terça-feira, 10 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Guerra prolongada será nociva para economia brasileira

Por O Globo

Maior exportação de petróleo mitiga impacto inicial, mas um conflito duradouro afetará inflação e agro

O prolongamento da guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã se fará sentir na economia brasileira. A principal dúvida diz respeito a quanto tempo durará a alta no petróleo. Com a batalha no Estreito de Ormuz, os preços encostaram em US$ 120 o barril, mas voltaram para a casa dos US$ 90 após Donald Trump declarar que “a guerra está praticamente concluída” e garantir que Ormuz está aberto — depois ele se desdisse, negando que o fim da guerra seja iminente. Quanto mais o conflito se estender, maior será a pressão. O Catar informou que, caso produtores do Golfo Pérsico sejam forçados a parar de produzir, o petróleo chegaria perto de US$ 150.

O impacto da alta do petróleo no Brasil se dá em dois tempos distintos. Para a Petrobras, num primeiro momento a perspectiva é positiva, com aumento das exportações a países que hoje importam do Oriente Médio. O governo também ampliaria receitas com royalties e impostos. Pelos cálculos do banco BTG Pactual, uma alta de US$ 10 elevaria a receita do governo em R$ 15,3 bilhões neste ano. E a entrada de dólares seguraria o câmbio, mitigando o efeito inflacionário. Levando tudo isso em conta, o Bradesco estima que, a cada 10% de aumento na cotação do barril, o PIB cresça algo como 0,15 ponto percentual a mais.

Mas, caso a guerra seja duradoura, em algum momento a Petrobras terá de repassar a alta nos preços às bombas, e os efeitos inflacionários serão inevitáveis. A presidente da petrolífera, Magda Chambriard, declarou que não pretende transferir “volatilidades ao mercado interno”. Mesmo assim, é inevitável o repasse se a alta perdurar. A mera possibilidade de que isso ocorra será suficiente para travar o corte dos juros pelo Banco Central — desacelerando o crescimento do PIB.

O Brasil também será afetado pela alta no custo dos transportes globais decorrente tanto do preço dos combustíveis quanto do choque logístico provocado pelo fechamento prolongado de Ormuz, por onde passam 20% do petróleo exportado no mundo, 25% dos fertilizantes, 35% dos químicos e plásticos e 15% dos grãos. Os exportadores, em especial o agronegócio, já sentem o impacto. Embarcações com carnes a caminho do Oriente Médio foram obrigadas a desviar a rota. Há multas por atraso na entrega, além do custo do transporte rodoviário ou ferroviário para quem atraca em portos alternativos. Cargas prontas para o embarque têm ficado paradas nos portos. Grandes companhias de transporte marítimo cancelaram viagens ao Golfo e anunciaram sobretaxas para portos da Península Arábica. Mesmo locais distantes do Irã, como o Canal de Suez, no Egito, têm registrado interdições.

O Oriente Médio compra 15% da carne bovina, 20% do açúcar e 25% do frango exportado pelo Brasil. Só o Irã foi responsável por 23% do milho vendido no ano passado. Ao mesmo tempo, passam pelo Oriente Médio 28% da amônia e 29% dos fosfatos vendidos no mundo. Dos fertilizantes nitrogenados usados no agronegócio brasileiro, 30% vêm da região, responsável por 35% da ureia e 10% do potássio importados pelo Brasil em 2025 — o Irã é grande produtor de ureia. Os estoques ainda estão altos para a atual safra, e é possível encontrar outros fornecedores e rotas. Mas o preço já subiu e pode sair de controle caso o conflito se prolongue. Não há como a economia brasileira escapar ilesa a uma guerra que dure meses.

Redução artificial de juros do consignado é medida eleitoreira

Por O Globo

Para oferecer crédito barato ao trabalhador, o melhor que o governo tem a fazer é cuidar do equilíbrio fiscal

Em pleno ano eleitoral, diante de pesquisas de opinião que têm frustrado o Palácio do Planalto, o governo Luiz Inácio Lula da Silva prepara mais uma medida populista. A ideia agora é reduzir juros dos empréstimos consignados aos contratados pelo setor privado e aposentados do INSS. A medida se junta a outros projetos de cunho nitidamente eleitoreiro que o governo tem, como ampliação do acesso ao programa minha Minha Casa, Minha Vida, distribuição de botijões de gás, isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e tentar acabar com a escala de trabalho 6x1.

