quarta-feira, 13 de maio de 2026

A alforria do olhar a partir das favelas do Rio, por Denise Mota

Folha de S. Paulo

Experiências e projetos em comunidades cariocas ocupam papel central na revista aMARÉlo

Combate a estereótipos pontua série sobre Carlinhos Brown e seu Candeal em Salvador

Eu não sabia que há quase 15 anos um homem pedala pelas ruas da Maré levando cinema para crianças em vários rincões da favela —a partir de um projetor doado e de potes de óleo de cozinha usados que ele recicla para vender e manter o projeto.

Eu também não conhecia a obra de Albarte, jovem e instigante artista plástico que mora em Guadalupe, na Zona Norte do Rio, e que tece sua criação em consonância com o território que habita. Eu não sabia. Eu não conhecia. Estava fora do radar.

Em meio ao barulho permanente das redes sociais que parecem falar sempre das mesmas coisas —de comentários vazios sobre reality shows a análises catastrofistas do noticiário ou métodos milagrosos para rejuvenescer, emagrecer ou ascender espiritualmente em suaves prestações—, voltar a maravilhar-se com histórias reais e diversas não é pouca coisa.

Elas se reproduzem no cotidiano das favelas e em uma polifonia de personagens reunidos em aMARÉlo, revista lançada pelo projeto homônimo de jornalismo cultural realizado pelo Observatório de Favelas.

Coletivos e veículos de comunicação popular que cobrem as zonas Sul, Oeste e Norte e o Centro do Rio de Janeiro integram a iniciativa, que tem por objetivo central ampliar e atualizar (corrigir?) imaginários (estereótipos?) frequentemente associados à favela (e extensivos à pobreza, em geral).

A partir da relação de confiança estabelecida com seus vizinhos, os comunicadores de aMARÉlo conseguem descrever existências em primeira pessoa, fora do laboratório teórico. E refletir uma dinâmica de vivências que não são passivas, para além de concepções de escassez e violência, e que produzem pensamento e interpretações da realidade.

Sair do piloto automático é um convite que permeia também a biografia documental de Carlinhos Brown, "Meia Lua Inteira", série em exibição pela HBO. Outro filho mais da periferia —um Candeal hoje referência urbana, mas onde não havia nem saneamento quando Brown nasceu (como ele mesmo conta no primeiro episódio)—, o músico, compositor e transformador social fala nas entrelinhas das incontáveis vezes em que rompeu com expectativas, estereótipos e estatísticas.

"Eu venho aqui com todo o respeito/ Apresentar a história de um sujeito/ Que nunca foi um marginal/ E ganhou o mundo com o agogô, pandeiro, timbal e berimbau", enuncia na introdução que se repete a cada episódio. É a tônica desse auto-retrato.

Sua construção não se vincula à marginalidade social (por conta de noções de pertencimento fincadas no elo com o simbólico, o afetivo e o ancestral, traduzidos em capital comunitário, e não pecuniário). Nem a ideias de marginalidade cultural —as distintas origens étnicas e filiações artísticas e intelectuais de Brown colocam a multiplicidade no eixo de sua existência e criação, um universo inteiro atravessado por todos os outros. Muito menos à esfera criminal: "A percussão é uma reestruturadora social. Uma comunidade quando se junta em torno de um benefício comum ressoa positividades".

Neste maio em que oficialmente celebramos a "libertação" dos africanos e descendentes outrora escravizados —povos que compõem a medula da nossa identidade—, um pequeno e transformador passo íntimo de liberdade é a alforria do olhar.

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