terça-feira, 10 de março de 2026

O supremo enigma no caso Master, por Fernando Gabeira

O Globo

Velhos marinheiros se lembram da Lava-Jato. Falava-se em passar o país a limpo, e as expectativas se frustraram

No momento, estamos imersos num escândalo. Nem sequer temos tempo de pensar noutros temas que pedem passagem. Como a defesa nacional, diante de um mundo dominado pela força bruta. Ou mesmo as mudanças no universo do trabalho, ditadas pela ascensão da inteligência artificial.

Existe uma sensação de que algo importante pode acontecer na esteira do escândalo. Velhos marinheiros se lembram da Lava-Jato. Falava-se em passar o país a limpo, e as expectativas se frustraram; a própria operação foi enterrada no governo Bolsonaro.

A corrupção volta de forma nova e intensa com a quebra do Banco Master. É preciso, de novo, conter as expectativas e corrigir erros do passado, como a divulgação de diálogos íntimos. Quando se trata de político envolvido em escândalo, não há muito o que fazer. Uma vez expostos, dificilmente vencem de novo as eleições. Pelo menos essa foi a experiência da CPI dos Sanguessugas, parlamentares que superfaturavam a compra de ambulâncias.

Mas como proceder quando suspeitas recaem sobre ministros do Supremo? Um longo relatório da Polícia Federal (PF) foi enviado à Corte denunciando a ação de Dias Toffoli. Numa reunião já histórica, o STF respaldou Toffoli, e um ministro chegou a classificar o relatório de “lixo”.

Telefones periciados pela PF sugerem que Alexandre de Moraes falou muitas vezes com Vorcaro. Moraes nega, apesar do contrato de R$ 130 milhões do Banco Master com o escritório de sua mulher. Relatórios e perícias da PF foram usados para o STF condenar centenas de pessoas. No momento em que os ministros são suspeitos, esse trabalho não vale. É descartado.

Como avançar nessas circunstâncias? Seria preciso investigar a ação dos ministros a partir dos dados da PF. Ela não avançará sozinha. No entanto o procurador é próximo dos ministros e não criará nenhum inquérito contra eles. Resta o Senado, mas a maioria dos senadores é muito prudente para iniciar um processo de impeachment. Será então que a sociedade está inteiramente desamparada, a ponto de não esperar nada?

Tenho falado na proposta de emenda constitucional do jurista Walter Maierovitch, que renova o Supremo garantindo o direito dos atuais ministros. Eles ficariam em disponibilidade, mas um novo STF poderia surgir com regras mais rígidas ou mesmo mandatos.

Mas essa proposta também tem probabilidade reduzida de ser aprovada. Na verdade, estamos num impasse, e não há outro caminho, exceto esperar investigações sérias e uma possibilidade de delação premiada de Daniel Vorcaro para que o processo seja concluído com êxito.

Não haverá grandes cataclismos. Apenas uma ponta de esperança de alguma reforma que o grande escândalo do Master pode inspirar.

Será necessário também definir como os milhares de aposentados podem ser ressarcidos do golpe. Se contarmos o rombo nas previdências do Rio e do Amapá, se levarmos em conta o assalto àqueles descontos ilegais no INSS, os mais velhos foram as grandes vítimas da sequência de escândalos.


Nenhum comentário: