Folha de S. Paulo
Protesto contra juros vai às redes e ruas;
será milagre se Selic cair agora, mas maio está aí
Roberto Campos Neto, presidente do Banco
Central, está pop. Manifestantes puseram
fogo em um boneco com a cara "desse cidadão" durante um
protesto contra as taxas
de juros, nesta terça-feira (21), na avenida Paulista.
Nas redes sociais, petistas faziam a
caveira de Campos Neto. Na campanha, recorriam a slogans que cataram da boca de
participantes de um seminário do BNDES. Luiz Inácio Lula da Silva deu mais caneladas
no BC.
Porém, desde o começo de fevereiro "o
mercado" diz "tamo junto". É sarcasmo, mas não muito. A taxa de
juros de prazo de um ano caiu a 12,78%. Em novembro, fora a 14,6%, no pico do
estresse causado pelo "Lula Day" e outros discursos do presidente
eleito. A taxa de juro real (ex ante) baixou de 8,8%, no pior de novembro, para
6,8%. Taxas além de dois anos continuam horríveis.
Ainda assim, apenas por milagre o Banco Central deve tirar a Selic dos atuais 13,75% nesta quarta-feira (22), o que ninguém na praça esperava mesmo. Espera-se, sim, sinal de que o arrocho comece a diminuir em maio, na próxima reunião do Comitê de Política Monetária do BC. Lula e seu governo podem dar uma mãozinha.
Se cumprir a regra da sua ordem, o BC vai
prestar mais atenção aos seus assuntos de costume, embora tenha havido novidade
desde a última reunião do Copom (fevereiro).
As expectativas de inflação mais ou menos
pararam de subir, mas no alto ficaram, acima das metas. O real se desvalorizou desde
fevereiro. Vai ser difícil que a máquina de projeções do BC cuspa projeções
muito favoráveis de inflação —talvez saia um IPCA na meta em 2024, se tanto.
Enfim, Lula ainda não anunciou o "novo
arcabouço fiscal" (limitador de gastos e dívida do governo), que está sob
fogo amigo de petistas graúdos. O
chá de revelação do plano fiscal ficou para o mês que vem. Então, talvez o
ano comece em abril.
Sim, há mais sinais de desaceleração da
economia brasileira, como no emprego. O impulso de crédito (uma medida de
aumento do total de novos empréstimos bancários) é negativo desde outubro e
baixa, embora o dado mais recente seja de janeiro. O mercado de capitais (onde
empresas levantam dinheiro) deu uma engasgada feia em fevereiro. Juros para
famílias e empresas estão horríveis.
Há uma crise financeira mundial fervendo
baixo, com risco de novos derramamentos a qualquer momento e com efeito
negativo sobre crédito e crescimento, lá fora e aqui. O preço de commodities
caiu, em parte por causa da lambança bancária euroamericana, que é grande.
O Credit
Suisse desapareceu —não um banquinho ou um tamborete de criptomoedas.
Por estes dias, indicadores de estresse
baixaram, mas o paciente (finança mundial) está dopado com ofertas maciças de
dinheiro dos bancos centrais. Ou pelos calmantes da imperturbável Janet Yellen,
secretária do Tesouro dos Estados Unidos. Nesta terça, Yellen disse que vai
fazer o que puder a fim de evitar mais quebradeira ou tranquilizar
depositantes, garantindo todo mundo caso outro banco vá à breca.
O BC do Brasil talvez apareça com alguma
informação para a qual ninguém está olhando. Talvez uma alma literária invente
por lá um discurso para mudar a orientação em tese previsível da política
monetária. Seria surpresa.
Seja como for, se pode criar um ambiente
mais favorável à queda da Selic. Isto é, queda mais rápida, pois em maio a
economia pode dar sinais agudos de falta de ar, por causa do arrocho.
Dar à luz esse plano fiscal e parar de
falar de metas de inflação (ao menos agora) ajudaria. Lula então poderia entrar
no bonde que perdeu em novembro, que se dirigia para a baixa dos juros. Para lá
não foi por causa da discurseira contraproducente que começou em novembro. E
continua.
4 comentários:
Vixe!
Sai o bossalnaro entra o molusco e a prática de falar m.e.r.d.a pro "cercadinho", dia sim e o outro também, continua. E a gente, como sempre, pagando a conta ... Enquanto isso, a economia patina, os larápios de sempre sequestram o orçamento e uma nova marolinha vem por aí...
22/3/23 14:06
Bolsonaro é incomparável.
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