Delação de Daniel Vorcaro não pode ser seletiva
Por O Globo
Proposta omitiu fatos conhecidos pela
polícia. Não faz sentido ele entregar menos do que já se descobriu
É compreensível que a proposta de delação premiada de Daniel Vorcaro venha cercada de expectativas. Afinal, Vorcaro está no centro do escândalo do Banco Master, liquidado no ano passado pelo Banco Central (BC) depois da descoberta de um esquema bilionário de fraudes — e é conhecido pelas relações com altas figuras da República e pelo acesso aos gabinetes do poder em Brasília. Não há dúvida de que sua colaboração com a Justiça pode dar contribuição inestimável às investigações. Mas é fundamental que ele realmente esteja disposto a falar tudo o que sabe e a fornecer provas do que disser.
Por isso causa estranheza que a proposta
apresentada à Polícia
Federal (PF) e à Procuradoria-Geral da República (PGR)
omita fatos da maior importância trazidos à tona nos últimos dias. É o caso das
provas levantadas pela operação da PF que teve como alvo o senador Ciro
Nogueira (PP-PI). De acordo com a PF, Vorcaro pagava a Ciro mesada de R$ 300
mil a R$ 500 mil, custeava viagens internacionais dele e foi o artífice de um
projeto de que se beneficiaria (o aumento da garantia do Fundo Garantidor de
Créditos para R$ 1 milhão). A proposta de delação de Vorcaro tampouco faz
menção ao pedido do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro para
que o banqueiro financiasse um filme sobre seu pai, Jair Bolsonaro, em
transações cercadas de suspeitas. Não faz sentido Vorcaro oferecer na delação
menos do que já se sabe.
As colaborações premiadas têm sido eficazes
para desvendar crimes complexos, identificar autores e recuperar valores
desviados. Embora isoladamente não sirvam como prova judicial, costumam
oferecer subsídios valiosos a investigações. Na Operação Lava-Jato, expuseram
as vísceras da corrupção nas mais altas esferas. É verdade que, posteriormente,
condenações foram anuladas por erros na condução dos processos. Mas isso não
tira o mérito dos acordos, que serviram para iluminar os subterrâneos da relação
do Estado com as grandes empreiteiras.
No assassinato da vereadora Marielle Franco e
de seu motorista Anderson Gomes, as delações premiadas dos executores expuseram
os mandantes, que permaneciam blindados por agentes do Estado. Mais
recentemente, a delação do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de
Jair Bolsonaro, foi fundamental para guiar a PF pelos labirintos da trama
golpista, levando à condenação do ex-presidente, de ex-ministros e de militares
de alta patente.
Já se sabe muito sobre Vorcaro. Mas, dada sua
incrível generosidade com poderosos de todas as estirpes, é certo que ainda há
muito a descobrir. A todo momento, o escândalo do Master ganha novos
desdobramentos (no último, a PF prendeu o pai de Daniel, Henrique Vorcaro,
acusado de integrar uma estrutura paralela para monitorar e intimidar
adversários). É improvável que cessem, enquanto houver celulares e computadores
a vasculhar.
Por tudo isso, além das propostas de
ressarcimento, Vorcaro terá de indicar o caminho de seu dinheiro no Brasil e no
exterior. Se insistir em atuar na retranca, escondendo informações relevantes,
é pouco provável que convença Supremo Tribunal federal, PGR e PF a fechar um
acordo de colaboração. Para obter benefícios da lei, como redução de pena ou
mudança de regime, Vorcaro deve entregar o que sabe. Não pode fazer uma delação
anêmica ou seletiva, apenas com o objetivo de beneficiar-se.
Hostilidade a professores aumenta o risco de
um apagão no magistério
Por O Globo
Pesquisas detectam mais agressões motivadas
por temas ideológicos, fator que afasta vocações do ensino
Não bastassem as dificuldades conhecidas para
avançar na melhoria da qualidade do ensino brasileiro, têm proliferado casos de
intimidação a professores por alunos e familiares. Há evidências de que a
polarização política entrou nas salas de aula para dificultar ainda mais a vida
de quem ensina. São preocupantes os resultados da pesquisa realizada pelo
Observatório Nacional da Violência Contra
Educadoras/es (ONVE), da Universidade Federal Fluminense (UFF), junto a 3.012
profissionais da educação básica
e ensino superior das redes pública e privada.
