Folha de S. Paulo
É de se desconfiar do súbito empenho
suprapartidário para levar as investigações para o palco do Parlamento
Quanto mais se espalha a lama na arena
política, menor a chance de um campo ideológico ficar no prejuízo
O senador Ciro Nogueira (PP-PI) é o mais graúdo,
mas não deve ser o único peixe do Congresso a cair na rede da Polícia
Federal na investigação
do caso Master. O próprio Daniel
Vorcaro confirmou em depoimentos e mensagens no celular como
era ampla sua influência no mundo político.
Questão de tempo, portanto, que apareçam outros a criar embaraços partidários. E, talvez, suprapartidários. Quanto mais gente estiver envolvida, quanto mais ideologicamente ecumênico for o alcance dos atingidos, menor a chance de que esse ou aquele campo político em disputa arque com o prejuízo na eleição.
Essa pode ser a conta que governo e oposição
fazem quando saem de modo
célere e estridente em defesa da instalação de uma comissão de inquérito para
levar o escândalo do Master para a arena do Parlamento.
Independentemente de quem assinou ou deixou
de assinar os vários pedidos de CPI antes
de a polícia chegar em um dos capas-pretas do centrão, ninguém de verdade
queria saber de entrar a fundo no assunto. Tanto que houve acordo para o presidente
do Senado pautar
sessão de vetos presidenciais sem a exigência regimental da leitura de
requerimento para a criação de uma comissão.
Subitamente, despertou-se não só o interesse
mas uma disputa para cada força se mostrar mais empenhada na defesa do
inquérito parlamentar.
Há duas hipóteses para tanto empenho. Uma, a
de que seja apenas uma forma de fazer pose ética para o eleitorado, confiando
no espírito de corpo de Davi
Alcolumbre (União-AP) para refrear os ímpetos investigativos.
Outra, a intenção exposta acima, de que quanto mais se espalhe a lama maior a
chance de a conta acabar em soma zero.
No terreno das intenções mais ou menos
ocultas se inscreve também a confiança dos congressistas em restrições impostas
pelo Supremo Tribunal Federal a comissões de inquérito recentes. Na perda de
poderes, as CPIs esvaziam-se na prática para deleite e segurança dos
pragmáticos que fazem da defesa da ética uma proveitosa figuração eleitoral.

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