O Globo
Diplomatas temiam que o governo dos Estados Unidos fosse envolvido na trama
Em passeatas e na porta dos quartéis, os “patriotas” pediram a volta da ditadura. Com alguns cúmplices, generais entre eles, Jair Bolsonaro cumpre pena por tentar um golpe de Estado. O capitão nunca escondeu seu apreço pelo regime militar. O livro “Olhares ianques: a ditadura brasileira nos arquivos norte-americanos”, de Felipe Loureiro, merece ser lido e decorado pelos bolsonaristas e simpatizantes da direita radical. Não é certo que a leitura os transforme em democratas — mas sempre há esperança.
Loureiro teve acesso a milhares de informações produzidas pela diplomacia americana lotada no Brasil. Alguns fatos já eram conhecidos, como a obsessão do embaixador Lincoln Gordon com o governo de João Goulart e o envio pelos Estados Unidos de uma fragata com soldados para apoiar os golpistas de 1964.
Os informes consultados trazem evidências
capazes de ajudar na reconstrução do pior período da vida política brasileira.
Entre eles, reportado nos telegramas, o pedido do presidente Emílio Garrastazu
Médici para que os associados da Federação das Indústrias do Estado de São
Paulo (Fiesp) contribuíssem para equipar o DOI-Codi. Com a carta do ditador na
mão, o portador, general Humberto de Souza Mello, pedia dinheiro. Alegou que o
aparelho de segurança — leia-se repressão — custava caro. O DOI-Codi notabilizou-se
pela tortura e morte de adversários do regime militar. Entre os vários
assassinados, estão o jornalista Vladimir Herzog e operário Manuel Fiel Filho.
Diante do pedido de Médici, o presidente da
Fiesp, Theobaldo de Nigris, tratou de mobilizar os empresários. De acordo com
os documentos, os dirigentes de empresas americanas no Brasil concordaram em
participar da “arrecadação”, apesar da oposição da embaixada. Os diplomatas
receavam o possível vazamento da operação. Temiam que o governo dos Estados
Unidos fosse envolvido na trama. Dirigentes da General Electric do Brasil, da
DuPont e da Caterpillar não se mostraram convencidos e seguiram com a doação.
Cerca de 20 empresas atenderam à convocação. Como cortina de fumaça, o dinheiro
foi destinado a um pretenso “programa educacional” da Fiesp. Note o cinismo:
pediram em troca nota fiscal para lançar no balanço.
Se havia dúvida a respeito do conhecimento de
Médici sobre os sequestros, torturas no pau de arara, mortes e desaparecimentos
de presos políticos, os telegramas trazem relatos de autoridades brasileiras
corroborando sua conivência com a violência. O ministro da Justiça, Armando
Falcão, em conversa com diplomatas americanos, contou que o governo Médici
havia dado “carta branca” às forças repressoras na luta contra os
“subversivos”. Era política de Estado.
Embora o regime negasse publicamente a
tortura, um representante da embaixada, Richard Rock, registrou que foi
convocado pelo general Antônio Bandeira a servir de intérprete na “sessão” de
tortura de um preso suíço. Pendurado no pau de arara, ele sofria choques no
corpo, e palmas dos pés e das mãos eram queimadas por cigarro.
Os americanos logo perceberam o fanatismo de
alas militares na caça aos adversários do regime. Notaram ainda como a
repressão havia se tornado caótica. Diferentes instâncias policiais sentiam-se
autorizadas a realizar prisões a esmo. Foi o caso de um funcionário da
embaixada, sem qualquer ligação política, detido por dois meses e torturado.
Prisões de cidadãos comuns se multiplicaram Brasil afora.
Os relatos, quase sempre, traziam o nome de
quem forneceu a informação. Na coleta, estavam o embaixador, seus secretários e
adidos militares (leia-se: agentes da CIA). Os documentos reproduziam conversas
com os ditadores, ministros, deputados, diversos generais e até motoristas dos
militares narrando combinações ouvidas durante o trajeto de seus superiores.
Em encontro com o futuro presidente Ernesto
Geisel, o general Mílton Tavares, comandante do II Exército, em São
Paulo, relatou que, no ano anterior, 1973, haviam sido executados
“sumariamente” 104 presos políticos. Ele aconselhou Geisel: tal política de
repressão deveria ser mantida em seu governo.
A Comissão Nacional da Verdade apurou que 434
prisioneiros políticos foram assassinados ao longo da ditadura (1964-1985). Os
americanos relataram que, entre 1968 e meados de 1971, ocorreram 800 mortes
“misteriosas” pelo Esquadrão da Morte — número que não entrou no cômputo
oficial. Dele fazia parte o delegado Sérgio Fleury, protegido e admirado pelo
ministro do Exército, Orlando Geisel. Tinha “costas quentes”.
Era a ditadura que Bolsonaro queria de volta.

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