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A dúvida é se ressuscitarão melhores ou piores do que são hoje
Não há dúvida de que vivemos tempos estranhos. Mas tampouco existe dúvida de que tudo o que está acontecendo — por mais extravagante que pareça — era mais do que previsível. É a crônica da morte institucional do país. Só que, diferentemente das mortes “morridas”, a morte institucional traz a promessa de uma ressurreição. A dúvida é se as instituições ressuscitarão melhores ou piores do que são hoje.
A extravagância dos acontecimentos se revela
não apenas no tamanho dos escândalos, mas na desconfiança que predomina na cena
brasiliense. Ninguém confia em ninguém e, ao mesmo tempo, alianças inusitadas
se formam em torno de pautas pontuais. Foi o que se viu na derrocada da
indicação de Jorge Messias ao STF,
episódio que reuniu ministros do Judiciário, oposição e setores da própria base
governista. Coalizões assim já não exprimem convicção: exprimem sobrevivência.
A morte institucional se assemelha à morte
cerebral. O corpo permanece vivo, mas o cérebro deixou de operar. As decisões
já não obedecem a uma racionalidade voltada ao interesse público; são ditadas
pelo instinto de sobrevivência. O que resta é reflexo medular: ação reativa,
sem deliberação. Os aparelhos seguem ligados, os sinais vitais oscilam nos monitores,
mas a vontade soberana já não habita o organismo.
“As decisões já não obedecem à racionalidade
do interesse público, mas ao instinto de sobrevivência”
A certeza é de que tudo caminha para piorar.
Sem a menor dúvida, o Senado avançará sobre o impeachment de ministros do STF
no ano que vem; e a Suprema Corte reagirá com interpretações esotéricas para
impedir o processo. Vale lembrar que essas mesmas regras — validadas, à época,
pelo próprio STF — sustentaram o impeachment de Dilma Rousseff. A Corte se vê
diante de uma armadilha de sua própria jurisprudência: rejeitar hoje o que
ontem reconheceu como legítimo seria assumir a perda de coerência que sempre negou
em discurso.
As dúvidas residem no paradoxo de que a morte
cerebral resultará em ressurreição. O Congresso de amanhã será diferente. A
Presidência, mesmo com a eventual reeleição de Lula,
também. E o STF, igualmente. Não sabemos se serão melhores ou piores. Toda
crise constitucional é, em última instância, crise de legitimidade — e só se
resolve pela refundação simbólica do pacto.
Nesse contexto, as eleições de 2026 prometem
ser tumultuadas. As pesquisas indicam disputa apertada. O quase empate técnico
entre Lula e Flávio
Bolsonaro transfere o peso da decisão para variáveis exógenas ao jogo
eleitoral. Em disputas assim, o resultado raramente é definido pelos programas;
é definido pelos acidentes e pelos detalhes. Como se sabe, Deus mora nos
detalhes.
E acidentes não faltarão. Sobretudo porque ,
em ano eleitoral, a delação premiada deixa de ser instrumento processual e se
converte em variável estratégica: quem fala, quando fala e o que fala podem
reorganizar, da noite para o dia, o tabuleiro das instituições. O caso Master
tem, em escala e ramificações, potencial para funcionar como o evento
desestabilizador que falta para precipitar o desfecho. Ou melhor, definir o
desfecho da disputa. Nesse ambiente, o eleitor decide menos pelo cálculo
retrospectivo e mais pela lógica da indignação — num país cujas instituições já
não dispõem do crédito necessário para arbitrar o conflito que elas próprias
ajudaram a produzir.
Publicado em VEJA de 8 de maio de 2026, edição nº 2994

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