sábado, 9 de maio de 2026

Em busca da humanidade perdida das mães, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Quem é a mãe se não a que tudo faz pelo filho, a que tudo renuncia, o amor mais profundo e especial, aquela disposta a todo sacrifício, aquela que é o lugar de descanso, a fortaleza do cuidado, a que nos preenche de amor e de contentamento?

Estamos na véspera de uma data que mobiliza o comércio e os afetos, o dia das mães. É um momento do ano em que filhos manifestam carinho e prestam homenagens às mulheres responsáveis pelo seu cuidado. Também é um momento em que somos bombardeados com uma profusão de mensagens e simbolismos repetidos que, de alguma forma, mistificam o papel de cuidar desempenhado pelas mulheres, mistificam a figura da mãe, associando-as a capacidades quase sobre-humanas. Longe de nos lisonjear, essa mistificação deveria ser alvo do nosso questionamento mais profundo.

Quem é a mãe se não a que tudo faz pelo filho, a que tudo renuncia, o amor mais profundo e especial, aquela disposta a todo sacrifício, aquela que é o lugar de descanso, a fortaleza do cuidado, a que nos preenche de amor e de contentamento? São lugares comuns sobre maternidade que reforçam essa dimensão dúplice da condição de mãe: o reconhecimento social de sua importância na vida de alguém (mesmo quando falta, a mãe é uma figura central) e o sufocamento que decorre da expectativa de uma dedicação integral, algo que toda mãe sente como peso de uma obrigação. No nosso mundo, ser boa mãe é dar aos filhos a própria vida lentamente, sem repouso ou dúvida.

O grande problema dessa concepção tão difundida de maternidade é que ela guarda o peso de uma sobrecarga, de uma exigência excessiva que penaliza tantas mulheres no Brasil e no mundo. Essa maternidade que tudo é capaz de dar e realizar é a causa de adoecimento mental e de empobrecimento de tantas mulheres que são deixadas pelos genitores e assumem sozinhas a tarefa de prover e cuidar de seus filhos. Deveríamos trilhar um caminho diverso, o caminho da recuperação da humanidade das mães, de negação de sua santidade.

Devolver às mães sua fragilidade e humanidade é o caminho mais honesto de ampará-las, reconhecendo que a tarefa de cuidado não pode ser a responsabilidade de uma pessoa só. Que cuidar é um papel que precisa ser compartilhado em comunidade, distribuído, assumido também por pais, avós, tios e outras pessoas integradas à família próxima.

*Professora de Direito, na UFCE.

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