O Estado de S. Paulo
Quero novamente ressaltar o dilema do formalismo bacharelesco que marca o campo político brasileiro; tal como ele é conceituado pela IA, em sua capacidade extracorpórea de ser uma excepcional máquina pensante.
A inteligência artificial define política como “o conjunto de práticas, decisões e ações utilizadas para organizar, governar e administrar sociedades, visando ao bem comum, a mediação de conflitos e a distribuição de poder. Originada do grego polis (cidade), refere-se à gestão da vida coletiva, elaboração de leis e definição de rumos para a comunidade”. Beleza, mas a sua prática – a nossa conhecida politicagem – é qualificada por dois malditos apêndices: crise e corrupção.
Entre teoria e prática, existe uma fratura
que denuncia como é fácil adotar e como é um dilema praticar, porque a
democracia exige uma separação radical entre público e privado, sem o que não
há igualitarismo. Discursar fantasias com alicerces escravocratas ou tomar
consciência para chegar ao centro de um sistema que, em 1979, no livro
Carnavais, Malandros e Heróis, denunciei como dilemático.
Nele, heróis como os “caxias” e os certinhos,
vistos como trouxas seguidores de regras, e o malandro atuam simultaneamente.
Essa ambiguidade, lida como piada, inventa o “jeitinho” – esse caminho entre o
imparcial e o parcial que promove anistias e certezas de impunidade. É
plenamente possível, diz Pedro Malasartes aos seus afilhados que roubaram o
INSS e a Daniel Vorcaro, comprador dos donos do poder, enriquecer por amizade,
como nos velhos tempos do rei.
Não é por acaso que a política é atropelada
pela politicagem de um republicanismo atropelado por elos de parentesco,
camaradagem e amizade. Esse estilo, jamais criticado, é até hoje visto como
“corrupto” e não como a base a ser rejeitada do legado monárquico.
Como ensina a IA: politicagem é o uso da
política para fins pessoais, caracterizada por trocas de favores. Seus traços
são: interesses pessoais, foco na vantagem própria ou de um grupo restrito. Ou
seja: elos pessoais ou amizades instrumentais.
Enquanto a política foca o interesse público,
a politicagem foca a manutenção do poder a qualquer custo e a ausência de ações
concretas para a sociedade.
Nessa veraz conceituação, não se enxerga a
nossa incapacidade (inconsciente e malandra) de distinguir o impessoal do
pessoal, numa canibalização não prevista por Max Weber – a da dominação
burocrática pela tradicional.
A questão que nos envergonha é a incapacidade
de sustentar a imparcialidade estrutural da democracia pelo controle da
inevitável parcialidade dos interesses pessoais que, em todo lugar, promovem
desigualdade e, no nosso caso, devido a uma estrutura administrativa
personalista e hierarquizada.
PS: Daniel Vorcaro não comprou o Brasil por
um triz.
*É antropólogo, escritor e autor de ‘Carnavais,
malandros e heróis’

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