Guerra prolongada será nociva para economia brasileira
Por O Globo
Maior exportação de petróleo mitiga impacto
inicial, mas um conflito duradouro afetará inflação e agro
O prolongamento da guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã se fará sentir na economia brasileira. A principal dúvida diz respeito a quanto tempo durará a alta no petróleo. Com a batalha no Estreito de Ormuz, os preços encostaram em US$ 120 o barril, mas voltaram para a casa dos US$ 90 após Donald Trump declarar que “a guerra está praticamente concluída” e garantir que Ormuz está aberto — depois ele se desdisse, negando que o fim da guerra seja iminente. Quanto mais o conflito se estender, maior será a pressão. O Catar informou que, caso produtores do Golfo Pérsico sejam forçados a parar de produzir, o petróleo chegaria perto de US$ 150.
O impacto da alta do petróleo no Brasil se dá
em dois tempos distintos. Para a Petrobras, num primeiro momento a perspectiva
é positiva, com aumento das exportações a países que hoje importam do Oriente
Médio. O governo também ampliaria receitas com royalties e impostos. Pelos
cálculos do banco BTG Pactual, uma alta de US$ 10 elevaria a receita do governo
em R$ 15,3 bilhões neste ano. E a entrada de dólares seguraria o câmbio,
mitigando o efeito inflacionário. Levando tudo isso em conta, o Bradesco estima
que, a cada 10% de aumento na cotação do barril, o PIB cresça algo como 0,15
ponto percentual a mais.
Mas, caso a guerra seja duradoura, em algum
momento a Petrobras terá de repassar a alta nos preços às bombas, e os efeitos
inflacionários serão inevitáveis. A presidente da petrolífera, Magda
Chambriard, declarou que não pretende transferir “volatilidades ao mercado
interno”. Mesmo assim, é inevitável o repasse se a alta perdurar. A mera
possibilidade de que isso ocorra será suficiente para travar o corte dos juros
pelo Banco Central — desacelerando o crescimento do PIB.
O Brasil também será afetado pela alta no custo
dos transportes globais decorrente tanto do preço dos combustíveis quanto do
choque logístico provocado pelo fechamento prolongado de Ormuz, por onde passam
20% do petróleo exportado no mundo, 25% dos fertilizantes, 35% dos químicos e
plásticos e 15% dos grãos. Os exportadores, em especial o agronegócio, já
sentem o impacto. Embarcações com carnes a caminho do Oriente Médio foram
obrigadas a desviar a rota. Há multas por atraso na entrega, além do custo do
transporte rodoviário ou ferroviário para quem atraca em portos alternativos.
Cargas prontas para o embarque têm ficado paradas nos portos. Grandes
companhias de transporte marítimo cancelaram viagens ao Golfo e anunciaram
sobretaxas para portos da Península Arábica. Mesmo locais distantes do Irã, como
o Canal de Suez, no Egito, têm registrado interdições.
O Oriente Médio compra 15% da carne bovina,
20% do açúcar e 25% do frango exportado pelo Brasil. Só o Irã foi responsável
por 23% do milho vendido no ano passado. Ao mesmo tempo, passam pelo Oriente
Médio 28% da amônia e 29% dos fosfatos vendidos no mundo. Dos fertilizantes
nitrogenados usados no agronegócio brasileiro, 30% vêm da região, responsável
por 35% da ureia e 10% do potássio importados pelo Brasil em 2025 — o Irã é
grande produtor de ureia. Os estoques ainda estão altos para a atual safra, e é
possível encontrar outros fornecedores e rotas. Mas o preço já subiu e pode
sair de controle caso o conflito se prolongue. Não há como a economia
brasileira escapar ilesa a uma guerra que dure meses.
Redução artificial de juros do consignado é
medida eleitoreira
Por O Globo
Para oferecer crédito barato ao trabalhador,
o melhor que o governo tem a fazer é cuidar do equilíbrio fiscal
Em pleno ano eleitoral, diante de pesquisas
de opinião que têm frustrado o Palácio do Planalto, o governo Luiz Inácio Lula da
Silva prepara mais uma medida populista. A ideia agora é reduzir juros dos
empréstimos consignados aos contratados pelo setor privado e aposentados
do INSS.
A medida se junta a outros projetos de cunho nitidamente eleitoreiro que o
governo tem, como ampliação do acesso ao programa minha Minha Casa, Minha Vida,
distribuição de botijões de gás, isenção de Imposto de Renda para quem ganha
até R$ 5 mil e tentar acabar com a escala de trabalho 6x1.
