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Donald Trump transforma o exercício do
segundo mandato em uma extensão dos negócios da família & amigos
De bíblias personalizadas a criptomoedas, sem falar nos acordos imobiliários em zonas de guerra, terras-raras, contratos de obras na Europa e dezenas de esquemas de supostas doações, Donald Trump transformou a Casa Branca em uma máquina de fazer dinheiro. Para si, para a família e para os amigos. Em recente levantamento, o jornal The New York Times contabilizou o tamanho da fortuna extra acumulada pelo republicano desde o retorno à Presidência dos Estados Unidos, em janeiro do ano passado: 1,4 bilhão de dólares.
Trump não tem pudor e não faz questão de
separar políticas de Estado e interesses pessoais. Enquanto o mundo debatia a
violência norte-americana por conta de mais uma tentativa de assassinato do
mandatário, o magnata parecia mais preocupado em defender a reforma na Casa
Branca. Um novo salão de festas, cuja construção foi embargada pela Justiça,
custará 300 milhões de dólares e será uma espécie de drive-thru de empresários.
Segundo o presidente, as doações de companhias do porte da Amazon, Meta, Apple
e Lockheed Martin vão cobrir as despesas, mas a pergunta é o que os
conglomerados ganharão em troca de tamanha generosidade? Talvez o plano de
investir bilhões de dólares do Tesouro norte-americano em Inteligência
Artificial explique. A iniciativa foi revelada oito dias antes de Trump
anunciar a construção do salão de festas. Vários desses doadores, entre eles
Alphabet, Microsoft, Nvidia e Palantir, serão os principais beneficiários do
plano, e alguns estiveram diretamente envolvidos na elaboração do projeto.
O fluxo de dinheiro fora do orçamento oficial
sob controle direto da Casa Branca tem causado preocupação entre observadores,
democratas e entidades que monitoram a relação entre os poderes e as empresas
privadas. Um fato novo tem sido a transformação da Presidência em um elemento
de marketing para os negócios do próprio chefe de Estado. Apenas em 2025, a
venda de bíblias com a chancela de Trump rendeu 3 milhões de dólares. Ele ainda
ganhou 2,8 milhões com relógios personalizados e outros 2,5 milhões com
produtos variados, de tênis a perfumes. A venda de criptomoedas tem gerado, no
entanto, o maior volume de ganhos. Em julho passado, o republicano assinou o
GENIUS Act, primeira lei federal para o setor. Antes, a família tratou de lançar
sua própria moeda virtual. Os lucros familiares ultrapassaram a marca de 1,2
bilhão de dólares, apesar das oscilações da divisa.
O setor de tecnologia é outro foco. Em apenas
um dos acordos, uma empresa de investimentos dos Emirados Árabes Unidos
anunciou a destinação de 2 bilhões de dólares a uma operação que envolvia
empresas da família Trump. Isso ocorreu duas semanas antes de o governo
permitir ao país do Golfo acesso a chips.
Os negócios empresariais também contaminaram
a relação com a Europa. Um dos casos mais controversos refere-se aos países dos
Bálcãs e uma aproximação inesperada com Milorad Dodik, que liderou por anos a
República da Sérvia e foi alvo de sanções por parte dos EUA e da Europa por
corrupção. Em outubro do ano passado, a Casa Branca retirou as restrições a
Dodik, que chegou a ser convidado para ir a Washington. O sérvio-bósnio passou
a ser um agente fundamental para a entrada de empresas norte-americanas em
projetos de infraestrutura na região. Uma companhia ligada a parceiros
comerciais de Trump planeja investir 1,8 bilhão de dólares na área muçulmana do
país. Donald Trump Jr., o filho mais velho, chegou a visitar Banja Luka e um
documento revelado pelo jornal britânico The Guardian aponta que um dos
contratos para a obra de um gasoduto teria o envolvimento de uma empresa de um
advogado do presidente dos EUA. A AAFS Infrastructure and Energy é liderada por
Jesse Binnall, que defendeu o republicano no caso da invasão do Capitólio, e
Joe Flynn, irmão de um ex-conselheiro de Segurança Nacional.
No setor de terras-raras, integrantes do
governo também parecem dar-se bem. Em janeiro, a empresa USA Rare Earth
recebeu uma injeção de 1,6 bilhão de dólares do Estado, que passou a controlar
10% da companhia. Naquele momento, o Secretário de Comércio, Howard Lutnick,
afirmou que o investimento “garante que as nossas cadeias de suprimentos sejam
resilientes e não dependam mais de países estrangeiros. O acordo entre a
mineradora e a Casa Branca ligou, porém, o alerta entre os democratas. Uma das
questões é a relação entre a USA Rare Earth e a Cantor Fitzgerald, empresa
financeira hoje administrada pelos filhos de Lutnick e contratada como
intermediária no negócio. Em uma carta de dez páginas, a deputada Zoe Lofgren,
do Comitê de Ciência, Espaço e Tecnologia da Câmara dos Representantes,
alertou: “Este acordo cria um enorme conflito de interesses pessoais,
concedendo ao Secretário de Comércio uma influência desproporcional sobre o
comportamento de uma empresa privada, ao mesmo tempo que o coloca em posição de
promover os interesses de seus filhos como condição para seu apoio”.
O republicano está 1,4 bilhão de dólares mais
rico desde o retorno à Presidência
Em fevereiro, os senadores Elizabeth Warren,
de Massachusetts, Chris Van Hollen, de Maryland, e Ron Wyden, do Oregon,
enviaram outra carta ao secretário de Comércio, alertando que o acordo levanta
questões sobre eventuais benefícios financeiros a integrantes da família
Lutnick. “É imprescindível que os investimentos federais em setores críticos
sejam feitos sem conflitos de interesse e com base no mérito”, anotaram os
parlamentares.
