terça-feira, 10 de março de 2026

A ‘República da PF’, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Sob aplausos, PF não pode repetir as ‘repúblicas’ de Curitiba e do STF, onde o sucesso subiu à cabeça

Estamos normalizando a sexta “república” após a redemocratização? Primeiro, a Nova República de boas lembranças e, na sequência, a de Alagoas, a do mensalão, a de Curitiba, a do Rodrigo Janot e, agora, o mundo político e principalmente o jurídico já se prepara para contra-atacar as denúncias que brotam a toda hora do escândalo Master e condenar o que chamam de “República da Polícia Federal”.

A PF deixou as parcerias tradicionais com Supremo, Ministério Público e CPIs, virou algoz do Supremo com suas investigações e provas contundentes – e milionárias – contra Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, despertando assim um confuso, ou obtuso, corporativismo na Corte e espalhando desconfiança no MP e no Congresso.

Com provas sólidas e em profusão, a PF mantém apoio na mídia, mas, apesar disso, ou exatamente por isso, parece isolada no Judiciário, no Legislativo e no Planalto, onde há desconforto e uma tentativa de descolamento de Daniel Vorcaro, Moraes, Toffoli e Lulinha.

Não se trata de uma disputa entre times, pró ou contra Lula, pró ou contra STF, mas sim entre quem quer e não quer tudo em pratos limpos. A PF diz que faz o seu trabalho, doa a quem doer, o MP aponta “excessos”, como a nova prisão de Vorcaro, e, no Congresso, a reação depende de quem teme ou não o inquérito do Master.

Diferentemente de Bolsonaro, Lula é tido como um presidente que foi preso e aguentou o tranco no mensalão e no petrolão sem intervir na PF nem obstruir as investigações. Se escapar qualquer faísca de que ele esteja mudando de comportamento para neutralizar as denúncias contra STF e Lulinha, o incêndio será incontrolável.

Apesar de ampliar os adversários, a PF mantém canais no Supremo, onde o diretor-geral Andrei Passos Rodrigues foi recebido pelo presidente Edson Fachin e lhe entregou 200 páginas de dados das investigações, com citações a Toffoli. Ato contínuo, saiu Toffoli e entrou André Mendonça na relatoria do processo.

E a PF também tem apoios no Congresso, não por questões ideológicas, partidárias, de oposição ou governo, mas de parlamentares que também querem a verdade, “doa a quem doer”, como o senador Alessandro Vieira, ex-delegado da Polícia Civil em Sergipe, que reuniu assinaturas para abrir uma CPI sobre Moraes e Toffoli.

Moral da história: mudam agentes, alvos e enredo, mas não adianta chorar depois do leite derramado e as investigações irão adiante. A PF, porém, tem um desafio: não repetir a República de Curitiba e a República do STF, por exemplo, que deixaram o sucesso subir à cabeça, acharam-se acima da lei, das regras e dos limites. Deu no que deu. 

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