O alívio no consignado integra o programa Crédito do Trabalhador, lançado há um ano, já de olho nas eleições. O caráter eleitoreiro é indisfarçável — a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, criou o apelido “empréstimo do Lula”. Na avaliação do governo, embora o programa tenha se mostrado positivo, especialmente quando comparado ao cheque especial, os juros ainda se mantêm altos. Depois de um ano, o juro médio no consignado privado chegou a 3,26% ao mês. Mas o governo quer uma taxa abaixo de 3%.

Para ampliar a oferta e tentar baixar o juro, o Ministério da Previdência pretende integrar os empréstimos ao aplicativo Meu INSS, oferecendo aos aposentados um leilão entre bancos. Será possível também oferecer o saldo do FGTS como garantia do empréstimo. A pressa é tanta que o governo pediu à Dataprev que acelerasse ajustes nos seus sistemas previstos para junho.

O governo costuma festejar os números do Crédito do Trabalhador. No fim de fevereiro, a carteira somava R$ 110 bilhões, R$ 77 bilhões em empréstimos novos. Foram firmados 19 milhões de contratos. Mas esses números não traduzem o sucesso de que o governo se vangloria. Problemas técnicos têm sido recorrentes. Houve casos em que o pagamento deduzido dos contracheques foi enviado a bancos errados. Noutros, bancos receberam os pagamentos sem saber de onde vinham. As falhas operacionais alimentaram a inadimplência, forçando os juros a subir. Depois do lançamento, 67% das menções nas redes sociais eram negativas, segundo a Quaest.

O programa cria uma distorção na economia, com redução artificial dos juros e estímulo ao consumo, pressionando a inflação. É temerário facilitar empréstimos quando o endividamento das famílias já está alto. Os efeitos do Desenrola, outro programa demagógico criado para renegociar dívidas, duraram pouco, e hoje já há necessidade de outros. Há sempre o risco de o crédito barato criar uma bolha que depois estoure — e a solução apresentada pelo governo se tornará problema. Por fim, está errada a ideia de Lula de incentivar o consumo na esperança de acelerar a economia. A redução dos juros deve ser resultado de medidas de equilíbrio fiscal capazes de recobrar a confiança do mercado nas contas públicas. Isso permitiria ao Banco Central pagar menos pelo dinheiro que o governo toma emprestado. Ajuste fiscal é o melhor que o governo tem a fazer para garantir crédito barato ao trabalhador.

Retrocesso trabalhista

Por Folha de S. Paulo

Gastos de empresas com ações movidas por empregados e ex-empregados batem recorde de R$ 50,7 bi em 2025

Decisões do STF e do TST ressuscitaram excessos litigantes que a reforma da CLT buscou conter; debate sobre pejotização segue pendente

As empresas brasileiras desembolsaram no ano passado o montante inaudito de R$ 50,7 bilhões em ações trabalhistas em 2025 —cifra que supera todo o orçamento da Justiça do Trabalho (R$ 30 bilhões) e marca um patamar inédito de custo.

O que chama a atenção não é apenas o valor absoluto, noticiado pelo jornal O Estado de S. Paulo, mas também o fato de que esse ônus supera, em termos reais de impacto sobre a atividade produtiva, os picos verificados antes da reforma trabalhista de 2017.

A judicialização, que a reforma pretendia conter, voltou a subir em custos, mesmo com número de ações ainda inferior ao período anterior. Em 2024, a Justiça do Trabalho recebeu 2,134 milhões de novas ações; em 2025, o total saltou a 2,321 milhões, com alta de 8,5%. Para efeito de comparação, o pico histórico ocorreu em 2016, com 2,756 milhões.

Além de flexibilizar contratos de emprego, as mudanças buscaram desincentivar a litigância predatória ao prever que o perdedor arcasse com honorários periciais e de sucumbência.

Em outubro de 2021, porém, o Supremo Tribunal Federal (STF) declarou a prática inconstitucional e determinou o limite de renda de 40% do teto dos benefícios do INSS ou ausência de condições materiais como critérios para acesso a gratuidade. Já o Tribunal Superior do Trabalho (TST) consolidou a concessão automática por mera autodeclaração.

Ocorrem, assim, ações em tribunais diferentes, sem prova documental e com pedidos abusivos, sem consistência de decisões e aderência à jurisprudência.

