segunda-feira, 16 de março de 2026

Os indicadores são positivos; a sensação é negativa, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Percepção da população capta a situação real de cada um — e é isso que influencia a decisão de voto

Falta mão de obra em vários setores da economia brasileira, incluindo construção civil e agronegócio. Empresas informam ter criado benefícios especiais para conseguir contratar. A taxa de desemprego, medida pelo IBGE, está em nível historicamente baixo. Portanto o momento só pode ser favorável ao trabalhador. Mas parece que não é. Pelo menos, não para todos.

Pesquisa Quaest divulgada na semana passada mostrou que 50% dos entrevistados declararam estar mais difícil conseguir emprego. E 40%, que está mais fácil. O indicador macroeconômico mostra uma situação que não bate com a percepção efetiva da maioria dos trabalhadores.

Tem mais. A inflação claramente desacelerou no Brasil nos últimos meses. Todos os indicadores mostram isso, tanto que o Banco Central já se prepara para reduzir a taxa básica de juros. A Quaest também perguntou sobre isso, e — bingo! — a população não percebe. Nada menos que 58% dos entrevistados disseram que os preços de alimentos subiram em março, ante 16% que notaram queda.

O PIB brasileiro cresceu três anos seguidos acima dos 3%, até 2024. No ano passado, a expansão foi menor, mas alcançou honrosos 2,3%, com ganhos reais da renda do trabalho. Mas 64% dos entrevistados disseram que compram hoje menos do que conseguiam comprar um ano atrás.

Para resumir: mesmo com PIB e renda em alta, inflação e desemprego em baixa, 48% dos entrevistados sentem que a economia brasileira piorou nos últimos 12 meses. Apenas 24% acham que melhorou. Não se trata de fato novo ou exclusivo dos brasileiros. Faz tempo que a economia política estuda esse, às vezes, abismo entre os indicadores macroeconômicos e a percepção da população.

Um olhar mais detido sobre a realidade explica alguma coisa. É o caso do emprego. O IBGE considera ocupado alguém que ganha remuneração de qualquer tipo de trabalho. São considerados empregados os 38,5 milhões de trabalhadores na informalidade — aqueles sem carteira assinada, os que fazem alguma coisa por conta própria sem CNPJ (vendem cerveja na saída dos estádios) e os que ajudam em casa. Para esses, é duro ganhar alguma coisa. Bem diferente da situação dos 39 milhões que trabalham com carteira assinada. Mesmos esses, porém, têm dificuldades para encontrar posições mais bem remuneradas, pela falta de capacidade educacional e técnica.

Finalmente, a inflação e os preços. Aqui é fácil perceber de onde vem a oposição entre o índice e o sentimento da população. Quando o indicador mostra que a inflação caiu, isso quer dizer que os preços subiram menos, não que diminuíram.

Houve inflação mundial na saída da pandemia. Com a retomada da economia, a demanda voltou, mas os sistemas de produção e logística estavam desorganizados. Faltaram insumos, os alimentos não chegavam. Os preços subiram, e isso contribuiu para a queda de muitos governos. Para citar um exemplo de fora: nos Estados Unidos, Joe Biden pegou uma inflação que se aproximava de 10% e derrubou para a casa dos 3%, com índices em forte desaceleração. Mas Trump fez campanha atacando a inflação. Acertou. Os preços subiam menos, mas as coisas, especialmente gasolina e comida, continuavam muito caras.

Aconteceu por aqui também. Lula fez campanha prometendo devolver picanha e cerveja aos churrascos dos brasileiros. Mas já topou duas vezes com momentos de alta no preço das carnes. Este é um produto “símbolo”. No mundo, o consumo de carne, especialmente bovina, é diretamente proporcional ao ganho de renda. Por aqui, consumir picanha é status. Voltar para a carne de segunda é retrocesso, sinal de perda de poder aquisitivo. Além disso, o preço de alimentos é a inflação sentida no dia a dia. Compra-se comida na semana toda, as pessoas sabem os preços do feijão, percebem as variações.

Tudo considerado, os índices macro funcionam, mostram o estado geral da economia. A percepção da população capta a situação real de cada um — e é isso que influencia a decisão de voto.

 

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