As respostas revelam crescimento das
agressões a partir de 2010, picos em 2016 — ano do impeachment de Dilma
Rousseff —, 2018 e 2022, anos de eleições gerais. Dentre os entrevistados, 10%
declararam ter sofrido agressão física. Quase todos (94%) foram vítimas ou
testemunharam casos de perseguição, censura, intimidação, agressão verbal ou
física a colegas. A maior incidência desses problemas ocorre no Sul, onde
apenas 4% dos entrevistados disseram desconhecer ocorrência do tipo, ante 10% no
Norte.
Entre os agentes da intimidação, aparecem com
destaque estudantes e seus familiares. Em reflexo do ambiente polarizado, 73%
dos professores afirmaram ser questionados por temas políticos, 53% por
questões de gênero e sexualidade, 48% por assuntos relacionados à religião e
41% por negacionismo científico, em especial na época da pandemia. Alguns
enfrentaram dificuldades múltiplas.
Para 47% dos professores brasileiros, a intimidação
ou o abuso verbal de alunos é responsável por seu nível de estresse, de acordo
com a última Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem, de 2024,
coordenada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico
(OCDE). Barulho excessivo e desordem na sala de aula têm aumentado em todos os
países desde 2018. Em 2024, porém, mais de 50% dos professores brasileiros
reclamavam do problema, ante aproximadamente 33% em Portugal, Chile, Finlândia
e África do Sul — e menos de 5% no Japão e na China.
Tal situação ajuda a desestimular vocações para o ensino. De acordo com as projeções do Instituto Semesp (Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo), faltarão até 235 mil professores para as redes públicas de educação básica até 2040. No momento, já há necessidade de 57% a mais de professores com formação específica em matemática para lecionar a disciplina, segundo o MEC. Políticas de proteção a quem ensina podem ajudar a reduzir o risco real de um apagão mais grave no magistério.
Expansão eleitoreira do crédito dificulta
queda dos juros
Por Folha de S. Paulo
Benesses do governo Lula não afetam as metas
fiscais, mas inflação reduz espaço para alívio monetário
Anunciaram-se linhas para compra de caminhões
e ônibus, máquinas agrícolas, habitação, microcrédito, Desenrola ampliado,
entre outros
O governo Luiz Inácio Lula da
Silva vai seguindo à risca a cartilha histórica do PT, com expansão dos
gastos e também do crédito público, reforçada em ano eleitoral. As
consequências são conhecidas —juros mais
altos, estresse financeiro para empresas e famílias e adiamento de ajustes
necessários para a solidez da economia.
Diante dos limites legais impostos pela meta
de resultado primário (o saldo das contas federais antes do pagamento de
juros), o Planalto tem recorrido mais a estímulos financeiros e creditícios,
que não afetam diretamente os resultados do Tesouro Nacional.
Trata-se de um disfarce que permite
impulsionar a demanda sem aparentar descumprimento de normas fiscais —e sem que
haja qualquer resistência da equipe econômica, que apenas obedece às ordens
político-eleitorais.
As medidas de crédito anunciadas até agora
são numerosas: linhas para compra de caminhões e ônibus, máquinas agrícolas,
bens de capital, microcrédito, habitação por meio do Minha Casa, Minha Vida,
refinanciamento de dívidas estudantis, Desenrola
ampliado e operações do BNDES.
Estuda-se ainda dinheiro para taxistas e motoristas de aplicativos.
Ao todo, segundo estimativas citadas em
reportagem do jornal Valor Econômico, o impulso creditício subirá de 0,7% do
Produto Interno Bruto (PIB) em 2022
para 1,2% neste ano. Um salto significativo, que afeta as contas públicas de
forma indireta no médio prazo —e a economia desde já.
Várias dessas iniciativas repetem o padrão
fracassado do governo Dilma
Rousseff (PT). Os programas de incentivo à troca de caminhões,
por exemplo, tiveram impacto inicial positivo no passado, mas provocaram
efeitos colaterais indesejados.
Entre eles está a redução do frete, que
contribuiu para a crise no setor de transporte e para as greves de
caminhoneiros que abalaram o país em 2018.
No contexto
atual de inflação elevada, o risco se amplifica. As expectativas
para o IPCA vêm subindo desde o início da guerra de Estados Unidos e Israel
contra o Irã, como mostra a pesquisa semanal do Banco Central.
Estimular a demanda doméstica com crédito
subsidiado pressiona ainda mais os preços, dificultando o trabalho da política
monetária. Desde fevereiro, a expectativa para a Selic no
fim deste 2026 aumentou de cerca de 12% para 14% anuais. Ou seja, vai sendo
eliminado o espaço para a necessária queda da taxa.