O alívio no consignado integra o programa
Crédito do Trabalhador, lançado há um ano, já de olho nas eleições. O caráter
eleitoreiro é indisfarçável — a ministra das Relações Institucionais, Gleisi
Hoffmann, criou o apelido “empréstimo do Lula”. Na avaliação do governo, embora
o programa tenha se mostrado positivo, especialmente quando comparado ao cheque
especial, os juros ainda se mantêm altos. Depois de um ano, o juro médio no
consignado privado chegou a 3,26% ao mês. Mas o governo quer uma taxa abaixo de
3%.
Para ampliar a oferta e tentar baixar o juro,
o Ministério da Previdência pretende integrar os empréstimos ao aplicativo Meu
INSS, oferecendo aos aposentados um leilão entre bancos. Será possível também
oferecer o saldo do FGTS como garantia do empréstimo. A pressa é tanta que o
governo pediu à Dataprev que acelerasse ajustes nos seus sistemas previstos
para junho.
O governo costuma festejar os números do
Crédito do Trabalhador. No fim de fevereiro, a carteira somava R$ 110 bilhões,
R$ 77 bilhões em empréstimos novos. Foram firmados 19 milhões de contratos. Mas
esses números não traduzem o sucesso de que o governo se vangloria. Problemas
técnicos têm sido recorrentes. Houve casos em que o pagamento deduzido dos
contracheques foi enviado a bancos errados. Noutros, bancos receberam os
pagamentos sem saber de onde vinham. As falhas operacionais alimentaram a
inadimplência, forçando os juros a subir. Depois do lançamento, 67% das menções
nas redes sociais eram negativas, segundo a Quaest.
O programa cria uma distorção na economia, com redução artificial dos juros e estímulo ao consumo, pressionando a inflação. É temerário facilitar empréstimos quando o endividamento das famílias já está alto. Os efeitos do Desenrola, outro programa demagógico criado para renegociar dívidas, duraram pouco, e hoje já há necessidade de outros. Há sempre o risco de o crédito barato criar uma bolha que depois estoure — e a solução apresentada pelo governo se tornará problema. Por fim, está errada a ideia de Lula de incentivar o consumo na esperança de acelerar a economia. A redução dos juros deve ser resultado de medidas de equilíbrio fiscal capazes de recobrar a confiança do mercado nas contas públicas. Isso permitiria ao Banco Central pagar menos pelo dinheiro que o governo toma emprestado. Ajuste fiscal é o melhor que o governo tem a fazer para garantir crédito barato ao trabalhador.
Retrocesso trabalhista
Por Folha de S. Paulo
Gastos de empresas com ações movidas por
empregados e ex-empregados batem recorde de R$ 50,7 bi em 2025
Decisões do STF e do TST ressuscitaram
excessos litigantes que a reforma da CLT buscou conter; debate sobre
pejotização segue pendente
As empresas brasileiras desembolsaram no ano
passado o montante inaudito de R$ 50,7 bilhões em ações trabalhistas em 2025
—cifra que supera todo o orçamento da Justiça do Trabalho (R$ 30 bilhões) e
marca um patamar inédito de custo.
O que chama a atenção não é apenas o valor
absoluto, noticiado pelo jornal O Estado de S. Paulo, mas também o fato de que
esse ônus supera, em termos reais de impacto sobre a atividade produtiva, os
picos verificados antes da reforma trabalhista de 2017.
A judicialização, que a reforma pretendia
conter, voltou a subir em custos, mesmo com número de ações ainda inferior ao
período anterior. Em 2024, a Justiça do Trabalho recebeu 2,134 milhões de novas
ações; em 2025, o
total saltou a 2,321 milhões, com alta de 8,5%. Para efeito de
comparação, o pico histórico ocorreu em 2016, com 2,756 milhões.
Além de flexibilizar contratos de emprego, as
mudanças buscaram desincentivar a litigância predatória ao prever que o
perdedor arcasse com honorários periciais e de sucumbência.
Em outubro de 2021, porém, o Supremo Tribunal
Federal (STF)
declarou a prática inconstitucional e determinou o limite de renda de 40% do
teto dos benefícios do INSS ou ausência de condições materiais como critérios
para acesso a gratuidade. Já o Tribunal Superior do Trabalho (TST) consolidou a
concessão automática por mera autodeclaração.
Ocorrem, assim, ações em tribunais
diferentes, sem prova documental e com pedidos abusivos, sem consistência de
decisões e aderência à jurisprudência.
A enxurrada judicial se dá mesmo com o
emprego em patamares recordes —de acordo com a pesquisa do IBGE, a taxa de
desocupação ficou em 5,4% no trimestre encerrado em janeiro último, menor
patamar da série histórica iniciada em 2012.
Enquanto isso, o debate sobre pejotização —a
contratação como pessoa jurídica para serviços especializados— segue pendente
no Supremo. O julgamento pode legitimar novas modalidades de relação de
trabalho não celetista, tendo em
vista a realidade do trabalho por aplicativos.
