O Globo
Velhos marinheiros se lembram da Lava-Jato.
Falava-se em passar o país a limpo, e as expectativas se frustraram
No momento, estamos imersos num escândalo.
Nem sequer temos tempo de pensar noutros temas que pedem passagem. Como a
defesa nacional, diante de um mundo dominado pela força bruta. Ou mesmo as
mudanças no universo do trabalho, ditadas pela ascensão da inteligência
artificial.
Existe uma sensação de que algo importante pode acontecer na esteira do escândalo. Velhos marinheiros se lembram da Lava-Jato. Falava-se em passar o país a limpo, e as expectativas se frustraram; a própria operação foi enterrada no governo Bolsonaro.
A corrupção volta de forma nova e intensa com
a quebra do Banco Master. É preciso, de novo, conter as expectativas e corrigir
erros do passado, como a divulgação de diálogos íntimos. Quando se trata de
político envolvido em escândalo, não há muito o que fazer. Uma vez expostos,
dificilmente vencem de novo as eleições. Pelo menos essa foi a experiência da
CPI dos Sanguessugas, parlamentares que superfaturavam a compra de ambulâncias.
Mas como proceder quando suspeitas recaem
sobre ministros do Supremo? Um longo relatório da Polícia
Federal (PF) foi enviado à Corte denunciando a ação de Dias Toffoli.
Numa reunião já histórica, o STF respaldou Toffoli, e um ministro chegou a
classificar o relatório de “lixo”.
Telefones periciados pela PF sugerem
que Alexandre
de Moraes falou muitas vezes com Vorcaro. Moraes nega, apesar do
contrato de R$ 130 milhões do Banco Master com o escritório de sua mulher.
Relatórios e perícias da PF foram usados para o STF condenar centenas de
pessoas. No momento em que os ministros são suspeitos, esse trabalho não vale.
É descartado.
Como avançar nessas circunstâncias? Seria
preciso investigar a ação dos ministros a partir dos dados da PF. Ela não
avançará sozinha. No entanto o procurador é próximo dos ministros e não criará
nenhum inquérito contra eles. Resta o Senado, mas a maioria dos senadores é
muito prudente para iniciar um processo de impeachment. Será então que a
sociedade está inteiramente desamparada, a ponto de não esperar nada?
Tenho falado na proposta de emenda
constitucional do jurista Walter Maierovitch, que renova o Supremo garantindo o
direito dos atuais ministros. Eles ficariam em disponibilidade, mas um novo STF
poderia surgir com regras mais rígidas ou mesmo mandatos.
Mas essa proposta também tem probabilidade
reduzida de ser aprovada. Na verdade, estamos num impasse, e não há outro
caminho, exceto esperar investigações sérias e uma possibilidade de delação
premiada de Daniel Vorcaro para que o processo seja concluído com êxito.
Não haverá grandes cataclismos. Apenas uma
ponta de esperança de alguma reforma que o grande escândalo do Master pode
inspirar.
Será necessário também definir como os
milhares de aposentados podem ser ressarcidos do golpe. Se contarmos o rombo
nas previdências do Rio e do Amapá, se levarmos em conta o assalto àqueles
descontos ilegais no INSS, os mais velhos foram as grandes vítimas da sequência
de escândalos.

Nenhum comentário:
Postar um comentário