segunda-feira, 16 de março de 2026

Ser homem com H maiúsculo? Por Joel Birman

O Globo

Feminicídio revela não só desigualdade social, mas crise na própria forma como a masculinidade foi construída

Foi fundamental a proposição de um pacto civilizatório, articulando Executivo, Legislativo e Judiciário, para enfrentar o feminicídio no Brasil. O país figura entre os mais letais do mundo no assassinato de mulheres. Casos diários revelam a brutalidade de homens incapazes de suportar a rejeição feminina, muitas vezes após relações marcadas por violência.

Nos últimos meses, multiplicaram-se episódios em que mulheres foram mortas por ex-companheiros meses depois do fim do relacionamento. Em fevereiro, no ABC paulista, uma mulher foi assassinada nove meses após romper o namoro. Outro caso chocante foi de um homem que matou os filhos e se suicidou, responsabilizando a esposa por suposta traição. Soma-se a isso a perplexidade diante de decisões judiciais lenientes em casos de violência contra meninas e mulheres.

Não se trata apenas de criminalidade comum. Há uma dimensão histórica e subjetiva em jogo. Desde as décadas de 1960 e 1970, o empoderamento feminino rompeu com a tradição patriarcal que confinava as mulheres às posições de esposa e mãe, como se fossem propriedade masculina. A autonomia feminina desestabilizou uma ordem secular. Para alguns homens, essa transformação é vivida como perda intolerável de poder e identidade.

O que se abala é a fantasia da onipotência patriarcal. Socializado como superior, o homem experimenta a recusa como humilhação narcísica e ameaça ao seu lugar simbólico. A psicanálise ajuda a compreender essa dinâmica. A identidade masculina tradicional constrói-se sobre uma expectativa de privilégio, forjada desde as primeiras relações afetivas. Quando, na vida adulta, esse lugar imaginário parece ruir, a frustração pode converter-se em ódio e violência.

O feminicídio revela, assim, não apenas desigualdade social, mas uma crise na própria forma como a masculinidade foi historicamente construída. Seu enfrentamento exige punição rigorosa — mas não só. Impõe transformação cultural profunda, começando pela educação e pela estrutura familiar, para que meninos não sejam formados sob a lógica da superioridade, mas sob a experiência do limite, da diferença e da igualdade.

Perguntar o que significa “ser homem” hoje talvez seja parte do caminho. Se “ser homem com H maiúsculo” ainda significar dominar, possuir ou não tolerar a recusa, continuaremos produzindo tragédias silenciosas e repetidas. Enquanto a vida das mulheres permanecer ameaçada, nossa democracia seguirá incompleta.

*Joel Birman é psicanalista

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