Alguns setores beneficiados celebram ganhos
temporários, mas a maioria das empresas e famílias sofre com o arrocho
financeiro. Não surpreende, nesse quadro, que as recuperações judiciais e o
número de brasileiros com dívidas atrasadas continuem a bater novos recordes.
Não há transformação na estrutura da
economia, nem aumento de produtividade, nem melhora da eficiência do gasto
público. Apenas estímulos efêmeros e custosos à demanda, pelas piores razões
eleitorais.
O jugo do crime nas favelas do Rio
Por Folha de S. Paulo
Plano para reocupar favelas sob domínio de
facções, apresentado pelo governo estadual, não sai do papel
Falta de referendo do Supremo não justifica
inação; sem planejamento baseado em evidências, não há política de segurança
sustentável
Em dezembro de 2025, o governo do Rio de
Janeiro apresentou ao Supremo Tribunal Federal (STF) um plano
para reocupar as favelas sob domínio de milícias e do Comando
Vermelho. Até o momento, porém, nada de concreto se viu.
À época, o então governador Cláudio
Castro (PL), hoje investigado
pela Polícia
Federal, previu o início do projeto-piloto para o primeiro semestre
de 2026, o que não ocorreu. A ideia inicial era retomar o controle do
território da capital ocupado por facções criminosas e milicianas, área
conhecida como o "Cinturão de Jacarepaguá", que inclui Rio das
Pedras, Muzema e Gardênia.
Segundo especialistas ouvidos pela Folha,
o plano mais parece um
tratado de boas intenções. Para que se torne realidade, porém,
carece de orçamento definido e prioridades claras.
A lentidão das autoridades fluminenses
contrasta com a gravidade do problema. Cerca de 4 milhões de pessoas
—aproximadamente um terço da população da região metropolitana— vivem
atualmente sob o controle ou a influência de grupos armados.
Esse dado tem como base registros do
Disque-Denúncia e foi compilado em dezembro de 2025 pelo Grupo de Estudos dos
Novos Ilegalismos (Geni) da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pelo
Instituto Fogo Cruzado.
Não faz sentido que o poder público espere o
referendo do plano pelo Supremo para dar início à política de segurança pública
de retomada do controle territorial de áreas tomadas por milícias e pelo
Comando Vermelho, já que se trata de competência constitucional da gestão
estadual.
Omissões apenas postergam o direito de
populações inteiras a viver não sob o domínio ditatorial do crime, mas sob a
proteção das instituições públicas.
Tampouco se devem repetir os erros do
passado. A investida policial em áreas controladas pelo crime tem sido pautada
ora pela truculência
de operações policiais letais, ora pelo fracasso em se integrar a
políticas sociais.
Sem planejamento, indicadores e avaliação
baseada em evidências, não há política pública de segurança sustentável —ainda
mais quando ela se encontra desmantelada pela crise
política recente no Rio de Janeiro.
Sem incorporar o asfixiamento econômico de grupos criminosos e milícias, bem como o enfrentamento da corrupção policial, planos como esse, além de não saírem do papel, correm o risco de se mostrarem ingênuos diante da realidade perversa que, em tese, buscam transformar.
A conta salgada das bondades de Lula
Por O Estado de S. Paulo
Custo das medidas populistas do petista para
tentar melhorar suas chances de reeleição já chega a R$ 140 bilhões e deve
aumentar ainda mais, com efeitos sobre inflação e juros
Uma reportagem recente do Estadão revelou que o
custo das medidas anunciadas pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva para
estimular a economia nos últimos dois anos atingiu R$ 140 bilhões. O
levantamento, realizado pelo banco BTG Pactual, inclui dez propostas que já
estão em vigor ou prestes a serem executadas. Portanto, não se trata de uma
conta fechada: é muito provável que a conta da demagogia fique ainda mais
salgada, especialmente porque Lula precisa muito recuperar sua popularidade
para aumentar suas chances de reeleição, num cenário de disputa apertadíssima.
Tudo isso, é óbvio, resultará em mais inflação e pressionará ainda mais a já
estratosférica taxa de juros, aumentando o custo do dinheiro e o custo de vida
justamente para aqueles eleitores cujo voto Lula pretende conquistar.
A farra começou no fim de 2024, com o anúncio
da isenção do Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil. Promessa que
Lula havia feito dois anos antes, ainda durante a campanha, a benesse foi
aprovada pelo Congresso no ano passado e entrou em vigor em janeiro. O governo
abriu mão de R$ 31 bilhões, valor que inclui o desconto no imposto para quem
recebe até R$ 7.350 mensais, mas o efeito eleitoral da medida tem sido pífio, a
julgar pelas pesquisas.