É imperativa a necessidade de proteção efetiva
ao trabalhador. Combater contratos fraudulentos que disfarçam vínculo
empregatício é correto. Também é preciso reconhecer que o mundo do trabalho
passa por inovação tecnológica, num contexto em que os próprios trabalhadores
demandam flexibilidade.
O equilíbrio é possível e já tarda. A reforma
de 2017 foi um avanço, mas ficou pela metade. O STF tem, agora, nova
oportunidade de recalibrar a gratuidade, exigindo prova objetiva de
insuficiência econômica, sem fechar as portas a quem precisa. A Justiça do Trabalho
deve assimilar que direitos se defendem com regras claras, previsíveis e
adaptadas ao novo mundo do trabalho.
Datafolha parece esvaziar dilemas de Tarcísio
e Haddad
Por Folha de S. Paulo
Pesquisa reforça vetores que estimulam o
governador de São Paulo a tentar a reeleição
Ministro da Fazenda deixará o cargo para
concorrer na disputa paulista; convém lembrar que os humores do eleitorado
podem mudar
A mera passagem do tempo, ao que tudo indica,
se encarregou de resolver para Tarcísio de
Freitas (Republicanos)
o dilema que ele tinha diante de si. A questão do governador de São Paulo era
saber se deveria disputar a Presidência da República ou buscar uma recondução
quase certa no comando paulista.
Os dois cenários, é bom que se diga, ainda se
descortinam à sua frente. Mas é notável a diferença entre as fotografias
registradas pelo Instituto Datafolha em
abril de 2025 e em março de 2026, pelo menos no que diz respeito ao embate no
âmbito nacional.
Quase um ano atrás, não havia, no campo da
direita, candidato tão forte quanto Tarcísio para enfrentar Luiz Inácio Lula da
Silva (PT).
Assim, embora as pesquisas indicassem a perspectiva de reeleição do governador
de São Paulo, não faltavam argumentos para ele concorrer ao Planalto.
O levantamento mais recente do Datafolha,
contudo, esvaziou um dos pressupostos dessa discussão. Agora, o senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ), que há pouco nem confirmava a intenção de manter sua
candidatura, aparece com
cacife suficiente para substituir Tarcísio no pleito federal.
Com isso, pode-se calcular que o governador
de São Paulo, com menos sentimento de culpa e menor pressão dos aliados, se
voltará para a eleição estadual, onde desponta com
vantagem significativa sobre todos os adversários considerados
pelo Datafolha.
Mesmo no cenário mais complicado para
Tarcísio, sua dianteira é de 13 pontos percentuais: ele lidera com 44% das
intenções de voto, seguido por Fernando
Haddad (PT), com 31%, pelo ex-prefeito de Santo André,
Paulo Serra (PSDB), com 5%, pelo deputado federal Kim Kataguiri (União Brasil),
com 5%, e pelo comentarista Felipe D’Avila (Novo), com 3%.
Haddad, ministro da Fazenda de Lula, deverá
deixar a Esplanada na próxima semana —antes do que se imaginava— para concorrer
ao Governo de São Paulo. A pesquisa Datafolha decerto contribuiu para essa
decisão, já que o petista mostrou ter acumulado algum capital eleitoral.
No pleito paulista, os demais nomes testados
na pesquisa têm desempenho inferior ao do petista no primeiro turno. Quem mais
se aproxima dele é o vice-presidente, Geraldo
Alckmin (PSB), com 26%
das intenções de voto —em um quadro sem Haddad e no qual Tarcísio chega a 46%.
Nas simulações de segundo turno, o governador
de São Paulo mantém a folga e derrotaria qualquer oponente com pelo menos 11
pontos de dianteira.
Convém lembrar que os postulantes não estão definidos e que os humores do eleitorado podem mudar, mas, ao que parece, os jogadores principais começaram a pôr cartas na mesa em São Paulo.
A sucessão no Irã e os dilemas dos EUA
Por O Estado de S. Paulo
A escolha do novo aiatolá mostra que a
República Islâmica resiste, explora a narrativa do martírio e pode emergir mais
militarizada. Enquanto isso, a estratégia de Trump continua confusa
À primeira vista, a eliminação do líder
supremo Ali Khamenei, que durante mais de três décadas concentrou a autoridade
religiosa e política da República Islâmica iraniana, poderia parecer capaz de
desencadear uma crise sucessória, expor rivalidades internas e, no limite,
precipitar o colapso do sistema. Nada disso ocorreu. O regime produziu uma
sucessão relativamente rápida e ordenada. A aclamação do filho do aiatolá,
Mojtaba Khamenei, indica continuidade política e, possivelmente, transformação
estrutural.
