O Estado de S. Paulo
Os inquéritos do Supremo Tribunal Federal (STF) e a salvação da democracia
“Alguém tem de ter o direito de cometer o
último erro”, disse o presidente do STF ao The New York Times. “Não acho que
erramos, mas a última palavra é do Supremo.”
Nunca houve dúvidas sobre a última palavra
caber ao Supremo – como acontece no estado de direito. A questão levantada pelo
jornal americano, ecoando o fortíssimo debate brasileiro, é se o Supremo errou.
A suprema Corte brasileira “está salvando ou ameaçando a democracia?” pergunta
a manchete do NYT.
Em público, os integrantes da Corte não têm dúvidas de qual seria a resposta, e se dedicam à autocelebração. Em privado admitem que “algumas coisas” foram longe demais. Leia-se decisões monocráticas de Toffoli, anulando a Lava Jato e suas consequências, e os inquéritos tocados por Alexandre de Moraes.
No momento, os ministros têm pouco temor do
que possa vir das pautas anti-STF discutidas no Legislativo, pois elas são em
função da luta política imediata. Ocorre que essa luta vai ser fortemente
pautada pelo que acontecerá com os inquéritos que envolvem Bolsonaro.
Chegou a hora de se encaminhar para o fim
desses inquéritos, admitem ministros, o que equivaleria a restringir os poderes
excepcionais dos quais Moraes faz extensivo uso. Significa entregá-los ao
procurador-geral da República, o que já deveria ter acontecido há muito tempo –
não fosse a desconfiança de alguns dos ministros do STF de que pudessem ser
engavetados.
O ex-presidente enfrenta quatro grandes
investigações: falsificação de cartão de vacina, a posse de presentes que
recebeu enquanto chefe de Estado, a “Abin paralela” e, a mais grave de todas, a
“tentativa de golpe de Estado” que culminou no 8 de Janeiro. Haverá denúncias
e, se houver, em quais inquéritos?
O mundo dos operadores de Direito em Brasília
(esse fluido mix de advogados, ministros das Cortes superiores e Ministério
Público) considera frágil a base jurídica para denunciar Bolsonaro pelos
presentes, pelo cartão de vacina e pela Abin. As opiniões se dividem – e
proliferam as dúvidas – sobre o “golpe”.
Tomado isoladamente, diz um dos atores
relevantes, o 8 de Janeiro não poderia ser visto como “golpe de Estado”. Mas o
“conjunto da obra” é bem mais complicado – a depender do que a Polícia Federal
encontrou dentro dos inquéritos-monstros conduzidos por Moraes. Por enquanto é
tudo sigiloso, até mesmo para quem teria de fazer a denúncia.
O que só aumenta o peso da questão formulada
acima. O problema com essa questão – se o STF está salvando ou ameaçando a
democracia – não é a resposta. É ela ter sido feita.

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