O Globo
Ironizei a anacrônica e oportunista
apropriação que correntes ideológicas antagônicas fazem do cristianismo
Há alguns anos, Joel Pinheiro da Fonseca
escreveu, num artigo sobre a quem interessa a liberdade de expressão
irrestrita:
— Poderíamos formar algo como um comitê de
notáveis, apenas com referências indiscutíveis das ciências (exatas, biológicas
e humanas), com a devida representatividade de todas as minorias sociais, para
julgar previamente artigos, podcasts ou vídeos que possam ter conteúdo
problemático. É isso ou a barbárie.
Apanhou feio de quem não percebeu a ironia. Mas o pior foi ter recebido apoio dos que já acreditam em tanto absurdo que um a mais, um a menos não faria diferença.
Na ocasião, ouviu-se que “textos irônicos são
complicados no ambiente jornalístico”. Vou além: ironia é um troço muito
complicado na Via Láctea inteira. Que o digam, entre outros, Gregório Duvivier
e Antonio Prata, que também já viram crônicas suas ser interpretadas de forma
literal por gente que olha e não vê, ouve e não escuta, lê e não se dá ao
trabalho de processar o que foi lido.
Para ironizar a anacrônica e oportunista
apropriação que correntes ideológicas antagônicas fazem do cristianismo,
escrevi aqui, na semana passada, que, se Jesus é de esquerda, Deus é de
direita. Deu no que deu:
— Conseguiu incorrer em flagrante anacronismo
e revelar notória fragilidade argumentativa na tentativa de sustentar a defesa
da direita. É, de fato, impressionante observar o progressivo declínio
qualitativo do jornalismo. Lamento dizê-lo, mas trata-se de um texto bastante
insatisfatório — pontificou, caprichando no vernáculo, a militante de esquerda.
Bota insatisfatório nisso, moça. Apesar de
ser brasileiro, Deus não trabalhava em português, idioma em que Sol é macho e
Lua é fêmea (em alemão, língua de um povo mais desconstruído, é o contrário).
Ele, como se sabe, criou o Universo em latim. E, capitalista-raiz, ainda
aproveitou o Big Bang e fez merchandising de sabonete e carro italiano, com o
slogan: “Fiat lux”.
À direita, a reação tampouco foi das
melhores:
— Acho que nem os cristãos, que você
considera mais tóxicos que os violentos, os misóginos e os abusadores, tomam um
texto escrito há milênios ao pé da letra.
Falhei miseravelmente ao endossar a
toxicidade-mor dos conservadores, colocando-a no mesmo balaio em que estava o
disparate de o Criador estar por trás do agronegócio e da escala 6x1. Não dava
para perceber que era um recurso retórico...
A fim de evitar esse tipo de coisa, Luís
Fernando Veríssimo tinha sugerido a adoção de um sinal de ironia, a exemplo dos
pontos de interrogação e de exclamação. Estava, claro, sendo irônico — seria
como avisar “Prepare-se que agora vem o susto” nos filmes de terror.
Mas, já que os rótulos de alimentos informam
a presença de ingredientes alergênicos, vou sugerir ao editor que previna, no
topo da coluna: “Pode conter ironia e traços de irreverência”. Não é sempre que
terá, mas fica o alerta. O próprio Joel Pinheiro advertiu que é parte do
objetivo de um texto irônico que sua ironia não seja entendida por todos. É que
ela vive da ambiguidade, da polissemia — e pressupõe um pacto: por sério que pareça,
haverá um momento em que o autor pisca para o leitor. Só que este precisa ter
olhos para ver — e a gente sabe quanto a ideologia e a fé cegam um cristão.
(Em tempo: eu, ateu, acho mesmo é que Deus,
essa bela metáfora, é um extremista de centro — ou seja, uma lenda urbana.)

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