O problema é que, para o eleitor, a despeito
do desemprego baixo, da alta da renda e da inflação razoavelmente sob controle,
a sensação é de dificuldade, ante uma alta persistente dos preços dos alimentos
e o endividamento crônico.
Foi nesse contexto desafiador que o governo
pisou no acelerador e recorreu a um verdadeiro arsenal de medidas.
Diferentemente do IR, no entanto, cuja renúncia fiscal, em tese, será
compensada pela tributação dos mais ricos, a maioria das novas iniciativas tem
caráter parafiscal, uma temeridade considerando o histórico lulopetista com
esse tipo de política.
Medidas parafiscais, em um primeiro momento,
não causam impacto no Orçamento Geral da União. Os recursos que bancam essas
políticas podem ter origem em fundos, estatais ou bancos públicos. Não há
descumprimento de regras fiscais, tampouco é necessário obter aval do Congresso
para colocá-las em vigor.
Parece o melhor dos mundos, mas o perigo está
na recorrência com que o governo tem feito uso delas, no espírito que o motiva
a implementá-las e nas consequências adversas que elas produzem na economia.
Depois da isenção do IR, foram anunciadas ao menos dez iniciativas, e nove
delas não escondem o caráter eleitoreiro.
A mais recente é a nova etapa do Desenrola,
programa de renegociação de dívidas lançado no dia 4 passado e bancado com
dinheiro do Fundo de Garantia de Operações (FGO). Além de pessoas físicas
inadimplentes, microempreendedores individuais, estudantes e agricultores
familiares, a ideia é alcançar quem paga as contas em dia e trabalhadores
informais.
Há ainda diversas medidas para estimular a
tomada de empréstimos, como o consignado privado, o novo modelo de crédito
imobiliário, o Reforma Casa Brasil e as novas faixas do Minha Casa Minha Vida.
O governo ainda vai bancar a conta de energia de famílias de baixa renda por
meio das faturas de outros consumidores e botijões de gás com dinheiro do
pré-sal.
Vem mais por aí. Depois do Move Brasil, com
R$ 21,2 bilhões em crédito para a compra de caminhões, ônibus e outros veículos
pesados, operacionalizado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e
Social (BNDES), o governo ainda pretende lançar uma linha de crédito barata
para compra de automóveis para taxistas e motoristas de aplicativo, além de subsídios
para reduzir preços de gasolina e etanol. O pretexto é ajudar quem utiliza o
veículo como fonte de geração de renda, mas é simplesmente impossível não
associar as medidas aos auxílios lançados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro a
meses da disputa eleitoral.
A conta dessas iniciativas, cedo ou tarde,
chega ao Orçamento, mas o governo Lula prefere fingir que nada disso terá custo
nem prejudicará as contas públicas. Se Lula efetivamente conseguir se reeleger,
terá de arcar com a herança maldita gerada por si mesmo. Dessa vez, não poderá
jogar a responsabilidade no antecessor.
O Brasil à mercê das máfias
Por O Estado de S. Paulo
Vinte anos depois dos ataques do PCC, o País
corre sério risco de se tornar um narcoestado, em que o crime organizado se
entranha de tal forma que o Estado já não funciona sem ele
Passados 20 anos dos ataques do Primeiro
Comando da Capital (PCC) contra as forças de segurança de São Paulo, que
deixaram 564 mortos e aterrorizaram os paulistanos, não restam dúvidas de que o
Brasil fracassou até agora no enfrentamento do crime organizado.
Recorde-se que, em vez de reconhecer a força
do PCC e enfrentá-lo conforme essa realidade, o poder público entrou em estado
de negação. Autoridades paulistas chegaram a se jactar de que o bando havia
sido desmantelado. Depois da ofensiva do grupo criminoso, ficou cada vez mais
claro que a violência em São Paulo passou a depender dos humores do PCC.
Em paralelo, os políticos e as autoridades
empenharam-se em endurecer as penas para os integrantes de facções criminosas,
como se a letra da lei bastasse para desestimular o crime organizado. Exigir
punições draconianas para os bandidos pode render votos, mas não altera
essencialmente o ecossistema que transformou bandos criminosos em
empreendimentos prósperos.
O PCC, que nasceu no sistema prisional
paulista, ganhou as ruas, dominou territórios, cruzou fronteiras, traçou novas
rotas para o tráfico internacional de drogas e diversificou seus negócios,
transformando-se numa holding do crime.
