O Globo
Com a fragilidade atual da candidatura de
Flávio, e as dificuldades que o governo Lula tem para manter a economia em bom
estado pode ser que surja um caminho para um candidato alternativo que supere a
polarização política.
Muito além do resultado das urnas em outubro,
as consequências da derrota de um ou outro dos favoritos momentâneos nas
pesquisas de opinião, ou a vitória de um azarão (dark horse?) que surja,
colocarão o futuro do país em nova encruzilhada. O presidente Lula, cuja
possibilidade de disputar a reeleição aumenta à medida que se enfraquece a
candidatura do senador Flávio Bolsonaro, dificilmente deixará de estar no
segundo turno. Mas pode perder. Aí começa a confusão.
Se desistir, por qualquer motivo, de concorrer, Lula teria no seu vice, Geraldo Alckmin, um candidato perfeito para enfrentar Flávio, agregando o eleitorado de centro-direita. Mas ele é um “tucano do PSB”, e o PT prefere perder com os seus a ganhar com um aliado. Ganhando, Lula encontrará provavelmente um Congresso de oposição mais conservador que o atual, sobretudo no Senado. Isso tornará seu quarto governo no mínimo problemático, se não inviável. O que sairá de um governo sem força política, apoiado por um Supremo Tribunal Federal (STF) acuado politicamente, com probabilidade alta de impeachment de ministro, só saberemos quando acontecer.
Um presidencialismo populista de esquerda com
um governo parlamentarista de direita é receita de crise. Só deu certo o
presidencialismo de coalizão enquanto os parlamentares não tinham o controle do
Orçamento, e o presidente da República se impunha pela distribuição de verbas a
seu bel-prazer. O poder do PT é fruto dessa circunstância, devido à cooptação
de apoios legislativos e à força popular de Lula, que leva o partido nas
costas.
À medida que a autonomia do Congresso com as
emendas orçamentárias e os fundos de financiamento foi se cristalizando, o
presidente da República, fosse de que tendência política fosse, foi perdendo o
controle da situação. Foi assim com Dilma Rousseff, que acabou interditada; com
Michel Temer, que se valeu de suas ligações históricas com a Câmara, de que foi
três vezes presidente, para governar; com Jair Bolsonaro, que entregou os anéis
a Arthur Lira para não perder os dedos; e agora com Lula em seu terceiro
mandato. Nada indica que não será assim num próximo, se houver.
Se vencer, o até agora candidato mais forte
da direita, Flávio, governará com o apoio do Congresso e poderá pôr em prática
as promessas de campanha. Algumas são extremamente perigosas, como a anistia a
seu pai, o ex-presidente Bolsonaro, e aos demais condenados pela tentativa de
golpe. O episódio histórico de condenação dos golpistas, inclusive militares,
não pode ser cancelado por uma canetada, pois a punição tem o dom de advertir
eventuais aventureiros, de direita ou de esquerda, de que a sociedade e a
comunidade internacional não aceitam esse anacronismo.
Se, no entanto, a candidatura de Flávio
entrar em modo de autodestruição, pode ser que se abra a porta para outros
candidatos desse espectro político, reforçados pelo antipetismo que sobrevive
fortemente no eleitorado brasileiro. O PSDB representou por anos a fio essa
tendência, vencendo duas eleições no primeiro turno e chegando ao segundo turno
em todas as demais, com uma base de no mínimo 40% de votos. O ex-governador de
Minas Aécio Neves foi o que mais perto chegou de vencer, perdendo por margem
mínima na reeleição de Dilma Rousseff. Já se via ali, com o escândalo do
mensalão, e depois do petrolão, uma brecha para derrotar o PT, que acabou
ocupada pelo bolsonarismo.
Com a fragilidade atual da candidatura de
Flávio, e as dificuldades que o governo Lula tem para manter a economia em bom
estado devido ao crescimento da inflação pelo desequilíbrio fiscal, e pela
desatualização da esquerda brasileira, pode ser que surja um caminho para um
candidato alternativo que supere a polarização política. O ex-governador de
Goiás Ronaldo Caiado está mais moderado que o outro ex-governador, este de
Minas, Romeu Zema. Qualquer um dos dois, porém, pode receber os votos
bolsonaristas, se acontecer o desmonte da candidatura de Flávio. O ministro
aposentado do STF Joaquim Barbosa não me parece essa figura. Mas o fato de
partidos estarem em busca de novos nomes mostra que existe a demanda.

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