domingo, 22 de março de 2026

Uma CPI que perdeu o rumo, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Comissão Parlamentar de Inquérito deve terminar sem resposta para aposentados

A CPI do INSS deve chegar ao fim nesta semana. Criada para investigar fraudes contra aposentados, foi capturada pela disputa eleitoral e perdeu o rumo na tentativa de pegar carona em outro escândalo.

A comissão foi instalada após a descoberta do esquema que afanou idosos com descontos indevidos. Segundo a Controladoria-Geral da União, os desvios somaram R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024, do início da gestão de Jair Bolsonaro à metade do atual mandato de Lula.

O caso veio à tona em abril do ano passado, quando uma operação da Polícia Federal derrubou o presidente do INSS, Alessandro Stefanutto. Instalada quatro meses depois, a CPI virou ringue de luta entre governo e oposição, que saiu na frente ao eleger presidente e relator.

A direita se esforçou para colar o escândalo em Lula. Primeiro tentou convocar Frei Chico, irmão do presidente e ex-dirigente de um sindicato de aposentados. Depois mirou em Fábio Luís, filho do petista que já havia aparecido em rolos passados. Os governistas tentaram revidar com ataques à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Até aqui, os embates produziram muito barulho e pouca informação revelante. Melhor esperar o avanço das investigações da PF, que apura a natureza das ligações de Lulinha com Antonio Camilo Antunes, o Careca do INSS. A defesa já admitiu que o filho do presidente fez uma viagem paga pelo lobista, mas nega seu envolvimento com fraudes. O caso deve ter novos capítulos, com potencial para prejudicar a campanha de Lula à reeleição.

Depois da prisão de Daniel Vorcaro, a CPI se desviou do foco original e passou a correr atrás do caso do Banco Master. Há pontos de contato entre os dois escândalos, mas o movimento se concentrou apenas na busca por holofotes.

Nos últimos dias, a comissão aprovou convites para ouvir o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, seu antecessor, Roberto Campos Neto, e até a modelo Martha Graeff, ex-namorada de Vorcaro. É provável que nenhum dos depoimentos ocorra. A CPI entra hoje na semana cderradeira, e o Supremo já autorizou muitos convocados a não comparecer.

Às vésperas do prazo final, não há sequer garantia de que a comissão terminará com a publicação de um relatório. A oposição elabora um calhamaço de mais de 5 mil páginas, mas não sabe se terá votos para aprová-lo. Os governistas preparam um texto paralelo, sem referências ao caso Master e aos parentes de Lula.

Em qualquer dos cenários, o desfecho tende a decepcionar os aposentados que confiaram na CPI para pegar a quadrilha do INSS.

O fantasma de Adriano

O Ministério Público denunciou Raimunda Veras Magalhães, ex-assessora de Flávio Bolsonaro, sob acusação de lavar dinheiro do jogo do bicho. Ela é mãe do miliciano Adriano da Nóbrega, que foi condecorado na cadeia pelo Zero Um.

O ex-PM foi morto em 2020, num cerco policial com ares de queima de arquivo. Ele nunca contou o que sabia, mas seu fantasma deve assombrar a campanha de Flávio.

 

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