O crescimento do grupo impressiona. Há pouco
mais de dez anos, o PCC era formado por 7,6 mil integrantes, estava presente em
22 Estados e 3 países e faturava R$ 120 milhões anuais. Hoje, são 40 mil
bandidos, em 28 países, movimentando nada menos que R$ 10 bilhões anualmente.
A facção paulista não está sozinha. Um estudo
do Fórum Brasileiro de Segurança Pública identificou mais de 80 organizações
criminosas nos presídios brasileiros.
Por tudo isso, policiais, promotores, juízes,
advogados e estudiosos da segurança pública fizeram um prognóstico perturbador
ao Estadão: o
Brasil está numa encruzilhada. Ou o País adota novos instrumentos legais para
isolar e controlar as facções criminosas, como fez a Itália contra as máfias,
ou sucumbe à infiltração da criminalidade no Estado e na economia, como ocorre
no México.
É preciso reconhecer que há facções no País
que já são máfias. E, como ensina a tradição italiana, a máfia é um parasita
que faz da sociedade seu hospedeiro, intimidando os cidadãos, impondo a lei do
silêncio, controlando atividades econômicas e contratos públicos e criando barreiras
nas eleições, numa relação simbiótica que ameaça a democracia.
O promotor de Justiça Lincoln Gakiya, que
investiga o PCC há anos, afirmou ao Estadão que
a contaminação contínua das estruturas formais pelo crime organizado causará
uma perigosa dependência, culminando num estágio de degradação institucional em
que o Estado “não vai mais poder viver” sem a criminalidade, transformando-se
num narcoestado.
O Brasil está sentado em cima de um barril de
pólvora, enquanto as autoridades parecem insistir em soluções fáceis para
desarmar a bomba, sobretudo o populismo penal.
Há quem só se lembre do combate do crime
organizado apenas às vésperas das eleições, como o presidente Luiz Inácio Lula
da Silva, com seu programa Brasil Contra o Crime Organizado, lançado na reta
final de seu terceiro mandato, após o governo do PT ter sido incapaz de
articular medidas efetivas nessa seara.
A solução requer coragem e inteligência:
coragem, para retomar territórios capturados pelo crime organizado nas
principais metrópoles brasileiras; e inteligência, para asfixiar a lavagem de
dinheiro que oxigena as máfias.
Tudo isso aponta para a urgência de o Brasil
criar instrumentos robustos e estáveis, como leis e uma agência nacional
antimáfia, nos moldes da instituição italiana. A agência produziria dados,
promoveria ações com base em evidências e ainda articularia cooperação entre
autoridades brasileiras e estrangeiras.
E, não menos importante, os criminosos
brasileiros seriam enquadrados numa legislação especificamente antimáfia. A
Itália já mostrou como se faz, ao investigar dois integrantes do PCC pelo que
eles realmente são: mafiosos.
FGTS para todos os gostos
Por O Estado de S. Paulo
Projeto libera o fundo para comprar armas. Só
o trabalhador não tem voz sobre seu próprio dinheiro
A aprovação, pela Comissão de Segurança
Pública da Câmara, de um projeto que autoriza o uso do Fundo de Garantia do
Tempo de Serviço (FGTS) para a compra de armas ajuda a expor uma contradição
antiga e cada vez mais insustentável do modelo brasileiro. O trabalhador é
obrigado a entregar parte de sua renda a um fundo compulsório, mal remunerado e
de acesso restrito, enquanto políticos decidem, conforme a conveniência
ideológica do momento, quais gastos merecem autorização para saque.
Embora seja bastante questionável que
parlamentares escolham justamente a compra de armas como prioridade num país
marcado por déficits históricos em moradia, saneamento, educação e segurança
pública, o problema central não está propriamente no objeto da proposta. Está
na lógica paternalista e oportunista que transformou o FGTS numa espécie de
instrumento político multifuncional, permanentemente moldado pelas prioridades
eleitorais de ocasião. Em vez de discutir seriamente o direito do trabalhador
sobre o próprio dinheiro, o Congresso prefere escolher, de tempos em tempos,
quais despesas considera moral, política ou eleitoralmente aceitáveis.
O fundo foi criado para oferecer proteção em
caso de demissão sem justa causa e para financiar habitação popular. Com o
passar dos anos, porém, virou alvo recorrente de medidas improvisadas. Já
serviu para estimular consumo, socorrer setores econômicos específicos, liberar
recursos emergenciais em momentos de crise e alimentar programas governamentais
de diferentes naturezas. Agora, surge a proposta de financiar armamento civil.