Longe de sinalizar abertura ou liberalização,
a escolha reforça a preponderância das facções linha-dura e preserva os
fundamentos institucionais da República Islâmica. A cadeia de comando
permaneceu funcional, os centros decisórios seguem operando e o regime
demonstrou uma capacidade de adaptação que muitos julgavam improvável diante da
intensidade da guerra.
A sucessão parece acelerar uma mudança
silenciosa que já vinha se desenhando há anos: o deslocamento progressivo do
centro de poder do clero para o aparato securitário. Mojtaba construiu sua base
política justamente nas redes de influência da Guarda Revolucionária Islâmica,
e seu apoio dentro desse aparato foi decisivo para sua nomeação. O resultado pode
ser uma modificação institucional significativa: de uma teocracia clerical para
um sistema cada vez mais dominado por estruturas militares.
Essa modificação não elimina, contudo, as
vulnerabilidades do regime. A sucessão apresenta traços que podem alimentar
questionamentos internos. A passagem de poder de pai para filho contradiz o
espírito antimonárquico da revolução de 1979. O novo líder tampouco possui o
prestígio clerical de seus predecessores, e sua trajetória política se
construiu sobretudo nos bastidores do poder. Sua autoridade dependerá menos da
legitimidade religiosa tradicional e mais do apoio das redes militares e da
narrativa ideológica do regime.
O paradoxo é que a própria guerra pode
contribuir para cimentar esse arranjo. Conflitos externos frequentemente
produzem efeitos contraditórios: podem enfraquecer regimes materialmente, mas,
ao mesmo tempo, reforçar sua coesão política no curto prazo. A liderança
iraniana já explora a narrativa de resistência nacional e de martírio enraizada
no ideário xiita para apresentar o conflito como prova de uma conspiração
contra o país e a revolução.
Enquanto o regime demonstra resiliência e
capacidade de adaptação, os objetivos políticos da guerra permanecem confusos
do lado ocidental. Israel parece ter uma meta relativamente bem definida:
degradar de forma duradoura a capacidade militar e nuclear do Irã e suas redes
regionais de projeção de poder – especialmente o Hezbollah.
Já os Estados Unidos parecem oscilar entre
metas distintas: mudança de regime, renegociação nuclear ou simples redução da
ameaça militar iraniana. Paradoxalmente, um líder considerado duro poderia até
dispor de maior margem para negociar um novo acordo nuclear, por exemplo, sem
ser acusado de fraqueza interna. Essa possibilidade, porém, permanece
obscurecida pelas incertezas estratégicas que emanam da Casa Branca.
Vitórias militares não se traduzem
automaticamente em resultados políticos. A história recente está repleta de
exemplos em que campanhas militares bem-sucedidas não produziram uma ordem
política nova ou estável – ao contrário. No caso iraniano, essa dificuldade é
agravada pela ausência de uma alternativa política organizada capaz de
substituir o regime atual. Mesmo dissidentes reconhecem que seu colapso poderia
desencadear fragmentação interna, conflito entre facções ou instabilidade
regional.
O resultado é mais um paradoxo inquietante. A
guerra que, a julgar pelas declarações – sempre ambíguas – do presidente
americano, Donald Trump, teria como ponto final o colapso do regime iraniano
pode acabar acelerando sua transformação em um sistema ainda mais endurecido e
militarizado. Ao mesmo tempo, ela provoca uma questão para o Ocidente e seus
aliados no Golfo: se a República Islâmica está mudando de forma, qual será
exatamente a estratégia para lidar com esse novo Irã?
Brasil desperdiça seu capital humano
Por O Estado de S. Paulo
Segundo estudo do Banco Mundial, o brasileiro
acumula apenas metade do capital humano de um americano por meio do mercado de
trabalho. Educação insatisfatória ajuda a explicar a desvantagem
Um novo indicador lançado pelo Banco Mundial
para mensurar quão efetivamente um país constrói seu capital humano coloca o
Brasil em uma incômoda posição intermediária, ainda que superior à da maioria
dos países latino-americanos, com exceção do Chile e do Uruguai.
Dos 325 pontos possíveis, o Brasil obteve
203, acima da média global (186), bem como daquela da América Latina e Caribe
(194), mas bem distante da pontuação do país mais bem colocado, o Japão (284).
Os EUA marcaram 252 pontos.
O Índice de Capital Humano+ (HCI+, na sigla
em inglês) acompanha a probabilidade de que uma criança cresça e se transforme
em um adulto saudável, educado e produtivo. Para calcular o HCI+, o Banco
Mundial leva em conta três pilares do desenvolvimento humano: saúde, educação e
emprego.
No quesito saúde, o Brasil ficou mais perto
da pontuação considerada ideal (50), obtendo 44 pontos. Já em educação, o
Brasil fez 115 pontos (188 era a marca ideal), enquanto em trabalho obteve 44
(contra um ideal de 87). A distância entre a pontuação ideal e a obtida em
educação é a que mais afeta negativamente o desempenho brasileiro, segundo o
Banco Mundial.
