Correio Braziliense
Lula mantém sua base social
tradicional nos estratos de menor renda, mas enfrenta limites claros para
expandir sua coalizão e dialogar com o eleitor moderado
Por definição, a expressão soft power, ou seja, “poder
brando”, é usada nos meios diplomáticos para explicar a capacidade de um país
influenciar o comportamento e as preferências de outras nações por meio da
atração e persuasão, em vez de coerção militar ou econômica (hard power). Ou seja, tudo ao
contrário do que faz o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
O termo foi criado por Joseph Nye, que foi professor e reitor de Harvard, o pioneiro ao defender a projeção de poder de forma intangível, por meio da música, do cinema, da gastronomia, da literatura, da cooperação e do humanismo, entre outras formas. É uma estratégia para ganhar “corações e mentes” em vez de território. O bolsonarismo não tem nada a ver com o soft power, certo? Errado. Um vídeo de Flávio Bolsonaro que viraliza nas redes mostra o principal candidato de oposição em contraponto, digamos, imagético, ao próprio pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
O candidato da extrema-direita se apresenta
como principal polo de oposição moderada ao governo Lula, com foco na conquista
do eleitorado de centro, a partir de uma narrativa de crítica à gestão
econômica e à crise de governabilidade. A peça enfatiza a ideia de que o país
vive um momento de esgotamento político, marcado por escândalos, inflação
persistente e perda de poder de compra. Flávio Bolsonaro busca dialogar com o
sentimento difuso de insatisfação presente nas pesquisas de opinião.
Dirigindo o próprio carro, apresenta-se como
um cidadão comum, dedicado à vida familiar em primeiro lugar. Evita o tom
ideológico e aposta numa abordagem mais pragmática, voltada à classe média e
aos eleitores indecisos. Ao mesmo tempo em que associa sua imagem a ordem, eficiência
administrativa e responsabilidade fiscal, explora a percepção de fragilidade do
governo no Congresso. As referências ao bolsonarismo são indiretas e
suavizadas; o perfil é institucional, menos militante.
Flávio Bolsonaro ainda busca um marqueteiro para
chefiar sua campanha, porém, Marcos Carvalho, estrategista digital de Jair
Bolsonaro em 2018, é quem já cuida das redes sociais. O rumo da campanha está
dado, tem a cara do coordenador, senador Rogério Marinho (PL-RN), e não dos
irmãos Carlos e Eduardo. O vídeo sugere que há espaço para mudança, reforça a
ideia de que Flávio Bolsonaro pode representar uma alternativa viável; procura
neutralizar resistências, evita temas polarizadores e prioriza a estabilidade e
a previsibilidade. O objetivo é capturar o eleitor moderado, que hoje oscila
entre rejeições e busca uma opção competitiva fora do campo governista.
É esse eleitor que anda fugindo do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva. O cenário eleitoral captado pela pesquisa Realtime
Big Data divulgada ontem mostra porque a estratégia de Flávio Bolsonaro é uma
ameaça à reeleição do petista. O país está preso entre rejeições elevadas,
polarização persistente e ausência de uma alternativa capaz de reorganizar o
centro.
Swing voters
Os dados revelam um sistema travado, no qual
a disputa segue sendo estruturada mais pelo antagonismo do que pela construção
de maiorias sociais estáveis. Nesse ambiente, o soft power da extrema-direita
não chega a ser uma surpresa, porque na política brasileira o que se fala, na
maioria das vezes, não é o que se faz. Mas sua capacidade de penetrar no
eleitorado flutuante, não por adesão ideológica, mas por captura do
descontentamento, não pode ser subestimada.
No primeiro turno, Lula aparece com 40% das
intenções de voto, contra 34% de Flávio Bolsonaro, enquanto Ronaldo Caiado e
Romeu Zema pontuam apenas 5% e 4%, respectivamente. A fragmentação do campo
alternativo é evidente. Mesmo quando o cenário muda, Lula recua a 38% e Flávio
a 33%, mantendo-se praticamente inalterada a lógica de dispersão do centro. Ou
seja, há uma oferta de candidaturas, mas não há um polo competitivo capaz de
romper a polarização.
O dado mais revelador, entretanto, está no
segundo turno. Flávio Bolsonaro aparece com 44% contra 43% de Lula, em empate
técnico com leve vantagem para a candidatura de direita. Mais do que a
fotografia, importa o movimento: entre março e maio, Flávio cresce de 41% para
44%, enquanto Lula oscila de 42% para 43%, graças ao eleitor moderado,
exatamente aquele grupo que o cientista político Carlos Melo, ontem, em artigo
no Globo, descreveu como os swing
voters, que migram conforme o humor do momento.
No centro político, diferente dos
“indecisos”, esses eleitores são conscientes e escolhem quem melhor representa
seus interesses naquela conjuntura. Nesse contexto, as candidaturas de Ronaldo
Caiado e Romeu Zema assumem um papel peculiar. Os números mostram que são
intercambiáveis com Flávio Bolsonaro. Vão levar a eleição para o segundo turno,
mas Lula não pode contar com eles.
O presidente mantém sua base social tradicional, ancorada nos estratos de menor renda, mas enfrenta limites claros para expandir sua coalizão. A rejeição elevada e a percepção de governo estreito dificultam o diálogo com o eleitor moderado. Como sugere Melo, Lula parece ter subestimado a necessidade de reconstruir pontes com esse segmento, apostou num capital político que já não possui. Seu isolamento relativo é agravado porque o Congresso ampliou seu poder e reduziu a capacidade de coordenação do Executivo. Nesse cenário, o Centrão opera como força autônoma, à espera da hora certa de apoiar quem for ganhar.

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