O Estado de S. Paulo
Os governos de Irã e EUA cometeram sérios erros de cálculo – o primeiro, no que diz respeito à deterrência; o segundo, às consequências políticas e econômicas da guerra. Agora, ambos precisam de tempo para recolocar a guerra na direção de seus objetivos.
Depois que Donald Trump rompeu o acordo nuclear em 2018, o governo do presidente Ebrahim Raisi, um nacionalista morto em acidente de helicóptero em 2024, alardeou avanços no enriquecimento do urânio para o patamar de 60%. O objetivo era mostrar que o rompimento fora um erro e incentivar os EUA de Joe Biden a voltar à mesa de negociações.
O efeito foi o contrário: 60% eram próximos
demais dos 90% necessários para a confecção de bombas e distantes demais para
exercer a deterrência. Para Trump e Binyamin Netanyahu, pareceram o estágio
certo para conter o Irã.
Os ataques com mísseis iranianos contra
Israel em abril e outubro de 2024 e junho de 2025 serviram para israelenses e
americanos observar o poder do arsenal do Irã e ajustar seus sistemas
defensivos e ofensivos.
Os iranianos superestimaram sua capacidade de
intimidar os israelenses e os aliados árabes do Golfo Pérsico, assim como o
compromisso de Trump de não iniciar uma nova “guerra sem fim” no Oriente Médio.
Agora, o regime iraniano luta pela própria sobrevivência.
De sua parte, o governo Trump superestimou
sua capacidade de neutralizar os mísseis e drones iranianos e de criar as
condições para a mudança de regime em Teerã antes que a guerra impactasse
gravemente a economia americana. Os patéticos apelos de Trump por ajuda para
reabrir o Estreito de Ormuz e a recusa dos aliados europeus e asiáticos revelam
grave erro de planejamento e desgaste de liderança.
ESCALADA. Agora, os EUA se preparam para mobilizar aviões de ataque ao solo A-10 Warthog e helicópteros Apache para destruir, respectivamente, embarcações e drones iranianos e reabrir o estreito. Segundo a agência Reuters, o Pentágono planeja enviar tropas para tomar a Ilha de Kharg, por onde escoa 90% do petróleo iraniano, e para a costa do Irã, para proteger a navegação.
Enquanto isso, o Irã continua atacando
instalações petrolíferas das monarquias árabes do Golfo, forçando a redução da
produção e exportação de petróleo e derivados. O regime causará o máximo de
dano possível à economia mundial e americana para garantir que uma campanha
como essa não se repita.
Os houthis, do Iêmen, aliados do Irã, têm
capacidade de interromper o trânsito de petróleo pelo Mar Vermelho, usado como
alternativa pelos sauditas. E eles ainda nem entraram em ação. Isso indica o
quanto o fim desta crise está longe.

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