A enxurrada judicial se dá mesmo com o emprego em patamares recordes —de acordo com a pesquisa do IBGE, a taxa de desocupação ficou em 5,4% no trimestre encerrado em janeiro último, menor patamar da série histórica iniciada em 2012.

Enquanto isso, o debate sobre pejotização —a contratação como pessoa jurídica para serviços especializados— segue pendente no Supremo. O julgamento pode legitimar novas modalidades de relação de trabalho não celetista, tendo em vista a realidade do trabalho por aplicativos.

É imperativa a necessidade de proteção efetiva ao trabalhador. Combater contratos fraudulentos que disfarçam vínculo empregatício é correto. Também é preciso reconhecer que o mundo do trabalho passa por inovação tecnológica, num contexto em que os próprios trabalhadores demandam flexibilidade.

O equilíbrio é possível e já tarda. A reforma de 2017 foi um avanço, mas ficou pela metade. O STF tem, agora, nova oportunidade de recalibrar a gratuidade, exigindo prova objetiva de insuficiência econômica, sem fechar as portas a quem precisa. A Justiça do Trabalho deve assimilar que direitos se defendem com regras claras, previsíveis e adaptadas ao novo mundo do trabalho.

Datafolha parece esvaziar dilemas de Tarcísio e Haddad

Por Folha de S. Paulo

Pesquisa reforça vetores que estimulam o governador de São Paulo a tentar a reeleição

Ministro da Fazenda deixará o cargo para concorrer na disputa paulista; convém lembrar que os humores do eleitorado podem mudar

A mera passagem do tempo, ao que tudo indica, se encarregou de resolver para Tarcísio de Freitas (Republicanos) o dilema que ele tinha diante de si. A questão do governador de São Paulo era saber se deveria disputar a Presidência da República ou buscar uma recondução quase certa no comando paulista.

Os dois cenários, é bom que se diga, ainda se descortinam à sua frente. Mas é notável a diferença entre as fotografias registradas pelo Instituto Datafolha em abril de 2025 e em março de 2026, pelo menos no que diz respeito ao embate no âmbito nacional.

Quase um ano atrás, não havia, no campo da direita, candidato tão forte quanto Tarcísio para enfrentar Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Assim, embora as pesquisas indicassem a perspectiva de reeleição do governador de São Paulo, não faltavam argumentos para ele concorrer ao Planalto.

O levantamento mais recente do Datafolha, contudo, esvaziou um dos pressupostos dessa discussão. Agora, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que há pouco nem confirmava a intenção de manter sua candidatura, aparece com cacife suficiente para substituir Tarcísio no pleito federal.

Com isso, pode-se calcular que o governador de São Paulo, com menos sentimento de culpa e menor pressão dos aliados, se voltará para a eleição estadual, onde desponta com vantagem significativa sobre todos os adversários considerados pelo Datafolha.

Mesmo no cenário mais complicado para Tarcísio, sua dianteira é de 13 pontos percentuais: ele lidera com 44% das intenções de voto, seguido por Fernando Haddad (PT), com 31%, pelo ex-prefeito de Santo André, Paulo Serra (PSDB), com 5%, pelo deputado federal Kim Kataguiri (União Brasil), com 5%, e pelo comentarista Felipe D’Avila (Novo), com 3%.

Haddad, ministro da Fazenda de Lula, deverá deixar a Esplanada na próxima semana —antes do que se imaginava— para concorrer ao Governo de São Paulo. A pesquisa Datafolha decerto contribuiu para essa decisão, já que o petista mostrou ter acumulado algum capital eleitoral.

No pleito paulista, os demais nomes testados na pesquisa têm desempenho inferior ao do petista no primeiro turno. Quem mais se aproxima dele é o vice-presidente, Geraldo Alckmin (PSB), com 26% das intenções de voto —em um quadro sem Haddad e no qual Tarcísio chega a 46%.

Nas simulações de segundo turno, o governador de São Paulo mantém a folga e derrotaria qualquer oponente com pelo menos 11 pontos de dianteira.

Convém lembrar que os postulantes não estão definidos e que os humores do eleitorado podem mudar, mas, ao que parece, os jogadores principais começaram a pôr cartas na mesa em São Paulo.

