica The Economist— vêm infelizmente confirmando a tendência.

Os processos de autocratização, no entanto, não começam, como no passado, com quarteladas militares ou revoluções armadas. No livro "Como as Democracias Morrem", Steven Levitsky e Daniel Ziblatt mostram como os autoritarismos modernos se instalam aos poucos, como doenças insidiosas, promovidos na maioria das vezes por forças políticas que, paradoxalmente, chegam ao poder de forma democrática, pelo voto.

É essa precisamente a principal utilidade dos rankings de democracia. Como na metáfora do início deste texto, eles medem os sinais vitais dos regimes de liberdade, rastreando tendências de deterioração em curto e em longo prazo. Identificam também os fatores que levam a essa deterioração.

A sequência dos relatórios chama a atenção para alguns padrões. Sempre que um líder de tendências autoritárias é reeleito, ganha carta branca para aprofundar o processo de autocratização. Isso aconteceu na Índia com Narendra Modi, que, em seu segundo mandato, aprovou leis que praticamente inviabilizam o jornalismo investigativo. Vem também ocorrendo recorrentemente com Viktor Orbán, na Hungria.

Marcadas para o próximo dia 12 de abril, as eleições húngaras determinarão se Orbán irá conquistar um quinto mandato. Em quatro períodos consecutivos de quatro anos cada, o premiê húngaro estabeleceu uma espécie de "playbook" da autocratização, tendo entre seus seguidores o próprio Donald Trump.

Orbán consagrou, entre outros, o procedimento de cortar verbas de universidades capazes de produzir conhecimento crítico ao governo, algo que vem ocorrendo nos EUA e é apontado, no relatório deste ano do V-Dem, como um dos indícios mais fortes da deterioração democrática americana.

Lidos em conjunto, os relatórios do V-Dem mostram que as doenças da democracia costumam ter nome e sobrenome: os dos líderes que usam o seu poder para corroer as instituições.

Na visão de outro cientista político, o alemão Yascha Mounk, esses presidentes e primeiros-ministros, em geral classificados como populistas, usam o pilar eleitoral das democracias para solapar os seus aspectos liberais. Em outras palavras, se valem da legitimidade conquistada pelo voto para confiscar direitos, como os de imigrantes e grupos minorizados, e restringir liberdades, como as de expressão, imprensa e pensamento acadêmico.

Os relatórios do V-Dem apontam vários casos em que líderes autoritários pioraram a qualidade da democracia nos países em que governaram. O oposto também ocorreu: quando esses presidentes ou primeiros-ministros saíram do poder, as notas dos seus países melhoraram. À esquerda, um caso bastante estudado é o de Rafael Correa, no Equador. À direita, o de Jair Bolsonaro, no Brasil.

O caso brasileiro aponta para um último e importante aspecto: a capacidade das democracias de identificar a deterioração e punir tentativas de golpe.

Em outro livro, "Como Salvar as Democracias", Levitsky e Ziblatt comparam o processo movido contra Jair Bolsonaro com as alegações jurídicas contra Donald Trump no final do seu primeiro mandato. Ambos os presidentes questionaram as urnas e não reconheceram o resultado das eleições. Um perdeu temporariamente os direitos políticos e, mais tarde, foi julgado, condenado e preso por tentativa de golpe. O outro seguiu o seu caminho político e se reelegeu. O resultado está expresso no relatório atual do V-Dem.

É inegável que a democracia brasileira sofre com escândalos de corrupção e guerra entre Poderes. Como no episódio recente da tentativa de golpe, o país precisa demonstrar maturidade e punir os responsáveis —sejam eles governantes eleitos ou juízes do STF—, de forma a preservar as instituições.

No histórico do V-Dem, as maiores ameaças à saúde das democracias não são episódios de corrupção ou brigas de poder, mas, é preciso frisar, as doenças que têm nome e sobrenome e, paradoxalmente, chegam ao poder pelo voto.

*Escreve de Portugal, onde faz doutorado em Ciência Política com foco em autoritarismo


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