A incoerência é evidente. Se o princípio é
permitir ao trabalhador maior autonomia sobre um recurso que lhe pertence,
então o debate correto deveria ser outro: ampliar de forma estrutural a
liberdade de saque, corrigir a baixa rentabilidade do fundo e reduzir a tutela
estatal sobre o uso desse dinheiro. Se, por outro lado, o entendimento é que o
FGTS deve preservar finalidade social específica, então é preciso parar de
convertê-lo em plataforma para acenos populistas de toda espécie.
O que não faz sentido é manter
simultaneamente as duas coisas: um sistema rígido, que restringe severamente o
acesso do trabalhador ao próprio patrimônio, combinado a liberações pontuais
definidas segundo o humor político do Congresso.
A proposta também evidencia a pobreza do
debate sobre segurança pública no País. Em vez de formular políticas
consistentes de combate ao crime organizado, inteligência policial, controle de
fronteiras e fortalecimento institucional, parte da direita insiste em reduzir
o tema à expansão do armamento civil. Como se a complexa crise da violência
brasileira pudesse ser resolvida por meio de mais uma flexibilização simbólica.
O FGTS não pode continuar funcionando como um cofre eleitoral aberto a sucessivas demagogias. Ou o trabalhador tem mais liberdade real sobre o próprio dinheiro, ou o fundo volta a cumprir, com seriedade e coerência, sua finalidade original. O que não cabe mais é esse modelo híbrido, arbitrário e oportunista que transforma patrimônio do cidadão em ferramenta de marketing político.
EUA e China sinalizam uma bem-vinda trégua
duradoura
Por Valor Econômico
Xi deu apoio protocolar à abertura do Estreito, o que significa que não moverá uma palha para resolver um problema cuja responsabilidade atribui única e exclusivamente aos americanos
O encontro entre os líderes das duas maiores
potências do mundo, Donald Trump e Xi Jinping, terminou sem mudanças de
posições relevantes entre rivais. Trump foi inusualmente comedido em suas
palavras durante e depois das reuniões. Xi deu recados claros, diretos, logo de
início, indicando que incentivos à independência de Taiwan podem levar a um
conflito com a China, e depois fez as mesuras de praxe ao visitante,
prometendo, o que já fizera outras vezes, sem cumprir, comprar centenas de
Boeings e milhões de toneladas de soja dos EUA. Na discussão da relação, porém,
algo mais importante surgiu. Xi pregou "nova estratégia de estabilidade
construtiva", com a qual Trump pareceu se sentir confortável. Ambos estão
propensos a não ampliar o confronto, em uma espécie de "détente" como
a que marcou as relações dos EUA com a URSS dos anos 1960 a 1980, com aumento
do diálogo e cooperação e redução das tensões.
Pequim mostrou-se um rival à altura das
investidas de Donald Trump, iniciadas já no primeiro mandato com uma guerra
comercial que se estendeu ao campo global no segundo. A predominância da
produção chinesa de bens vitais para o mundo, como o virtual monopólio de
terras raras, deu à China armas econômicas de grande alcance. A ofensiva
comercial dos EUA perdeu força na hora em que Xi ameaçou parar de fornecê-las
ao mundo, podendo interromper a produção de ímãs para automóveis, mísseis,
drones etc. Trump buscou uma trégua até outubro, que pode se estender
indefinidamente a partir de agora.
O presidente americano, o mais midiático
deles, saiu sem grandes coisas para anunciar. Ao contrário, na questão de Taiwan,
sobre a qual recebeu um ultimato inicial, pareceu estar a caminho de um recuo.
Ele aprovou novo pacote de venda de armas a Taiwan de US$ 14 bilhões e, na
volta de Pequim, disse que não era certo que isso ocorreria. Nenhum ocupante da
Casa Branca cogitou discutir o assunto com os chineses e Trump não deve ter
feito isso. Mas a dúvida sobre o envio de armas após encontrar-se com Xi mostra
o peso de um veto de Pequim.
Cercado por bilionários em sua comitiva,
Trump, que deslanchou a maior ofensiva protecionista de um país desenvolvido em
tempos modernos, instou a China a abrir seus mercados. Xi disse que seu país
continuaria fazendo isso, quando na verdade continuará fazendo o contrário,
subsidiando de várias formas os bens da maior plataforma exportadora mundial.
Foi ela que permitiu ao país driblar o cerco tarifário americano. Após a trégua
comercial, a China obteve seu maior superávit comercial de todos os tempos, de
US$ 1,2 trilhão em 2025, exportando mais do que nunca, apesar das medidas
americanas.