A sucessão no Irã e os dilemas dos EUA

Por O Estado de S. Paulo

A escolha do novo aiatolá mostra que a República Islâmica resiste, explora a narrativa do martírio e pode emergir mais militarizada. Enquanto isso, a estratégia de Trump continua confusa

À primeira vista, a eliminação do líder supremo Ali Khamenei, que durante mais de três décadas concentrou a autoridade religiosa e política da República Islâmica iraniana, poderia parecer capaz de desencadear uma crise sucessória, expor rivalidades internas e, no limite, precipitar o colapso do sistema. Nada disso ocorreu. O regime produziu uma sucessão relativamente rápida e ordenada. A aclamação do filho do aiatolá, Mojtaba Khamenei, indica continuidade política e, possivelmente, transformação estrutural.

Longe de sinalizar abertura ou liberalização, a escolha reforça a preponderância das facções linha-dura e preserva os fundamentos institucionais da República Islâmica. A cadeia de comando permaneceu funcional, os centros decisórios seguem operando e o regime demonstrou uma capacidade de adaptação que muitos julgavam improvável diante da intensidade da guerra.

A sucessão parece acelerar uma mudança silenciosa que já vinha se desenhando há anos: o deslocamento progressivo do centro de poder do clero para o aparato securitário. Mojtaba construiu sua base política justamente nas redes de influência da Guarda Revolucionária Islâmica, e seu apoio dentro desse aparato foi decisivo para sua nomeação. O resultado pode ser uma modificação institucional significativa: de uma teocracia clerical para um sistema cada vez mais dominado por estruturas militares.

Essa modificação não elimina, contudo, as vulnerabilidades do regime. A sucessão apresenta traços que podem alimentar questionamentos internos. A passagem de poder de pai para filho contradiz o espírito antimonárquico da revolução de 1979. O novo líder tampouco possui o prestígio clerical de seus predecessores, e sua trajetória política se construiu sobretudo nos bastidores do poder. Sua autoridade dependerá menos da legitimidade religiosa tradicional e mais do apoio das redes militares e da narrativa ideológica do regime.

O paradoxo é que a própria guerra pode contribuir para cimentar esse arranjo. Conflitos externos frequentemente produzem efeitos contraditórios: podem enfraquecer regimes materialmente, mas, ao mesmo tempo, reforçar sua coesão política no curto prazo. A liderança iraniana já explora a narrativa de resistência nacional e de martírio enraizada no ideário xiita para apresentar o conflito como prova de uma conspiração contra o país e a revolução.

Enquanto o regime demonstra resiliência e capacidade de adaptação, os objetivos políticos da guerra permanecem confusos do lado ocidental. Israel parece ter uma meta relativamente bem definida: degradar de forma duradoura a capacidade militar e nuclear do Irã e suas redes regionais de projeção de poder – especialmente o Hezbollah.

Já os Estados Unidos parecem oscilar entre metas distintas: mudança de regime, renegociação nuclear ou simples redução da ameaça militar iraniana. Paradoxalmente, um líder considerado duro poderia até dispor de maior margem para negociar um novo acordo nuclear, por exemplo, sem ser acusado de fraqueza interna. Essa possibilidade, porém, permanece obscurecida pelas incertezas estratégicas que emanam da Casa Branca.

Vitórias militares não se traduzem automaticamente em resultados políticos. A história recente está repleta de exemplos em que campanhas militares bem-sucedidas não produziram uma ordem política nova ou estável – ao contrário. No caso iraniano, essa dificuldade é agravada pela ausência de uma alternativa política organizada capaz de substituir o regime atual. Mesmo dissidentes reconhecem que seu colapso poderia desencadear fragmentação interna, conflito entre facções ou instabilidade regional.

O resultado é mais um paradoxo inquietante. A guerra que, a julgar pelas declarações – sempre ambíguas – do presidente americano, Donald Trump, teria como ponto final o colapso do regime iraniano pode acabar acelerando sua transformação em um sistema ainda mais endurecido e militarizado. Ao mesmo tempo, ela provoca uma questão para o Ocidente e seus aliados no Golfo: se a República Islâmica está mudando de forma, qual será exatamente a estratégia para lidar com esse novo Irã?

Brasil desperdiça seu capital humano

Por O Estado de S. Paulo

Segundo estudo do Banco Mundial, o brasileiro acumula apenas metade do capital humano de um americano por meio do mercado de trabalho. Educação insatisfatória ajuda a explicar a desvantagem

Um novo indicador lançado pelo Banco Mundial para mensurar quão efetivamente um país constrói seu capital humano coloca o Brasil em uma incômoda posição intermediária, ainda que superior à da maioria dos países latino-americanos, com exceção do Chile e do Uruguai.