Cada ano de educação universitária eleva o
HCI+ em 16 pontos, refletindo o valor agregado de habilidades avançadas. Contudo,
quando técnicas e aprendizados conquistados por meio da educação não são
utilizados no mercado de trabalho, o capital humano sofre uma erosão.
Em conjunto com o HCI+, o Banco Mundial
também publicou o relatório Construindo
o Capital Humano Onde Mais Importa: Lares, Bairros e Locais de Trabalho,
no qual traz uma das constatações mais alarmantes sobre o Brasil: em média, o
brasileiro no mercado de trabalho acumula apenas metade do capital humano de um
trabalhador dos EUA.
Tamanha desvantagem não se materializa
fortuitamente. Ela é construída ao longo do ciclo de uma vida. Na infância, por
exemplo, o tempo e a qualidade do cuidado que os pais dedicam aos filhos e o
acesso a escolas e a serviços de saúde produzem efeitos duradouros sobre a
capacidade de aprendizagem, bem como da evolução da renda do trabalho.
Em relação específica ao Brasil, os
economistas do Banco Mundial encontraram evidências de que uma pessoa que
cresce em um domicílio de baixa renda em um bairro também de baixa renda
ganhará, quando adulta, cerca da metade do que alguém que, embora também seja
de baixa renda, cresceu em uma vizinhança de alto rendimento.
Além disso, ainda que um bairro conte com
boas escolas e serviços de saúde, problemas como a violência ou a poluição
podem limitar o acesso à educação ou a tratamentos de enfermidades, minando as
oportunidades de desenvolvimento.
A capacidade de desenvolvimento encontra
obstáculos mesmo quando, por sorte ou à custa de considerável esforço, um
adulto vence as barreiras da falta de atenção e de cuidados adequados na
infância, extrai o máximo de conhecimento possível de escolas carentes de bons
professores e chega ao mercado de trabalho.
Isso porque o ambiente de trabalho, que
deveria seguir contribuindo para o aprimoramento das habilidades humanas, nem
sempre oferece condições para tal. Pior, pode inutilizar conhecimentos
previamente adquiridos, sem nada adicionar em troca.
Como se vê, é no entrelaçamento de uma
infância vivida dignamente, educação de qualidade e aprimoramento profissional
contínuo que se constrói capital humano.
Não surpreende, portanto, que o Brasil ocupe
posição apenas intermediária no HCI+, já que por aqui boa parte da população
vive em bairros desprovidos de serviços básicos que, por vezes, também são
assolados pela violência.
Buscar soluções efetivas para todos esses
desafios deveria ser uma prioridade do País, que, no entanto, segue buscando
atalhos como acabar com a escala de trabalho 6x1. Em tese, mudar a escala de
trabalho vai melhorar a vida de quem trabalha, quando na verdade os brasileiros
seguem em desvantagem em relação aos americanos, por exemplo, porque têm
formação insuficiente para executar suas funções. Sem atacar o real problema,
tal fosso só seguirá se ampliando.
A tesoura dos Correios está cega
Por O Estado de S. Paulo
Para conter rombo, estatal busca adesão de 15
mil servidores a PDV, mas só consegue 2 mil
A redução do inflado quadro de funcionários
dos Correios, que em novembro de 2025 girava em torno de 86 mil, é uma das
bases do plano de reestruturação que condicionou o empréstimo bancário de R$ 12
bilhões à companhia. Há três meses, a agonizante estatal comprometeu-se a
reduzir a folha em 15 mil postos em duas fases de um Programa de Demissão
Voluntária (PDV). Seriam 10 mil este ano e mais 5 mil em 2027. A menos de um
mês do fim do prazo da primeira leva, a adesão não passa de 2 mil, muito aquém
do previsto.
Reduzir custos da estatal mais deficitária do
governo federal não está sendo tarefa fácil, e é possível inferir que, em
grande parte, os muitos vícios acumulados em anos de gestão ineficiente, para
dizer o mínimo, e decisões questionáveis do governo estejam contribuindo para
isso. Em dezembro de 2022, imediatamente antes da posse do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva, o quadro de funcionários somava 87.571, de acordo com o
relatório da administração da empresa. Em dezembro de 2023, o total havia caído
para 85.884, como mostrou o balanço da empresa, mas o reajuste salarial de
10,12% – mais do que o dobro da inflação de 4,62% daquele ano – elevou o custo
da folha para mais de R$ 10 bilhões.