Além disso, a guerra comercial perdeu força.
A Suprema Corte americana derrubou em fevereiro as tarifas do "dia da
libertação", pois as leis utilizadas pela Casa Branca não poderiam ter
sido usadas para essa finalidade. Agora a Corte Internacional de Comércio
considerou que o presidente não poderia ter imposto tarifa global de 10% sem o
aval do Congresso. Cabe recurso a essa decisão.
Trump foi pedir a intercessão da China junto
ao Irã, aliado político e grande fornecedor de petróleo para o país, para que o
tráfego pelo Estreito de Ormuz seja liberado e se chegue a um acordo de paz.
Trump mencionou que a trégua com o regime dos aiatolás "está por um
fio", em uma guerra cujo preço político lhe está custando caro: perto das
cruciais eleições legislativas de meio de mandato, 58% da população americana
se opõem ao conflito. Xi deu apoio protocolar à abertura do Estreito, o que
significa que não moverá uma palha para resolver um problema cuja
responsabilidade única e exclusivamente atribui aos americanos, como os diplomatas
deixaram claro em suas declarações durante a visita de Trump.
As medidas comerciais equivocadas de Trump,
além de aumentarem a inflação, não melhoraram o comércio externo americano, nem
atingiram de forma contundente seu rival, a China. Em abril de 2025, quando foi
lançada a ofensiva tarifária, o déficit de mercadorias dos EUA foi de US$ 85,4
bilhões. Em março passado, atingiu US$ 87,4 bilhões. A alta da inflação trouxe
mais descontentamento contra Trump, hoje avaliado de forma negativa por quase dois
terços dos eleitores nas pesquisas sobre a condução da política econômica. Os
juros pararam de cair e as apostas se voltam agora sobre quando subirão.
A falta de apoio chinês para encerrar a
guerra no Irã, que caminha para o quarto mês, elevou na sexta-feira os juros de
títulos do Tesouro e derrubou as bolsas americanas. O papel de 30 anos atingiu
5,12%, o nível mais alto em um ano, e, pela primeira vez desde 2007, o Tesouro
fez leilão desses títulos pagando mais de 5%. O choque do petróleo intensificou
o temor da inflação e poderá provocar mais e maiores estragos na economia real
e nos mercados financeiros.
Apesar de tudo, uma trégua permanente na disputa dos EUA com a China, se sustentada, dará tempo a que os países possam, sem a pressão da urgência, se adaptar a uma nova ordem global que tende a ser multipolar, na qual, ao contrário do que crê Trump, os EUA não serão os únicos a deter o comando.
Desigualdade econômica e os impactos na
educação
Por Correio Braziliense
O desenvolvimento depende da inovação, e
quando as oportunidades não são distribuídas de maneira uniforme pela população
esse elo se quebra
Em meio a avanços conquistados na garantia da
qualidade de vida, o mundo ainda apresenta desigualdades que impedem o
crescimento econômico, tecnológico e humano de forma global. Na educação, pilar
para o desenvolvimento das nações e a dignidade de cada indivíduo, as
diferenças claramente se transformam em freio estrutural e perda social.
A complexidade do tema aponta amplos desafios
e, desbancando o senso comum, o boletim "Oportunidades desiguais: infância
e desigualdade econômica", elaborado pelo Fundo das Nações Unidas para a
Infância, o Unicef, indica que viver em um país rico não garante que todas as
crianças sejam igualmente felizes, saudáveis ou tenham o mesmo nível de
competências. O abismo financeiro nessas nações está associado a piores
condições de saúde e a resultados mais fracos nas escolas para os que não
alcançam os privilégios dos recursos que a minoria desfruta.
A análise dos dados também mostra que a
disparidade de rendimentos tem um impacto profundo na aprendizagem de milhões
de meninos e meninas. As crianças dos países desiguais têm probabilidade de 65%
de sair da sala de aula sem competências básicas de leitura e matemática,
comparativamente com 40% das que vivem em nações mais igualitárias. Fato é que
o desenvolvimento depende da inovação e, quando as oportunidades não são
distribuídas de maneira uniforme pela população, esse elo se quebra.
Presos a um ciclo de sobrevivência, os
talentos deixam de contribuir para a ciência porque não conseguem atingir a
plena capacidade que possuem. O que se percebe é que a desigualdade econômica
não se manifesta apenas na diferença salarial entre os adultos, mas se traduz
em discrepâncias gritantes no acesso ao ensino de qualidade, saúde, alimentação
adequada, saneamento e moradia segura para as crianças. Essas privações
interconectadas criam um ambiente em que um imensurável potencial acaba
sufocado antes mesmo de se apresentar.