Dos 325 pontos possíveis, o Brasil obteve 203, acima da média global (186), bem como daquela da América Latina e Caribe (194), mas bem distante da pontuação do país mais bem colocado, o Japão (284). Os EUA marcaram 252 pontos.

O Índice de Capital Humano+ (HCI+, na sigla em inglês) acompanha a probabilidade de que uma criança cresça e se transforme em um adulto saudável, educado e produtivo. Para calcular o HCI+, o Banco Mundial leva em conta três pilares do desenvolvimento humano: saúde, educação e emprego.

No quesito saúde, o Brasil ficou mais perto da pontuação considerada ideal (50), obtendo 44 pontos. Já em educação, o Brasil fez 115 pontos (188 era a marca ideal), enquanto em trabalho obteve 44 (contra um ideal de 87). A distância entre a pontuação ideal e a obtida em educação é a que mais afeta negativamente o desempenho brasileiro, segundo o Banco Mundial.

Cada ano de educação universitária eleva o HCI+ em 16 pontos, refletindo o valor agregado de habilidades avançadas. Contudo, quando técnicas e aprendizados conquistados por meio da educação não são utilizados no mercado de trabalho, o capital humano sofre uma erosão.

Em conjunto com o HCI+, o Banco Mundial também publicou o relatório Construindo o Capital Humano Onde Mais Importa: Lares, Bairros e Locais de Trabalho, no qual traz uma das constatações mais alarmantes sobre o Brasil: em média, o brasileiro no mercado de trabalho acumula apenas metade do capital humano de um trabalhador dos EUA.

Tamanha desvantagem não se materializa fortuitamente. Ela é construída ao longo do ciclo de uma vida. Na infância, por exemplo, o tempo e a qualidade do cuidado que os pais dedicam aos filhos e o acesso a escolas e a serviços de saúde produzem efeitos duradouros sobre a capacidade de aprendizagem, bem como da evolução da renda do trabalho.

Em relação específica ao Brasil, os economistas do Banco Mundial encontraram evidências de que uma pessoa que cresce em um domicílio de baixa renda em um bairro também de baixa renda ganhará, quando adulta, cerca da metade do que alguém que, embora também seja de baixa renda, cresceu em uma vizinhança de alto rendimento.

Além disso, ainda que um bairro conte com boas escolas e serviços de saúde, problemas como a violência ou a poluição podem limitar o acesso à educação ou a tratamentos de enfermidades, minando as oportunidades de desenvolvimento.

A capacidade de desenvolvimento encontra obstáculos mesmo quando, por sorte ou à custa de considerável esforço, um adulto vence as barreiras da falta de atenção e de cuidados adequados na infância, extrai o máximo de conhecimento possível de escolas carentes de bons professores e chega ao mercado de trabalho.

Isso porque o ambiente de trabalho, que deveria seguir contribuindo para o aprimoramento das habilidades humanas, nem sempre oferece condições para tal. Pior, pode inutilizar conhecimentos previamente adquiridos, sem nada adicionar em troca.

Como se vê, é no entrelaçamento de uma infância vivida dignamente, educação de qualidade e aprimoramento profissional contínuo que se constrói capital humano.

Não surpreende, portanto, que o Brasil ocupe posição apenas intermediária no HCI+, já que por aqui boa parte da população vive em bairros desprovidos de serviços básicos que, por vezes, também são assolados pela violência.

Buscar soluções efetivas para todos esses desafios deveria ser uma prioridade do País, que, no entanto, segue buscando atalhos como acabar com a escala de trabalho 6x1. Em tese, mudar a escala de trabalho vai melhorar a vida de quem trabalha, quando na verdade os brasileiros seguem em desvantagem em relação aos americanos, por exemplo, porque têm formação insuficiente para executar suas funções. Sem atacar o real problema, tal fosso só seguirá se ampliando.

