Folha de S. Paulo
Aliança eleitoral no Paraná é a síntese
perfeita de tudo o que há de errado com a direita nacional
Todo mundo erra, a política exige alianças
desconfortáveis, mas chega uma hora que não dá mais
Flávio
Bolsonaro (PL-RJ) declarou
seu apoio à candidatura de Sergio Moro ao
Governo do Paraná. Moro, por sua vez, declarou sua adesão ao PL de Valdemar
Costa Neto, Jair e Flávio Bolsonaro. O candidato do PL do Paraná ao
Senado será Filipe Barros.
A chapa Valdemoro Costa Neto é a síntese perfeita de tudo o que há de errado com a direita nacional. É uma síntese de Banco Master com golpe de Estado e Sergio Moro tentando arrumar boquinha.
Começando por Flávio Bolsonaro: em 21 de
fevereiro de 2022, o senador golpista publicou um texto nesta Folha com
o título "Moro soltou
Lula".
Nesse importante documento histórico, o
senador dizia que "era só Moro ter cumprido a lei que a Suprema Corte não
seria obrigada a reconhecer seus abusos de autoridade ". E concluía:
"Moro acabou com a Lava Jato, traiu os brasileiros e, não fosse sua
vaidade, Lula estaria preso até hoje".
Na época, Moro tentava se firmar como
candidato de "terceira via". E Flávio estava de bem com o STF depois
que Dias Toffoli
o livrou da cadeia no caso das 'rachadinhas' com a família do
miliciano Adriano da
Nóbrega.
O artigo tinha seus méritos: o processo de
Lula foi mesmo anulado porque Moro e Dallagnol conduziram o julgamento de forma
picareta. Mas a Lava Jato só foi enterrada quando o pai de Flávio virou
presidente e nomeou Augusto Aras para
a Procuradoria-Geral da República.
Moro, por sua vez, deixou o
Ministério da Justiça em 2020 acusando Jair de aparelhar
a Polícia
Federal para, vejam só como o mundo é pequeno, livrar da cadeia
Flávio Bolsonaro.
No discurso de renúncia, Moro disse que esse
tipo de aparelhamento não aconteceu nos governos do PT. Mas isso não o impediu
de, na eleição de 2022, apoiar Jair, que ele disse que aparelhava mais, contra
Lula, que ele disse que aparelhava menos.
Mas a cereja do bolo da chapa Valdemoro Costa
Neto é certamente Filipe Barros, candidato ao Senado.
Em 30 de novembro de 2022, Filipe Barros
pediu golpe de Estado por artigo 142 no Congresso Nacional, em uma reunião em
que estavam presentes o chefe do acampamento golpista em Brasília, um dos
terroristas que tentou explodir o aeroporto de Brasília na véspera de Natal e
um dos líderes dos caminhoneiros que pararam estradas em defesa do golpe. Está
no YouTube.
Já que não foi preso, Filipe apresentou o
projeto de lei 4395/2024, que visava aumentar a cobertura do FGC para R$ 1
milhão, garantindo
sobrevida à fraude do Banco Master. A proposta era exatamente a
mesma que Ciro Nogueira apresentou como emenda constitucional (emenda 11 à PEC
65, de 2023).
Não sei por que o nome de Filipe Barros não é
sempre citado com o de Ciro Nogueira nas reportagens sobre o Master. Até aí,
desde 30 de novembro de 2022 que não sei por que ele está solto. Nem ele nem
Flávio.
De qualquer forma, é triste ver uma pessoa
destruindo o pouco que ainda tem de reputação se misturando com esse tipo de
bandidagem. É um dano irremediável a uma biografia que, sejamos honestos, já
era bastante controversa. Uma linha foi cruzada, um passo a mais foi dado, a
partir do qual não é mais possível voltar. Todo mundo erra, a política exige
alianças desconfortáveis, mas chega uma hora que não dá mais. Que decepção,
Valdemar.

Nenhum comentário:
Postar um comentário