Correio Braziliense
A Operação Fúria Épica parece distante de um
fim próximo, embora concebida para durar poucos dias. O nó górdio da guerra é o
bloqueio do Golfo de Ormuz, controlado pelo Irã
Neste ano eleitoral, há três fatores imponderáveis para os humores da sociedade: o desfecho do escândalo do Banco Master, em relação à credibilidade das instituições; a prisão em regime fechado do ex-presidente Jair Bolsonaro, com suas recorrentes internações por problemas de saúde; e a guerra do Irã, com forte impacto no preço dos combustíveis e, consequentemente, na inflação. O primeiro favorece uma candidatura outsider, o segundo a do senador Flávio Bolsonaro e, o terceiro, qualquer um dos dois ou um candidato de “terceira via”. Ou seja, para se reeleger, o presidente Luís Inácio Lula da Silva precisa ficar esperto, o tempo fechou.
Desses fatores, a guerra do Irã é aquela que
está completamente fora do alcance da política brasileira. Embora traga a
política externa para o debate interno, devido às relações do governo
brasileiro com o regime dos aiatolás, o contencioso com Israel e as fricções
entre Lula e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é uma
“externalidade negativa” que precisa ser mitigada.
Entretanto, o Itamaraty não pode influenciar
o destino da guerra e seu impacto na economia depende da duração do conflito.
Hoje, esse é o fator mais crítico para a economia global, sobretudo devidos à
escala dos danos permanentes causados à infraestrutura da região.
Historicamente, o preço do petróleo acompanha as crises do Oriente Médio.
A Guerra do Yom Kippur (1973), que durou três
semanas, foi a causa do primeiro “Choque de Petróleo”. Em retaliação ao apoio a
Israel, a OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), fundada em
1960, um cartel inicialmente formado por Arábia Saudita, Irã, Iraque, Kuwait e
Venezuela, quadruplicou o preço do petróleo, que saltou de 3 para 12 dólares o
barril. Aqui no Brasil, isso provocou o fim do “milagre econômico” no governo
Geisel e a derrota eleitoral dos militares em 1974.
Outras guerras causaram elevação do preço do
petróleo e grande instabilidade nos mercados. A tomada do poder pelos aiatolás
no Irã e a subsequente guerra com o Iraque (1980–1988) foram responsáveis pelo
segundo Choque do Petróleo, em 1982, e a Crise da Dívida dos países em
desenvolvimento. A alta nos preços do combustível e a elevação dos juros
americanos foram o estopim da hiperinflação no Brasil, só superada com o Plano
Real, em 1994.
Em 1991, a Guerra do Golfo (invasão do Kuwait
pelo Iraque) durou sete meses e provocou forte alta do petróleo, somente
contida pela intervenção dos Estados Unidos e o uso de reservas estratégicas de
combustível. Nova crise no mercado se deu com a Guerra do Iraque, em 2003, com
a invasão do país pelos Estados Unidos, sob o falso pretexto de que Sadam
Hussein estaria produzindo armas químicas de extermínio em massa. Seis semanas
de ocupação não confirmaram a acusação e desestabilizaram o país até hoje. Na
época, os preços chegaram a 40 dólares o barril de petróleo.
Nacionalismo
Nessa guerra do Irã, ataques a refinarias no
Kuwait e Arábia Saudita fizeram o petróleo Brent disparar mais de 6% em um
único dia. Dependendo da escala, o barril pode atingir os US$ 200. Depois de
realizar cerca de oito mil voos sobre o território iraniano, atingir cerca de 7
mil a 7,8 mil alvos no país e matar o líder supremo da República Islâmica, Ali
Khamenei, e parcela considerável da cúpula do regime, os Estados Unidos ainda
parecem longe de atingir os objetivos anunciados no início das hostilidades.
A guerra provoca a maior disrupção de oferta
de petróleo da história, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), com
a cotação do barril atingindo quase US$ 120 esta semana, além de causar pressão
inflacionária global e abalo de cadeias produtivas. O preço do petróleo na
sexta-feira (20), estava a US$ 113,10 (R$ 590,04), alta de 4,05% na comparação
com o dia anterior.
O mercado trabalha com três cenários: choque
temporário, barril a US$ 73,1, com menor impacto na inflação; choque
persistente, com preço médio do barril em US$ 82; e choque disruptivo: preço
médio do barril acima de US$ 100, com aumento significativo da inflação global
e do valor dos combustíveis.
Iniciada em 28 de fevereiro, a Operação Fúria
Épica parece distante de um fim próximo, embora tenha sido concebida para durar
poucos dias. O nó górdio da guerra é o bloqueio do Golfo de Ormuz, controlado
pelo Irã, por onde circulam 20% da produção mundial, e a estratégia de escalada
e guerra assimétrica agora adotada pelo regime dos aiatolás.
No Brasil, o presidente Lula zerou o
PIS-Pasep sobre combustíveis e pressiona governadores pela redução do ICMS, mas
os efeitos ainda não chegaram às bombas. A crise reacendeu o debate entre
privatização e estatização, considerado superado pelo mercado. Em visita à
Refinaria Gabriel Passos (Regap), entre Betim e Ibirité (MG), em Minas, Lula
disse que “a Petrobras voltou a ser a empresa mais rentável do país”, e
anunciou a recompra da Refinaria Landulpho Alves (RLAM), na Bahia.
Lula criticou também a privatização da BR
Distribuidora (atual Vibra Energia), com o argumento de que sua venda reduziu a
capacidade de regulação de preços. Ao que tudo indica, pretende politizar a
crise e resgatar uma velha bandeira de defesa da Petrobras: “o petróleo é
nosso”. Em 2006, deu certo contra o então candidato tucano Geraldo Alckmin,
hoje no PSB e seu vice-presidente.

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