Um agravante apontado pelo Unicef é que
indivíduos nascidos em famílias de baixa renda muitas vezes enfrentam
desvantagens que se acumulam ao longo dos anos, limitando perspectivas e
reproduzindo a estrutura de desigualdades. Nesse contexto do qual nem os países
ricos escapam, os governos precisam se unir em um esforço para a adoção de
medidas que reduzam a pobreza infantil e os seus impactos. A sociedade
globalizada não pode permitir que ciclos de desvantagem desde a mais tenra
idade se perpetuem.
No Brasil, é clara a urgência de políticas
públicas eficazes e equitativas. Investimentos em programas de proteção social,
saúde e educação infantil de qualidade são cruciais para romper a roda da
desigualdade que causa prejuízos pessoais e coletivos. É fundamental que o país
diminua significativamente a lacuna de desempenho entre as crianças de
diferentes origens socioeconômicas, oferecendo a todas as ferramentas
necessárias para uma vida promissora.
O boletim divulgado pelo Unicef é um forte lembrete de que a redução do abismo econômico não se restringe a uma questão de justiça social, mas é um imperativo para assegurar o desenvolvimento sustentável das nações, construindo um futuro próspero e inclusivo.
Com IA, exploração sexual de crianças e
adolescentes cresceu 450% em um ano
Por O Povo (CE)
Abusadores sexuais aproveitam avanço das IAs
para exploração sexual infantil; poder público e sociedade civil devem unir-se
para combinar vigilância e inteligência investigativa em prol da infância
brasileira
O Dia Nacional de Combate ao Abuso e à
Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes convida à reflexão ativa sobre a
segurança da infância brasileira, principalmente no universo online. Segundo
o relatório da
rede internacional InHope de 2025, o esquema de exploração sexual de
crianças e adolescentes se complexificou no último ano com o suporte de
tecnologias de inteligência artificial (IA): foi um aumento de 450% em
registros online suspeitos de abuso sexual infantil entre 2024 e 2025.
As principais vítimas são meninas de 3 a 13
anos, mas o documento frisar que "o abuso de meninos provavelmente é
sub-representado devido ao estigma social, às táticas de aliciamento e à menor
frequência de auto identificação". O padrão segue no offline: no Ceará,
foram contabilizadas 23.006 vítimas de violência sexual infantil entre 2009 e
2024, maioria meninas de 13 anos, segundo dados obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI) pela Central de Dados
O POVO .
Se o padrão das vítimas se mantém, as
técnicas sofisticadas de exploração virtual mudam. De acordo com o InHope,
houve uma ampliação dos tipos de conteúdo ilegal na internet. Entre elas,
"gravações voyeurísticas, representações animadas ou estilizadas, imagens
personalizadas geradas por IA e representações virtuais de menores, não nuas, mas
sexualmente sugestivas".
Os abusadores também incrementaram as
estratégias de distribuição e de ofuscação do monitoramento. Além de sinais
codificados, alguns materiais são otimizados para o uso em smartphones,
exigindo o download de um aplicativo. Para isso, eles utilizam plataformas de
streaming e interfaces de busca que direcionam o usuário para um conteúdo de
abuso sexual infantil hospedado externamente, dificultando a fiscalização — que
não evolui tão rápido quanto.
A acelerada evolução de tecnologias motivou o
Brasil a realizar uma atualização legislativa e sancionar o ECA Digital, focado
na proteção integral da infância e da adolescência no ambiente online. Uma das
novidades é que empresas com mais de um milhão de usuários menores de 18 anos
precisam publicar relatórios periódicos de transparência, apresentando dados
sobre denúncias, remoção de conteúdos, medidas de proteção e uso de ferramentas
de controle parental.
Além disso, as plataformas são obrigadas a
agir rapidamente na remoção de conteúdos como exploração sexual, assédio,
cyberbullying, discurso de ódio ou incentivo a desafios perigosos; o
descumprimento é passível de sanções como multas, advertências, suspensão de
serviços ou mesmo proibição de funcionamento no país.
Enquanto a luta pela segurança de crianças e adolescentes offline resiste, o combate contra o abuso online está só começando. Órgãos públicos e sociedade civil devem se unir em prol da infância, seja pelo monitoramento e por denúncias, seja pela aplicação de inteligência capaz de acompanhar a teia de exploradores sexuais na internet.

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