segunda-feira, 16 de março de 2026

As incertezas no cenário externo e as perspectivas para a Selic, por Sergio Lamucci

Valor Econômico

Mesmo com alta do petróleo, parece fazer sentido o BC começar o ciclo de cortes com uma redução de 0,5 ponto, acompanhada por um comunicado cauteloso

O cenário para a economia brasileira tornou-se mais incerto após o começo do conflito no Oriente Médio, especialmente devido à alta dos preços do petróleo. A expectativa de que a Selic, hoje em elevados 15% ao ano, cairia ao longo de 2026 até a casa de 12% a 12,5% está em xeque. Um corte de 0,5 ponto percentual na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) desta semana passou a ser visto como menos provável por um número maior de analistas. Uma redução de 0,25 ponto ganhou adeptos, com a avaliação de que o Banco Central (BC) deverá ser mais cauteloso, existindo até quem aposte na manutenção da taxa. Cortes muito modestos da Selic ao longo do ano seriam uma má notícia, embora possa ser um desfecho necessário. Juros altos por muito tempo seguram o investimento, castigam empresas e pessoas físicas endividadas e têm um pesado custo fiscal.

Se os preços do petróleo ficarem em níveis elevados por muito tempo, o cenário para a inflação vai piorar, ao mesmo tempo em que haverá um efeito positivo sobre a atividade e a arrecadação, já que o Brasil é hoje um grande produtor e exportador da commodity. Ainda é cedo para antever o impacto da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã sobre o petróleo e a economia global, mas seria obviamente melhor o Brasil ter uma situação fiscal mais confortável para enfrentar um ambiente externo adverso. Para tentar conter a alta do diesel, o governo anunciou na semana passada um pacote que pode custar R$ 30 bilhões aos cofres públicos, a ser compensado principalmente com um imposto sobre a exportação, medida que provoca distorções na economia e será negativa, em especial se o tributo durar mais que os quatro meses inicialmente previstos.

Num ano de eleições e com a popularidade em baixa, o governo zerou as alíquotas do PIS e da Cofins que incidem sobre o óleo diesel, o que pode custar R$ 6,7 bilhões por quatro meses e até R$ 20 bilhões no ano. Também foi instituída uma subvenção para produtores e importadores, de até R$ 10 bilhões. Para compensar essa perda de arrecadação, será cobrada uma taxa de 12% sobre as exportações do petróleo e de 50% as vendas de diesel. O aumento de receita com royalties do petróleo, por exemplo, também pode ajudar.

A questão é que essa arrecadação vai depender dos preços da commodity e da taxa de câmbio, e também do que farão as petroleiras - elas vão exportar menos, dado o imposto a ser cobrado? Para não correr o risco de uma greve de caminhoneiros devido à alta do diesel, a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva adotou essas medidas. Em 2022, o governo de Jair Bolsonaro zerou os impostos federais sem prever compensação para a perda de receita e forçou os Estados a reduzir o ICMS sobre combustíveis e outros itens, como energia elétrica, o que custou quase R$ 27 bilhões à União num acordo fechado em 2023.

Para o pacote atual não causar estragos nem produzir distorções na economia, é necessário que os preços do petróleo não fiquem nas alturas por muito tempo. Se a commodity continuar cara, a defasagem entre preços internos e externos dos combustíveis ficará muito grande, pressionando a Petrobras a reajustar as cotações na refinaria - na sexta-feira, a estatal elevou o preço do diesel em 11,6%, mas ainda não mexeu no da gasolina. Caso o petróleo se acomode num nível elevado, o mais indicado é a Petrobras aumentar os preços na refinaria, para não acumular prejuízos e não prejudicar os importadores de combustíveis.

No momento, o cenário para os preços da commodity é nebuloso, dadas as incertezas sobre os desdobramentos do conflito no Oriente Médio - não se sabe até quando o Irã vai bloquear a navegação de petroleiros pelo Estreito de Ormuz, por exemplo. É nesse ambiente que o Copom se reúne nesta semana, depois de o BC ter indicado que enfim começaria o ciclo de queda da Selic, hoje em 15%, o equivalente a cerca de 10% em termos reais, quando se desconta a inflação projetada para os próximos 12 meses.

A aposta num corte de 0,25 ponto percentual ganhou espaço no mercado nos últimos dias, dado o aumento da incerteza no cenário externo. Ao mesmo tempo, o câmbio não desvalorizou excessivamente. Na sexta-feira, por exemplo, fechou em R$ 5,3142. Para a consultoria Buysidebrazil, o comportamento da moeda americana em relação ao real é um fator que embasa a previsão de que o Copom começará o ciclo de baixa da Selic com um corte de 0,5 ponto, mesmo com um quadro externo mais adverso, por causa da escala das tensões geopolíticas provocadas pela guerra. A redução de 0,5 ponto, avalia a Buysidebrazil, poderia ser acompanhada por uma comunicação mais cautelosa por parte do BC, “enfatizando que o começo do ciclo não implica um compromisso com uma trajetória pré-determinada de cortes de juros, reforçando uma estratégia fortemente dependente de dados, sem uma diretriz futura explícita para os próximos encontros”.

Num cenário em que a Selic está elevada há muitos meses, parece fazer sentido começar o processo de redução da taxa com uma queda de 0,5 ponto. Juros a 14,5% continuariam muito altos em termos reais, e um comunicado cuidadoso pode ser suficiente para não afetar a credibilidade do BC. Com isso, o Copom não perderia a oportunidade de baixar uma taxa elevada. Embora não sejam os objetivos do BC ao definir a Selic, isso daria algum alívio para empresas e pessoas físicas endividadas e diminuiria um pouco o custo da dívida pública. Se o cenário para a inflação piorar, em virtude do efeito da alta do petróleo sobre os combustíveis e da perspectiva de propagação desse impacto sobre outros preços, o Copom pode reduzir o ritmo de corte da Selic nos próximos encontros, ou mesmo interromper o ciclo de diminuição da taxa, se for o caso.

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