O Globo
Gilmar Mendes começa a tentar montar dentro
do Supremo um ambiente que permita, mais adiante, anular o processo do Banco
Master assim como fez com todos os processos da Operação Lava Jato
A divergência aberta entre os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, o decano da instituição, e André Mendonça, o relator do caso do Banco Master, é a evidência de que a crise de legitimidade que atinge o Supremo não se resolverá tão cedo, muito menos agora, quando os dois ministros se manifestaram publicamente sobre teses conceituais, um fustigando o outro. O ministro André Mendonça, já colocado na mídia como o novo guardião da moralidade jurídica, mandou seu recado em evento da OAB do Rio, afirmando, entre outras coisas, que não cabe ao juiz “ser uma estrela”, mas simplesmente agir de maneira certa, e julgar dentro do que é certo.
Um raciocínio aparentemente simplório, mas
que, nesta fase em que estamos, é bem recebido por quem ouve, cansado do
juridiquês fraudulento e das manhas jurídicas que permitem decisões
teratológicas como se fossem sapiências tiradas do fundo da cartola de um
mágico decadente. Já o ministro Gilmar Mendes usou seu reconhecido repertório
jurídico para, não tendo ambiente favorável a um voto divergente depois que a
sua Turma já havia firmado a maioria para manter a prisão do ex-banqueiro
Daniel Vorcaro, deu unanimidade à decisão, mas acusou seu colega de usar
“conceitos porosos e elásticos” para a decretação de prisões preventivas.
Não foi à toa que o ministro Gilmar Mendes
relembrou a Operação Lava Jato, desmontada por sua combativa ação no Supremo,
tão combativa quanto nos anos seguidos de defesa da mesma operação que, na sua
opinião, estava desmontando o “estado cleptocrático” instalado pelo PT no país.
Disse Mendes em seu voto: “em um passado recente, essas mesmas fórmulas foram
indevidamente invocadas pela força-tarefa da Lava Jato para justificar os mais
variados abusos e arbitrariedades contra aqueles que, ao talante dos
investigadores, eram escolhidos como alvos de persecução penal ancorada em
razões políticas e ideológicas".
Gilmar Mendes começa a tentar montar dentro
do Supremo um ambiente que permita, mais adiante, anular o processo do Banco
Master assim como fez com todos os processos da Operação Lava Jato, abrindo a
porteira para que outros juízes usassem a decisão de considerar o então juiz
Sérgio Moro parcial no julgamento do caso do triplex do Guarujá contra Lula. O
que seria uma decisão pontual, como garantiu Mendes na ocasião, virou a senha
para o liberou geral que culminou com todos os condenados libertados, inclusive
os que admitiram culpa em delações premiadas que mais tarde foram consideradas,
inclusive pelo ministro Dias Toffoli, como resultado de pressão ilegal das
autoridades. Até quem devolveu dinheiro roubado recebeu de volta o fruto do
roubo.
O raio não cai de novo no mesmo lugar, diz a
sabedoria popular, mas com a Justiça brasileira nada é impossível, pois a Lava
Jato teve o mesmo fim de outros processos contra corrupção anulados por
tecnicalidades. Assim como a empresa da família Toffoli e Lulinha, filho do
presidente Lula, foram protegidos respectivamente pelos ministros Gilmar Mendes
e Flavio Dino, sob a mesma alegação: a quebra do sigilo dos dois foi feita em
bloco, e não individualmente.
Os dois ministros têm em comum o gosto pela
política, com planos eleitorais claros para 2030. Mendes tem muito prestígio em
seu estado, o Mato Grosso, onde há uma proposta de criação de um município
chamado “Gilmarlândia”, e mais cinco anos de mandato. Dino vem da política
maranhense, tendo sido governador do estado e mantendo até hoje um grupo
político atuante que disputa o poder estadual em uma briga com o atual
governador Carlos Brandão, que já foi seu aliado. Pesquisa Atlas Intel/Estadão
divulgada ontem mostra que o único juiz da Corte que tem avaliação popular
positiva maior que a negativa é André Mendonça. Já o ministro Dias Toffoli é o
pior avaliado, seguido de Gilmar Mendes. O ministro Flavio Dino é o que tem uma
menor avaliação negativa entre seus pares.
Magistrados com interesses políticos não dá
certo. Acusado de agir parcialmente contra Lula, cada manobra partidária de
Sergio Moro com o grupo político de Bolsonaro, como agora no Paraná, justifica
a acusação.

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