quarta-feira, 6 de maio de 2026

Destruição de demanda, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Com a guerra no Irã em seu terceiro mês, os analistas redobraram as previsões mais sombrias acerca da economia mundial e do impacto da disparada do preço do petróleo, da gasolina, do combustível de aviação e de outros derivados. Se até o fim deste mês o Estreito de Ormuz permanecer praticamente fechado, afetando um quinto da produção global de petróleo, um novo conceito econômico poderá entrar para o vocabulário dos leigos: destruição de demanda.

Isso acontece quando o poder de compra de consumidores sofre um tombo por conta da disparada nos preços de um produto ou serviço, ou ainda quando um choque de oferta limita a capacidade dos consumidores de comprar bens e serviços. Muitos analistas passaram a estimar picos de US$ 150 a US$ 200 para o barril do petróleo Brent, caso o Estreito de Ormuz siga fechado nas próximas quatro a seis semanas.

Isso porque a liberação de estoques de petróleo e derivados – das reservas estratégicas soberanas dos países e também de reservas comerciais – vem segurando as cotações. Mas até quando os estoques globais vão conseguir amortecer esse choque de oferta? O banco JPMorgan estima que os estoques globais de petróleo e derivados somavam 8,4 bilhões de barris antes da guerra no Irã e que o limite de estresse operacional é de 7,6 bilhões. Esse nível de estresse já deverá ser atingido no início de junho se o fluxo de navios pelo Estreito de Ormuz não for retomado. O risco é de anúncios de racionamento de combustíveis em vários países.

Até o dia 23 de abril, o JPMorgan estimou a liberação de 280 milhões de barris desses estoques. Pode parecer pouco, mas os analistas lembram que o petróleo e seus derivados armazenados no mar (em tanques flutuantes ou navios-petroleiros) podem ser acessados rapidamente, mas não o produto armazenado em instalações em terra devido a questões operacionais. De um total de 6,5 bilhões de barris armazenados em terra, apenas 580 milhões podem ser liberados de imediato.

A Agência Internacional de Energia alertou no dia 16 de abril que a Europa poderia ficar sem querosene de aviação dali a seis semanas. Aliás, o preço do querosene de aviação passou de US$ 80 por barril, antes da guerra, para mais de US$ 200 no auge do estresse. O efeito foi imediato: a Lufthansa anunciou o corte de 20 mil voos; a United Airlines disse que poderá reajustar as tarifas em até 20%. Outras companhias aéreas também estão reduzindo suas rotas ou elevando preços. Algumas alertam para o risco de falência. Com tal destruição de demanda, cresce o risco de recessão global.

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