sábado, 9 de maio de 2026

A falta que faz um sinal de ironia, por Eduardo Affonso

O Globo

Ironizei a anacrônica e oportunista apropriação que correntes ideológicas antagônicas fazem do cristianismo

Há alguns anos, Joel Pinheiro da Fonseca escreveu, num artigo sobre a quem interessa a liberdade de expressão irrestrita:

— Poderíamos formar algo como um comitê de notáveis, apenas com referências indiscutíveis das ciências (exatas, biológicas e humanas), com a devida representatividade de todas as minorias sociais, para julgar previamente artigos, podcasts ou vídeos que possam ter conteúdo problemático. É isso ou a barbárie.

Apanhou feio de quem não percebeu a ironia. Mas o pior foi ter recebido apoio dos que já acreditam em tanto absurdo que um a mais, um a menos não faria diferença.

Na ocasião, ouviu-se que “textos irônicos são complicados no ambiente jornalístico”. Vou além: ironia é um troço muito complicado na Via Láctea inteira. Que o digam, entre outros, Gregório Duvivier e Antonio Prata, que também já viram crônicas suas ser interpretadas de forma literal por gente que olha e não vê, ouve e não escuta, lê e não se dá ao trabalho de processar o que foi lido.

Para ironizar a anacrônica e oportunista apropriação que correntes ideológicas antagônicas fazem do cristianismo, escrevi aqui, na semana passada, que, se Jesus é de esquerda, Deus é de direita. Deu no que deu:

— Conseguiu incorrer em flagrante anacronismo e revelar notória fragilidade argumentativa na tentativa de sustentar a defesa da direita. É, de fato, impressionante observar o progressivo declínio qualitativo do jornalismo. Lamento dizê-lo, mas trata-se de um texto bastante insatisfatório — pontificou, caprichando no vernáculo, a militante de esquerda.

Bota insatisfatório nisso, moça. Apesar de ser brasileiro, Deus não trabalhava em português, idioma em que Sol é macho e Lua é fêmea (em alemão, língua de um povo mais desconstruído, é o contrário). Ele, como se sabe, criou o Universo em latim. E, capitalista-raiz, ainda aproveitou o Big Bang e fez merchandising de sabonete e carro italiano, com o slogan: “Fiat lux”.

À direita, a reação tampouco foi das melhores:

— Acho que nem os cristãos, que você considera mais tóxicos que os violentos, os misóginos e os abusadores, tomam um texto escrito há milênios ao pé da letra.

Falhei miseravelmente ao endossar a toxicidade-mor dos conservadores, colocando-a no mesmo balaio em que estava o disparate de o Criador estar por trás do agronegócio e da escala 6x1. Não dava para perceber que era um recurso retórico...

A fim de evitar esse tipo de coisa, Luís Fernando Veríssimo tinha sugerido a adoção de um sinal de ironia, a exemplo dos pontos de interrogação e de exclamação. Estava, claro, sendo irônico — seria como avisar “Prepare-se que agora vem o susto” nos filmes de terror.

Mas, já que os rótulos de alimentos informam a presença de ingredientes alergênicos, vou sugerir ao editor que previna, no topo da coluna: “Pode conter ironia e traços de irreverência”. Não é sempre que terá, mas fica o alerta. O próprio Joel Pinheiro advertiu que é parte do objetivo de um texto irônico que sua ironia não seja entendida por todos. É que ela vive da ambiguidade, da polissemia — e pressupõe um pacto: por sério que pareça, haverá um momento em que o autor pisca para o leitor. Só que este precisa ter olhos para ver — e a gente sabe quanto a ideologia e a fé cegam um cristão.

(Em tempo: eu, ateu, acho mesmo é que Deus, essa bela metáfora, é um extremista de centro — ou seja, uma lenda urbana.)

 

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