sábado, 13 de abril de 2019

Ricardo Noblat: O pagador de promessas

- Blog do Noblat / Veja

O capitão e suas circunstâncias

Diga-se o que quiser do presidente Jair Bolsonaro a propósito dos seus primeiros cem dias de governo, menos que seja um mal pagador de promessas. Ou menos que sua eleição foi um estelionato eleitoral assim como a de tantos outros que o antecederam no cargo.

Bolsonaro está simplesmente fazendo o que prometeu fazer e o que resumiu assim durante a campanha do ano passado: “Eu sou o candidato contra o sistema. Eu vou quebrar o sistema”. Pode até não quebrar, mas se empenha para isso, sim.

Fracassaram todas as tentativas até aqui de normalizá-lo. O que significaria: pô-lo sob as rédeas curtas do sistema político, partidário e econômico. Antes de tudo, Bolsonaro é ele e as suas circunstâncias, e não é de todo mal que assim seja. Só aprendemos votando.

Mal seria se ele decepcionasse os milhões de eleitores que o puseram na presidência. Os que já começaram a abandoná-lo são apenas aqueles que o cavalgaram na esperança de derrotar o PT. Os demais seguem acreditando nele.

Bolsonaro sempre defendeu um Estado forte, regulador, capaz de intervir em quase tudo em nome do bem dos brasileiros. O Brasil acima de todos e só abaixo de Deus. Não foi de graça que como deputado tanto votou no Congresso alinhado com o PT.

Nada mais justo, pois, que resista a vestir a fantasia de liberal. Não é. Jamais será um liberal por sua própria formação. Nada entende de economia como já disse e repete. Mas não foi só por ignorância que decidiu meter-se na política de preços da Petrobras.

Foi por duas razões pelo menos: para pagar a dívida com os caminhoneiros que paralisaram o país há menos de um ano e que em seguida votaram em peso nele, e porque é mínima sua adesão às chamadas regras do mercado. Se preciso, que o mercado exploda.

Novamente Bolsonaro e o PT acabam por juntar os trapinhos. Lula e Dilma manipularam os preços dos combustíveis por achar que o mercado não pode tudo todo o tempo. Bolsonaro não pensa diferente deles, embora se negue a admitir.

No caso de Lula e Dilma havia uma razão a mais: a manipulação dos preços tinha a ver também com o seu desejo de se eternizarem no poder. Oito anos de Lula, oito ou quatro de Dilma, mais quatro ou oito de Lula, quem sabe mais oito de um aliado… Quase deu certo.

Bolsonaro, não. Ele foi candidato a presidente para reeleger os filhos e arrumar a vida da família. Aí o maluco do Adélio Bispo mudou seus planos esfaqueando-o em Juiz de Fora às vésperas da passeata do 7 de setembro. Acertou até na data.

Bolsonaro reconhece que sua vida foi salva por milagre, e que outro milagre salvou-o da derrota previsível. Suas recentes manifestações a respeito indicam que ele não estava pronto para governar. Que não gostaria de governar. Que governa de má vontade.

Mas uma vez que governa, não está disposto a renunciar ao que pensa, isso não. Ao cargo, muito menos porque seus filhos não deixariam, nem seu orgulho. Mas não é desejo dele ir além do atual mandato desde que possa exercê-lo naturalmente ao seu modo.

Rio, terra sem lei

Uma esculhambação
É possível que a prefeitura do Rio não soubesse que milicianos haviam construído em área de proteção ambiental e sem autorização dos órgãos competentes os dois prédios que desabaram, ontem, na Zona Oeste da cidade matando cinco ou mais pessoas e deixando outras tantas feridas?

O prefeito Marcelo Crivella disse que tentou interditar a construção de prédios ali, mas que não conseguiu. Não conseguiu por quê? A Justiça negou-se a interditar? A polícia preferiu cruzar os braços a cumprir a ordem? Os encarregados do serviço de demolição recusaram-se a cumprir a tarefa?

A resposta à primeira pergunta é sim. A prefeitura sabia que milicianos construíam prédios, lucravam com a venda dos apartamentos e lucravam com a cobrança de taxas de proteção aos seus ocupantes. A resposta à segunda pergunta também é sim. Ele tentou interditar, mas não conseguiu.

A resposta às perguntas seguintes ficou faltando. Nem o prefeito, nem a justiça, muito menos os compradores e moradores da área querem se arriscar ao revide dos milicianos. Eles mandam ali. Eles mandam em outras áreas da cidade. O Rio virou “uma grande “esculhambação”, como já disse Crivella. Uma cidade sem lei.

Ou para ser preciso: uma cidade onde impera a lei dos milicianos, de um lado, e a lei do tráfico, do outro. Milicianos e traficantes são bandidos e se enfrentam para ver quem manda mais e em mais gente. Quando não se enfrentam, se associam. A intervenção federal do ano passado na segurança pública de pouco ou nada adiantou.

Os cariocas são bons de gogó e muito criativos. Sabem cantar as belezas do Rio e sabem protestar quando lhes convém. Dá gosto ver. Mas há muito tempo que são ruins de voto para vereador, prefeito, deputado, senador e governador. Que Estado tem tantos políticos outrora graduados gravemente encrencados com a justiça?

Somente os cariocas darão ou não um jeito no seu Estado. Somos todos cariocas – como seríamos mineiros, paulistas, gaúchos – quando ocorrem tragédias do porte das últimas que assolaram o Rio. Inclua-se entre elas a que reduziu a cinzas o Museu Nacional. Mas as tragédias só voltam a ser lembradas quando outras se sucedem.

Só pelo voto a realidade do Rio poderá ser transformada, e isso é com os cariocas.

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