O Globo
Feminicídio revela não só desigualdade
social, mas crise na própria forma como a masculinidade foi construída
Foi fundamental a proposição de um pacto
civilizatório, articulando Executivo, Legislativo e Judiciário, para enfrentar
o feminicídio no Brasil. O país figura entre os mais letais do mundo no
assassinato de mulheres. Casos diários revelam a brutalidade de homens
incapazes de suportar a rejeição feminina, muitas vezes após relações marcadas
por violência.
Nos últimos meses, multiplicaram-se episódios em que mulheres foram mortas por ex-companheiros meses depois do fim do relacionamento. Em fevereiro, no ABC paulista, uma mulher foi assassinada nove meses após romper o namoro. Outro caso chocante foi de um homem que matou os filhos e se suicidou, responsabilizando a esposa por suposta traição. Soma-se a isso a perplexidade diante de decisões judiciais lenientes em casos de violência contra meninas e mulheres.
Não se trata apenas de criminalidade comum.
Há uma dimensão histórica e subjetiva em jogo. Desde as décadas de 1960 e 1970,
o empoderamento feminino rompeu com a tradição patriarcal que confinava as
mulheres às posições de esposa e mãe, como se fossem propriedade masculina. A
autonomia feminina desestabilizou uma ordem secular. Para alguns homens, essa
transformação é vivida como perda intolerável de poder e identidade.
O que se abala é a fantasia da onipotência
patriarcal. Socializado como superior, o homem experimenta a recusa como
humilhação narcísica e ameaça ao seu lugar simbólico. A psicanálise ajuda a
compreender essa dinâmica. A identidade masculina tradicional constrói-se sobre
uma expectativa de privilégio, forjada desde as primeiras relações afetivas.
Quando, na vida adulta, esse lugar imaginário parece ruir, a frustração pode
converter-se em ódio e violência.
O feminicídio revela, assim, não apenas
desigualdade social, mas uma crise na própria forma como a masculinidade foi
historicamente construída. Seu enfrentamento exige punição rigorosa — mas não
só. Impõe transformação cultural profunda, começando pela educação e pela
estrutura familiar, para que meninos não sejam formados sob a lógica da
superioridade, mas sob a experiência do limite, da diferença e da igualdade.
Perguntar o que significa “ser homem” hoje
talvez seja parte do caminho. Se “ser homem com H maiúsculo” ainda significar
dominar, possuir ou não tolerar a recusa, continuaremos produzindo tragédias
silenciosas e repetidas. Enquanto a vida das mulheres permanecer ameaçada,
nossa democracia seguirá incompleta.
*Joel Birman é psicanalista

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