Reajuste real, ou seja, acima da inflação, é
a aspiração de qualquer trabalhador que vive de salário. Lula sabe bem disso, e
é contando com o retorno em votos que ele insiste, por exemplo, na política
populista de reajuste real do salário mínimo. Num cenário de contas saneadas,
com receita folgadamente superior às despesas, seria o melhor dos mundos. Não é
o caso dos Correios, e muito menos das contas públicas do País. O rombo não
tarda a crescer de forma descontrolada.
O ano de 2022 terminou com um prejuízo de R$
809 milhões registrado pelos Correios. O do ano passado ainda não foi
divulgado, mas estima-se que tenha ficado em torno de R$ 10 bilhões, que,
apenas a título de ilustração, é a mesma cifra da folha de pessoal da empresa
em 2023 e semelhante à parcela já desembolsada do empréstimo que, obviamente,
não será suficiente para resolver a situação pré-falimentar da estatal.
Vale lembrar que a empresa só conseguiu obter
o financiamento junto ao consórcio de cinco bancos depois de o Tesouro garantir
que, se a estatal não honrar a dívida, o erário o fará, com o dinheiro
arrecadado dos contribuintes. De acordo com o próprio Tesouro, o valor já
liberado para os Correios corresponde a 78% do saldo devedor das operações de
crédito garantidas pela União em todas as empresas estatais.
Em 2024 foi lançado um PDV para tentar conter custos da empresa, com meta em torno de 4 mil funcionários. O plano de reestruturação divulgado no final de 2025 mostrou que o buraco era mais embaixo, e a necessidade de enxugamento subiu para 15 mil servidores. Mas é difícil imaginar o que uma empresa afeita a benesses extraordinárias teria de oferecer para cortar um número tão expressivo de funcionários. Basta lembrar a gratificação natalina de R$ 2,5 mil, apelidada de “vale-peru”, distribuída a cada um em dezembro de 2024, quando já era incontestável a crise sem precedentes.
Preços do petróleo pioram o cenário para
inflação
Por Valor Econômico
Os mercados futuros estão projetando uma mudança significativa na política monetária dos principais países em decorrência da guerra dos EUA com o Irã
As cotações do petróleo dispararam acima de
US$ 100 o barril na alvorada de ontem para fechar em patamar um pouco mais
baixo. Ao longo do dia, o presidente dos EUA, Donald Trump, enviou sinais
conflitantes sobre o fim da guerra com o Irã. Primeiro disse que a guerra “está
praticamente concluída”, e algumas horas depois deixou esse tempo em aberto.
Não há dúvidas de que o patamar de US$ 100 pode ser ultrapassado caso o
conflito não cesse.
Os preços só poderiam aumentar depois que
Israel bombardeou as instalações de armazenagem de petróleo do Irã, o Irã
continuou bloqueando o fluxo de óleo e seus derivados pelo Estreito de Ormuz e
a capacidade de estocagem dos principais produtores do Golfo Pérsico, por ambos
os efeitos, diminui seguidamente. Os mercados financeiros trouxeram à tona suas
piores previsões, que podem ou não se confirmar. Se o conflito durar mais do
que o previsto, a guerra ameaça desacelerar gradualmente a economia mundial,
com aumento da inflação. A magnitude desses movimentos depende obviamente da
duração da guerra, imprevisível.
Há um desenho claro dos efeitos dos ataques
de Trump. Dos 15 milhões de barris de petróleo que cruzam o estreito de Ormuz,
apenas metade pode encontrar rotas alternativas pelo Mar Vermelho: a maior
parte dele é proveniente da Arábia Saudita e uma pequena fração, dos Emirados
Árabes Unidos. Ao contrário dos choques anteriores na região, a produção do
Golfo Pérsico nunca foi tão ameaçada quanto agora. Ainda que o Estreito de
Ormuz seja um gargalo óbvio, nunca foi obstruído por um conflito das proporções
atuais. Apesar dos ataques de baixo teor ofensivo dos houthis do Iêmen contra
embarcações no Mar Vermelho e de forças iranianas em Ormuz, nunca o regime dos
aiatolás foi ameaçado de aniquilação. Isso muda a natureza do conflito,
tornando-o potencialmente mais destrutivo e menos sujeito a acordos
diplomáticos.
Hoje o petróleo bruto não é a mercadoria que
pode causar diretamente mais transtornos na produção global. Fertilizantes e
derivados do óleo, como diesel e combustíveis para aviação, têm maior peso na
escala de prejuízos. Os danos de uma interrupção do fornecimento, com aumento
de preços e menor oferta, também são desigualmente distribuídos. Segundo dados
da Agência Internacional de Energia, 80% de tudo o que passa pelo Estreito tem
como destino a Ásia, a maior parte dirigida à China e à Índia. Para o
abastecimento dessas regiões, o gás natural liquefeito tem papel vital. E para
a produção de 90% do gás do Catar e dos Emirados Árabes Unidos, não há rota
alternativa, segundo a AIE.