A tesoura dos Correios está cega

Por O Estado de S. Paulo

Para conter rombo, estatal busca adesão de 15 mil servidores a PDV, mas só consegue 2 mil

A redução do inflado quadro de funcionários dos Correios, que em novembro de 2025 girava em torno de 86 mil, é uma das bases do plano de reestruturação que condicionou o empréstimo bancário de R$ 12 bilhões à companhia. Há três meses, a agonizante estatal comprometeu-se a reduzir a folha em 15 mil postos em duas fases de um Programa de Demissão Voluntária (PDV). Seriam 10 mil este ano e mais 5 mil em 2027. A menos de um mês do fim do prazo da primeira leva, a adesão não passa de 2 mil, muito aquém do previsto.

Reduzir custos da estatal mais deficitária do governo federal não está sendo tarefa fácil, e é possível inferir que, em grande parte, os muitos vícios acumulados em anos de gestão ineficiente, para dizer o mínimo, e decisões questionáveis do governo estejam contribuindo para isso. Em dezembro de 2022, imediatamente antes da posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o quadro de funcionários somava 87.571, de acordo com o relatório da administração da empresa. Em dezembro de 2023, o total havia caído para 85.884, como mostrou o balanço da empresa, mas o reajuste salarial de 10,12% – mais do que o dobro da inflação de 4,62% daquele ano – elevou o custo da folha para mais de R$ 10 bilhões.

Reajuste real, ou seja, acima da inflação, é a aspiração de qualquer trabalhador que vive de salário. Lula sabe bem disso, e é contando com o retorno em votos que ele insiste, por exemplo, na política populista de reajuste real do salário mínimo. Num cenário de contas saneadas, com receita folgadamente superior às despesas, seria o melhor dos mundos. Não é o caso dos Correios, e muito menos das contas públicas do País. O rombo não tarda a crescer de forma descontrolada.

O ano de 2022 terminou com um prejuízo de R$ 809 milhões registrado pelos Correios. O do ano passado ainda não foi divulgado, mas estima-se que tenha ficado em torno de R$ 10 bilhões, que, apenas a título de ilustração, é a mesma cifra da folha de pessoal da empresa em 2023 e semelhante à parcela já desembolsada do empréstimo que, obviamente, não será suficiente para resolver a situação pré-falimentar da estatal.

Vale lembrar que a empresa só conseguiu obter o financiamento junto ao consórcio de cinco bancos depois de o Tesouro garantir que, se a estatal não honrar a dívida, o erário o fará, com o dinheiro arrecadado dos contribuintes. De acordo com o próprio Tesouro, o valor já liberado para os Correios corresponde a 78% do saldo devedor das operações de crédito garantidas pela União em todas as empresas estatais.

Em 2024 foi lançado um PDV para tentar conter custos da empresa, com meta em torno de 4 mil funcionários. O plano de reestruturação divulgado no final de 2025 mostrou que o buraco era mais embaixo, e a necessidade de enxugamento subiu para 15 mil servidores. Mas é difícil imaginar o que uma empresa afeita a benesses extraordinárias teria de oferecer para cortar um número tão expressivo de funcionários. Basta lembrar a gratificação natalina de R$ 2,5 mil, apelidada de “vale-peru”, distribuída a cada um em dezembro de 2024, quando já era incontestável a crise sem precedentes.

Preços do petróleo pioram o cenário para inflação

Por Valor Econômico

Os mercados futuros estão projetando uma mudança significativa na política monetária dos principais países em decorrência da guerra dos EUA com o Irã

As cotações do petróleo dispararam acima de US$ 100 o barril na alvorada de ontem para fechar em patamar um pouco mais baixo. Ao longo do dia, o presidente dos EUA, Donald Trump, enviou sinais conflitantes sobre o fim da guerra com o Irã. Primeiro disse que a guerra “está praticamente concluída”, e algumas horas depois deixou esse tempo em aberto. Não há dúvidas de que o patamar de US$ 100 pode ser ultrapassado caso o conflito não cesse.

Os preços só poderiam aumentar depois que Israel bombardeou as instalações de armazenagem de petróleo do Irã, o Irã continuou bloqueando o fluxo de óleo e seus derivados pelo Estreito de Ormuz e a capacidade de estocagem dos principais produtores do Golfo Pérsico, por ambos os efeitos, diminui seguidamente. Os mercados financeiros trouxeram à tona suas piores previsões, que podem ou não se confirmar. Se o conflito durar mais do que o previsto, a guerra ameaça desacelerar gradualmente a economia mundial, com aumento da inflação. A magnitude desses movimentos depende obviamente da duração da guerra, imprevisível.

