O Povo (CE)
Quem é a mãe se não a que tudo faz pelo
filho, a que tudo renuncia, o amor mais profundo e especial, aquela disposta a
todo sacrifício, aquela que é o lugar de descanso, a fortaleza do cuidado, a
que nos preenche de amor e de contentamento?
Estamos na véspera de uma data que mobiliza o comércio e os afetos, o dia das mães. É um momento do ano em que filhos manifestam carinho e prestam homenagens às mulheres responsáveis pelo seu cuidado. Também é um momento em que somos bombardeados com uma profusão de mensagens e simbolismos repetidos que, de alguma forma, mistificam o papel de cuidar desempenhado pelas mulheres, mistificam a figura da mãe, associando-as a capacidades quase sobre-humanas. Longe de nos lisonjear, essa mistificação deveria ser alvo do nosso questionamento mais profundo.
Quem é a mãe se não a que tudo faz pelo
filho, a que tudo renuncia, o amor mais profundo e especial, aquela disposta a
todo sacrifício, aquela que é o lugar de descanso, a fortaleza do cuidado, a
que nos preenche de amor e de contentamento? São lugares comuns sobre
maternidade que reforçam essa dimensão dúplice da condição de mãe: o reconhecimento
social de sua importância na vida de alguém (mesmo quando falta, a mãe é
uma figura central) e o sufocamento que decorre da expectativa de uma dedicação
integral, algo que toda mãe sente como peso de uma obrigação. No nosso mundo,
ser boa mãe é dar aos filhos a própria vida lentamente, sem repouso ou dúvida.
O grande problema dessa concepção tão
difundida de maternidade é que ela guarda o peso de uma sobrecarga, de uma
exigência excessiva que penaliza tantas mulheres no Brasil e no mundo. Essa
maternidade que tudo é capaz de dar e realizar é a causa de adoecimento
mental e de empobrecimento de tantas mulheres que são deixadas pelos
genitores e assumem sozinhas a tarefa de prover e cuidar de seus filhos.
Deveríamos trilhar um caminho diverso, o caminho da recuperação da humanidade
das mães, de negação de sua santidade.
Devolver às mães sua fragilidade e humanidade
é o caminho mais honesto de ampará-las, reconhecendo que a tarefa de cuidado
não pode ser a responsabilidade de uma pessoa só. Que cuidar é um
papel que precisa ser compartilhado em comunidade, distribuído, assumido também
por pais, avós, tios e outras pessoas integradas à família próxima.
*Professora de Direito, na UFCE.

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