As previsões, diante da falta de horizonte
claro para um fim do conflito, são ruins. O Goldman Sachs, por exemplo, prevê
que os preços da gasolina e do diesel chegarão a ser as maiores de todos os
tempos caso todo o mês de março seja consumido em confrontos armados na região
— e esse temor da inflação em casa é um dos motivos para as novas declarações
de Trump. Outros analistas apontam que, a partir de agora, diante de aumentos
de mais de 50% dos custos nos insumos (gasolina e diesel, principalmente), os
efeitos dos ataques aos regimes dos aitolás serão transmitidos por mais tempo à
economia global.
No entanto, as previsões pessimistas dos mercados
nem sempre se materializam. Em primeiro lugar, ainda falta muito para que as
cotações atuais do petróleo cheguem perto das que o tipo Brent alcançou quando
eclodiu a crise financeira global de 2008, de US$ 147 o barril. Na
contabilidade explosiva dos choques do petróleo a partir da década de 1970, a
alta dos preços até agora é modesta: nenhuma antes deixou de triplicar os
preços, enquanto a majoração de agora não ultrapassa 50%.
Reunidos ontem, os países que compõem o G7,
os mais ricos do mundo — Alemanha, Canadá, EUA, França, Itália, Japão e Reino
Unido, além da UE — apesar de não descartarem liberação de reservas, indicaram
um cenário que não é de pânico: refutaram desovar imediatamente estoques
estratégicos de petróleo, que, segundo a Agência Internacional de Energia,
somam 1,2 bilhão de barris, nos 32 países da organização.
Mas, ainda que a perspectiva não seja
catastrófica, há diferentes cenários de escassez entre os vários mercados. No
balanço entre demanda e oferta, o petróleo é o que menos preocupa, e a oferta
de gás liquefeito, a mais inquietante, especialmente para a Europa.
Com o abastecimento para a Ásia atingido
frontalmente, em especial para China, Índia, Coreia do Sul e Taiwan, o conflito
atinge o polo mais dinâmico da economia global, que tem garantido a metade do
crescimento nos últimos anos. A escassez de insumos com preços maiores freará o
dinamismo mundial. Além disso, a alta de preços de energia tem repercussões
globais importantes e alimentará a alta de preços.
Os mercados futuros estão projetando uma mudança significativa na política monetária dos principais países. Nos EUA, estima-se uma redução no ritmo de corte de juros no ano, de dois ou mais para apenas um. Na Europa, em vez de estabilidade, alta das taxas. No Brasil, ritmo mais comedido de cortes. A diferença, no caso, é que o Brasil é grande produtor e exportador de petróleo, e os efeitos sobre a inflação adviriam menos de choque nos preços e mais da desvalorização da moeda, se ocorrer.
Horizonte de nuvens carregadas com petróleo
acima de US$ 100
Por Correio Braziliense
Apesar de o Brasil ser grande produtor e
exportador de petróleo, importa a maior parte dos derivados que consome
Se o governo do presidente Luiz Inácio Lula
da Silva tinha no bom desempenho da economia um forte argumento a seu favor na
corrida eleitoral, com o barril do petróleo superando a casa dos US$ 100, por
causa do ataque de Estados Unidos e Israel ao Irã, essa posição precisará ser
reanalisada. O impacto direto nas contas públicas, na taxa de juros e,
principalmente, na inflação, tem tudo para se tornar munição com alto poder de
dano nas mãos dos adversários — ainda que apresentem apenas rasas propostas e
profundo desconhecimento do cenário. Como para eles o importante é somente
manter os percentuais nas pesquisas de opinião, pode se esperar um chorrilho de
falácias e frases de impacto nas redes sociais.
Para o governo, porém, é um nó apertado.
Apesar de o Brasil ser grande produtor e exportador de petróleo, importa a
maior parte dos derivados que consome. Isso inclui o diesel, elemento
fundamental da cadeia logística nacional. Sabe-se de antemão o que isso
significa: combustível mais caro e carestia em rota de subida.
As notícias que vêm de fora são motivo de
preocupação. Deixou de ser sinistrose dos analistas a hipótese de uma
paralisação na produção mundial de petróleo, cujo efeito imediato será a
estagnação econômica e o risco de uma disparada inflacionária em países cujas
finanças estão em permanente desequilíbrio. Para se ter ideia, o Iraque, quinto
maior fornecedor mundial, desacelerou a produção vertiginosamente por não ter
mais onde estocar. No vizinho Kuwait, os reservatórios também estão repletos de
óleo à espera de escoamento.