As guerras são outra fonte de receita. Em
janeiro, o governo apresentou ao mundo um projeto de reconstrução de Gaza. O
local escolhido não foi a ONU ou um evento humanitário. O palco foi o Fórum
Econômico Mundial de Davos, repleto de empresários. A “New Gaza” seria erguida
em três anos e transformada em uma “costa de turismo”. “É um grande local”,
afirmou Trump. “Veja essa propriedade no mar. Tudo começa com a localização.
Poucos lugares são assim.” No início do mandato, o magnata, que fez fortuna no
setor imobiliário, chegou a falar em transformar Gaza numa “Riviera”. Seus
comentários, enquanto milhares de crianças e mulheres morriam, causaram
indignação à época. Agora, o projeto foi apresentado oficialmente aos maiores
empresários do mundo, respaldado por líderes estrangeiros, submissos e em
silêncio.
Coube ao genro de Trump, Jarred Kuchner,
detalhar a reconstrução de Gaza. Na zona costeira, 180 edifícios serão
erguidos e um planejamento detalhado será implementado com zonas habitacionais,
estradas e até um local para a instalação de data centers. O planejamento prevê
100 mil unidades residenciais e investimentos de 30 bilhões de dólares. Quem
está de olho nas oportunidades são os filhos do presidente, Eric e Donald Jr.
Nos últimos meses, os dois herdeiros têm participado de conversas na região
para ampliar a presença da Trump Organization no Oriente Médio. A família
fechou um contrato com a imobiliária saudita Dar Global para realizar projetos
em Jeddah e Dubai.
Em alguns casos, as políticas comerciais
parecem coincidir com importantes anúncios da família. No ano passado, a Casa
Branca aceitou reduzir de forma substancial as tarifas de importação impostas
ao Vietnã. Semanas antes, o governo de Hanói havia autorizado a construção de um
resort e campo de golfe de 1,5 bilhão de dólares projetado pela Organização
Trump. Para o empreendimento ser viabilizado, um cemitério teve de ser removido
da área.
O genro e os filhos de Trump lucram com
decisões ou indecisões do republicano
Uma das táticas tem sido a abertura de
processos judiciais, na esperança de que a parte atacada conceda e faça um
acerto. Algumas das maiores empresas dos EUA viraram alvo dos advogados do
presidente e, para evitar uma crise ou ter contratos facilitados no setor público,
decidiram aceitar um acordo financeiro. A Paramount pagou 16 milhões de
dólares ao republicano depois de ser acusada de editar uma entrevista da
ex-vice-presidente Kamala Harris em 2024 para prejudicar o adversário. Três
semanas depois, a Comissão Federal de Comunicações aprovou uma fusão de 8
bilhões do conglomerado de mídia com a Skydance.
Nada parece ser mais obscuro do que a
suspeita de que os anúncios, decisões e até disparos de mísseis ordenados pelo
presidente estejam vinculados a apostas milionárias. Deputados e senadores
democratas passaram a exigir que plataformas de apostas sejam investigadas por
conta de movimentações suspeitas. Em janeiro, um usuário anônimo da Polymarket
lucrou 400 mil dólares ao apostar na deposição de Nicolás Maduro, horas antes
de o venezuelano ser sequestrado por agentes dos EUA. No fim de fevereiro, 16
apostas renderam 100 mil dólares cada. Elas previam o momento exato dos ataques
aéreos ao Irã. Um fluxo incomum de em torno de 150 contas acertou em cheio.
Momentos antes do assassinato do aiatolá Ali Khamenei, um apostador ganhou
sozinho 550 mil dólares ao prever a morte do líder iraniano. Em uma denúncia
apresentada pela Public Citizen à Comissão de Negociação de Futuros de
Commodities, a entidade cita uma empresa de análise de criptomoedas que
identificou seis “suspeitos de informações privilegiadas” que lucraram um total
de 1,2 milhão de dólares no Polymarket após a morte de Khamenei.
Em 23 de março, investidores fizeram apostas de 580 milhões de dólares no mercado futuro de
petróleo. Doze minutos depois, Trump afirmou nas redes sociais que os EUA
travavam conversas “produtivas” com o Irã. Em 7 de abril, minutos antes de o
presidente anunciar um cessar-fogo, investidores apostaram, em contas do
Polymarket, 950 milhões de dólares na queda dos preços do petróleo. E assim ocorreu.
A aposta parecia insólita. Momentos antes, o republicano havia ameaçado: “Uma
civilização inteira morrerá esta noite”, se o Irã não abrisse o Estreito de
Ormuz.
O deputado democrata Ritchie Torres, da
Comissão de Serviços Financeiros da Câmara, acredita que a movimentação não
pode ser ignorada. Em carta à Comissão de Negociação de Futuros de Commodities,
pede investigações. “Esse padrão levanta sérias preocupações de que certos
participantes do mercado possam ter tido acesso a informações privilegiadas
sobre um evento geopolítico que impactaria o mercado”, escreveu Torres. “Qual a
probabilidade estatística de alguém que não seja um insider trader fazer uma
aposta vencedora 12 minutos antes de um anúncio presidencial que impacta o
mercado?”, acrescentou o deputado em entrevista à agência AP. “Há duas
respostas: Deus ou um insider trader. E algo me diz que Deus não está apostando
nas postagens de Donald Trump no Truth Social.”
A suspeita não veio do nada. A Polymarket,
onde muitas dessas apostas acontecem, conta com um investidor de peso, Donald
Jr.
Publicado na edição n° 1412 de CartaCapital, em 13 de maio de 2026.

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