quarta-feira, 13 de maio de 2026

Como o detergente e a inflação afetam as campanhas eleitorais de Lula e Trump, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Preços comem os salários nos EUA e ameaçam maioria dos republicanos no Congresso

Preferências políticas por vezes delirantes afetam modo de enxergar a situação da economia

O salário médio nos Estados Unidos perdeu para a inflação nos últimos 12 meses, o que não acontecia desde meados de 2023. Quer dizer, o poder de compra diminuiu.

Em novembro, haverá eleição nos EUA. Em outubro, no Brasil. Os preços aumentam também por aqui. O salário médio, no entanto, cresce 5% mais do que a inflação, ao ano. Mesmo assim, a situação de Lula 4 é periclitante. Está evidente desde o segundo ano de Lula 3 que as melhoras econômicas não influenciam o voto de muita gente ou são relativas.

"Polarização" ajuda a explicar insatisfações e preferências, assim como regionalismos, mudança demográfica e uma desconfiança grande do Estado, do "sistema" e dos impostos. Aliás, em canetada eleitoreira vexaminosa, Lula zerou a "taxa das blusinhas".

Não ajuda também a persistência de problemas que surgiram ainda na epidemia, como nível de preços alto ou aumento do crédito bancário em relação à renda. Mas parece haver mais. Para citar um exemplo anedótico do que são as mentalidades deste mundo, um detergente é motivo de identificação e combate políticos. Não quer dizer que salário, preço e lucro não sejam assunto. Quer dizer que o modo de se enxergar tais coisas está em convulsão.

O prestígio de Donald Trump está no pior nível desde o início do governo, segundo a média das pesquisas calculadas pelo Silver Bulletin: 58,1% dos americanos desaprovam o governo. Na posse, em janeiro de 2024, eram 40%. No que diz respeito a inflação, a desaprovação é de 67,4%.

Preços parecem ter sido um motivo da derrota do Partido Democrata para Trump em 2024. Ainda em meados de 2023 os salários perdiam da inflação. A amargura durou até a eleição. Em 2024, a confiança na economia não era tão baixa desde 1961, com exceção de 2022, ano ainda desgraçado pela Covid (trata-se aqui do índice anual de confiança do consumidor da Universidade de Michigan). Esses números, porém, ainda não explicavam grande coisa.

Para 39% dos americanos, a vida estava então melhor do que em 2020, segundo pesquisa Gallup feita mês e meio antes daquela eleição. Entre os democratas, a vida estava melhor para 72%. Entre os republicanos, para 7%. Entre os minoritários independentes, para 35%.

No Brasil também é assim. A adesão a Lula ou a Bolsonaro em parte define a opinião sobre a situação econômica, e não o contrário, para ficar em apenas uma complicação.

Parecia que os americanos de 2024 viviam em situações socioeconômicas muito diferentes —era verdade apenas em parte. Em parte, viviam em universos diferentes, com prioridades programáticas divergentes. Como no Brasil.

As ideias podem ser diferentes também sobre o que se chama de "costumes", segurança, benefícios sociais etc. em combinações que não se alinham por "esquerda" ou "direita". Mais do que isso, é possível que os eleitores prefiram "detergentes" diferentes, por assim dizer. A politização digital de ninharias da vida cotidiana, como no caso da adesão sectária ao "partido do detergente", indica que a formação de preferências pode ser delirante.

Isto posto, sim, inflação faz diferença. Ou melhor, como se escreve nestas colunas faz um par de anos, um nível de preços alto desde a epidemia, em particular de alimentos, não foi compensado por alta suficiente de salários. Nesta situação, inflação adicional irrita ainda mais —e vem um tanto mais de carestia até o final do ano, com subsídio para combustível, com tudo.

 

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