Na semana passada, a Aramco — maior
petrolífera do planeta — derrubou a praticamente zero a atividade de uma de
suas refinarias e desacelerou a produção de dois megacampos. O fechamento do
Estreito de Ormuz pela marinha iraniana estrangulou o fluxo comercial dos
países do golfo e levou os armadores a pagarem mais caro pelo seguro do
transporte e pela utilização de rotas alternativas, e mais longas, da navegação
internacional. Produtos e commodities chegarão mais caros para todos.
Antecipando-se ao colapso, ministros das
finanças dos países do G7 discutiram, ontem, a liberação conjunta de petróleo
de suas reservas. A medida de emergência seria coordenada pela Agência
Internacional de Energia e é apoiada pelos governos de EUA, Grã-Bretanha e
França. Isso indica que o conflito com o Irã não terminará tão cedo.
Para a Petrobras, trata-se de uma equação
difícil de ser resolvida. O barril acima dos US$ 100 não necessariamente é
um bom negócio, apesar do aumento da demanda e da redução no fluxo. Os custos
da cadeia sobem generalizadamente, o que inclui a importação de derivados. Isso
significa uma diminuição da capacidade da empresa em segurar os custos para o
consumidor. E como já se viu anteriormente, conter o preço do combustível
artificialmente para evitar impacto inflacionário é uma medida de alto risco.
Em algum momento, a barragem rompe, e o repasse na bomba vem com força cavalar.
Assim, não é permitido ao Palácio do Planalto demora na tomada de decisão. A omissão precipita o desastre. Abre espaço para que se agregue a esse quadro crescentemente difícil duas sérias ameaças à estabilidade institucional. A primeira, de cunho econômico: pressão das grandes frotas para o aumento no preço do frete. A segunda, consequência da primeira, mas na seara eleitoral: o manjado oportunismo de setores da política ao incitar paralisações de caminhoneiros com a única finalidade de tirar dividendos nas urnas. Nesse caso, o que menos importa é o conjunto da população.
Em respeito aos artistas e à cidade
Por O Povo (CE)
É uma vergonha para a cidade de Fortaleza,
que caminha para festejar seus 300 anos de existência, dia 13 de abril próximo,
o que acontece no momento com uma escultura entregue ao nosso espaço público
pela generosidade de um artista com o peso de Sérvulo Esmeraldo.
O estado em que reportagem do O POVO
encontrou a obra "clones", doada por ele - que é natural do Crato -
como demonstração de amor à comunidade que o acolheu e ao lugar que escolheu
viver até sua morte, nove anos atrás, expõe um descaso dos responsáveis, do
poder público e de entidades representativas da sociedade, que coloca em dúvida
até se merecemos, como cidade, um regalo de tanta riqueza.
Trata-se de uma escultura de seis metros de
altura, instalada faz 29 anos, aproximadamente, no chamado Parque das
Esculturas, às margens do riacho Pajeú, próximo à sede do Clube dos Diretores
Lojistas (CDL) de Fortaleza. Resultado, na época, de uma parceria entre a
entidade classista, a prefeitura e artistas dispostos a expressar sua ligação
afetiva com a cidade expressando-se através das linguagens que dominam.
O quadro de abandono em que se encontra a
obra, numa situação denunciada inicialmente pelo próprio Instituto Sérvulo
Esmeraldo, através de suas redes sociais, demonstra uma lamentável e
constrangedora falta de compreensão com sua importância simbólica, que é
incomensurável.
Aliás, uma visita de equipe do O POVO ao
local expôs um quadro de negligência generalizada de quem é responsável pela
manutenção e atinge quase que todo o conjunto das esculturas que compõem o
Parque, numa área central de Fortaleza. Sem contar aquelas que simplesmente
desapareceram, possivelmente roubadas como resultado direto da falta de atenção
com os cuidados mínimos de proteção que deveriam ser observados. E não são.
É um momento oportuno para o problema ser
apontado e de se encontrar maneiras de mudar de atitude e levar o quadro à
transformação necessária, no sentido urgente de uma melhora.
O desrespeito com a obra de Sérvulo, um
artista de repercussão internacional, que espalha seu talento pelos endereços
mais prestigiados do mundo, dá uma ideia do nível de descaso que o quadro expõe
para vergonha de todos nós, moradores que somos da cidade que lhe deve uma
consideração maior.
O Grupo de Comunicação O POVO amplifica o grito de Dodora Guimarães, dedicada dirigente do Instituto Sérvulo Esmeraldo, viúva do inesquecível escultor, no sentido de as obras colocadas em espaços públicos de Fortaleza serem tombadas para tornar possível, ou mais fácil, uma ação protetora delas. O assunto exige um tratamento sério da parte das gestões públicas, dos setores políticos e de parcelas representativas da própria sociedade para que cenários lamentáveis como este observado no Parque das Esculturas - mas vista em outras áreas da cidade -, sejam revertidos a partir de um comportamento geral que faça jus à sua importância real.

Nenhum comentário:
Postar um comentário