terça-feira, 10 de março de 2026

Empresas vão ao ‘matadouro’ sem dar um pio, por Pedro Cafardo

Valor Econômico

Empresários sucumbiram à dominação do setor financeiro nas últimas décadas, sem questionar os preceitos neoliberais

Há duas semanas, o Valor publicou uma preocupante reportagem mostrando que grandes e médios grupos empresariais brasileiros intensificam a venda de ativos. Pressionados pelo aumento do endividamento, eles enfrentam um cenário de juros altíssimos no país.

A matéria do Valor, assinada por Ana Luiza Tieghi, Stella Fontes e Mônica Scaramuzzo, observa que alguns conglomerados deixam negócios atuais por decisão estratégica, para investir em outras áreas. Os casos mais comuns e emblemáticos, porém, são de empresas premidas por aquilo que chamam de “alavancagem”. As dívidas de 319 empresas de capital aberto não financeiras cresceram 22% em um ano, do terceiro trimestre de 2024 ao igual período do ano passado, segundo levantamento da Quantum Finance.

Numa conta de padaria, tomemos um grande grupo empresarial que deva R$ 50 bilhões e a taxa média do crédito livre, entre 20% e 26% ao ano, dependendo do porte da empresa, das garantias etc. Se metade de suas linhas estiver em reais, esse grupo terá de administrar uma despesa financeira anual de pelo menos R$ 5 bilhões.

Em casos como esse, uma saída é mesmo a venda de ativos, e os compradores serão, quase sempre, estrangeiros, servidos lá fora por condições de crédito muito melhores. Na União Europeia, o crédito bancário corporativo custa de 2% a 5% ao ano; nos EUA, de 8% a 10%; no Chile, 8,6%; na China, 4,3%; na Coreia do Sul, 4,2%; e na África do Sul, de 10% a 14%.

O nível elevadíssimo do custo das dívidas no Brasil reflete principalmente a política monetária, que mantém a taxa básica de juros em 15% ao ano - os spreads bancários também são bastante altos.

Há, portanto, um inegável problema atingindo não apenas os grandes grupos, mas também médias empresas, como mostrou a matéria do Valor.

E qual tem sido a reação do empresariado do setor produtivo? Quase nenhuma. Entidades de classe e grandes empresários praticamente não dão um pio. Nem para perguntar se o BC não estaria exagerando na dose e sugerir que, em vez de “elevadíssimos”, os juros poderiam ser apenas “elevados”, cumprindo idêntico papel na contenção da inflação. Ou ainda para alertar que, além de gerar um custo trilionário ao setor público, esses juros estimulam a desnacionalização. Uma imagem descreve bem a situação: capitais nacionais são levados como cordeiros ao matadouro.

Como explicar esse silêncio?

O colunista já arriscou uma explicação em textos anteriores, amparado em trabalho acadêmico do economista Haroldo da Silva. Os empresários, inclusive os industriais, sucumbiram à dominação do setor financeiro nas últimas décadas, sem questionar os preceitos neoliberais globalmente difundidos: austeridade fiscal acima de tudo, infinitas reformas, redução do tamanho do Estado, flexibilização das leis trabalhistas, abertura da economia e (atenção!) política monetária restritiva, com juros sempre elevados. Esses princípios, a despeito do desprestígio atual do neoliberalismo, viraram dogmas, e contrariá-los ainda é vergonhoso, algo como negar a lei da gravidade.

No superevento “Rumos 2026”, promovido pelo Valor na semana passada, grandes empresas defenderam unanimemente a necessidade de um ajuste fiscal como condição para que possa haver queda estrutural dos juros. O BC havia indicado que começaria a cortar a Selic neste mês, mas o corte passou a ser questionado com as incertezas decorrentes da guerra no Oriente Médio e do aumento do preço do petróleo.

Meses atrás, é preciso reconhecer, houve manifestação pública da CNI contestando a dosagem da política monetária. Em um “Branded Content”, a entidade fugiu do jargão neoliberal que atribui a maior responsabilidade pelas altas taxas à gastança do governo. E afirmou que a Selic de 15% está errada, porque a taxa de juros de equilíbrio, suficiente para manter a inflação estável e a economia no pleno emprego, seria de 11%, 4 pontos percentuais abaixo da atual.

Não é estranho, de qualquer forma, que essa “liquidação” de capitais nacionais seja recebida quase sem reações públicas do setor produtivo. As narrativas neoliberais são aceitas também no governo petista, embora o longo período de juros exorbitantes seja um desastre para as empresas, desaqueça a economia (o PIB cresceu só 2,3% em 2025) e custe R$ 1 trilhão por ano ao Estado brasileiro.

Quando se toca nesse assunto, desculpem o saudosismo, vem a lembrança de nomes como Antônio Ermírio de Moraes, José Mindlin, Claudio Bardella, Severo Gomes, Jorge Gerdau Johannpeter, Paulo Villares, José Alencar. São empresários que impulsionaram a industrialização durante a ditadura militar. Embora tivessem no início apoiado o golpe de 1964, passaram a advogar, nos anos 1970, a redemocratização do país e a volta do Estado de Direito.

Esses empresários esperneavam para defender suas indústrias e o setor produtivo. Hoje, seus “herdeiros” parecem jogar contra os próprios interesses. Ou talvez não. Afinal, como escreveram no Valor Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back, “não há oposição entre produção e rentismo, mas, sim, relações entre eles, abrigadas nos regaços contraditórios dos movimentos de expansão do capitalismo”.

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