Há um desenho claro dos efeitos dos ataques de Trump. Dos 15 milhões de barris de petróleo que cruzam o estreito de Ormuz, apenas metade pode encontrar rotas alternativas pelo Mar Vermelho: a maior parte dele é proveniente da Arábia Saudita e uma pequena fração, dos Emirados Árabes Unidos. Ao contrário dos choques anteriores na região, a produção do Golfo Pérsico nunca foi tão ameaçada quanto agora. Ainda que o Estreito de Ormuz seja um gargalo óbvio, nunca foi obstruído por um conflito das proporções atuais. Apesar dos ataques de baixo teor ofensivo dos houthis do Iêmen contra embarcações no Mar Vermelho e de forças iranianas em Ormuz, nunca o regime dos aiatolás foi ameaçado de aniquilação. Isso muda a natureza do conflito, tornando-o potencialmente mais destrutivo e menos sujeito a acordos diplomáticos.

Hoje o petróleo bruto não é a mercadoria que pode causar diretamente mais transtornos na produção global. Fertilizantes e derivados do óleo, como diesel e combustíveis para aviação, têm maior peso na escala de prejuízos. Os danos de uma interrupção do fornecimento, com aumento de preços e menor oferta, também são desigualmente distribuídos. Segundo dados da Agência Internacional de Energia, 80% de tudo o que passa pelo Estreito tem como destino a Ásia, a maior parte dirigida à China e à Índia. Para o abastecimento dessas regiões, o gás natural liquefeito tem papel vital. E para a produção de 90% do gás do Catar e dos Emirados Árabes Unidos, não há rota alternativa, segundo a AIE.

As previsões, diante da falta de horizonte claro para um fim do conflito, são ruins. O Goldman Sachs, por exemplo, prevê que os preços da gasolina e do diesel chegarão a ser as maiores de todos os tempos caso todo o mês de março seja consumido em confrontos armados na região — e esse temor da inflação em casa é um dos motivos para as novas declarações de Trump. Outros analistas apontam que, a partir de agora, diante de aumentos de mais de 50% dos custos nos insumos (gasolina e diesel, principalmente), os efeitos dos ataques aos regimes dos aitolás serão transmitidos por mais tempo à economia global.

No entanto, as previsões pessimistas dos mercados nem sempre se materializam. Em primeiro lugar, ainda falta muito para que as cotações atuais do petróleo cheguem perto das que o tipo Brent alcançou quando eclodiu a crise financeira global de 2008, de US$ 147 o barril. Na contabilidade explosiva dos choques do petróleo a partir da década de 1970, a alta dos preços até agora é modesta: nenhuma antes deixou de triplicar os preços, enquanto a majoração de agora não ultrapassa 50%.

Reunidos ontem, os países que compõem o G7, os mais ricos do mundo — Alemanha, Canadá, EUA, França, Itália, Japão e Reino Unido, além da UE — apesar de não descartarem liberação de reservas, indicaram um cenário que não é de pânico: refutaram desovar imediatamente estoques estratégicos de petróleo, que, segundo a Agência Internacional de Energia, somam 1,2 bilhão de barris, nos 32 países da organização.

Mas, ainda que a perspectiva não seja catastrófica, há diferentes cenários de escassez entre os vários mercados. No balanço entre demanda e oferta, o petróleo é o que menos preocupa, e a oferta de gás liquefeito, a mais inquietante, especialmente para a Europa.

Com o abastecimento para a Ásia atingido frontalmente, em especial para China, Índia, Coreia do Sul e Taiwan, o conflito atinge o polo mais dinâmico da economia global, que tem garantido a metade do crescimento nos últimos anos. A escassez de insumos com preços maiores freará o dinamismo mundial. Além disso, a alta de preços de energia tem repercussões globais importantes e alimentará a alta de preços.

Os mercados futuros estão projetando uma mudança significativa na política monetária dos principais países. Nos EUA, estima-se uma redução no ritmo de corte de juros no ano, de dois ou mais para apenas um. Na Europa, em vez de estabilidade, alta das taxas. No Brasil, ritmo mais comedido de cortes. A diferença, no caso, é que o Brasil é grande produtor e exportador de petróleo, e os efeitos sobre a inflação adviriam menos de choque nos preços e mais da desvalorização da moeda, se ocorrer.

Horizonte de nuvens carregadas com petróleo acima de US$ 100

Por Correio Braziliense

Apesar de o Brasil ser grande produtor e exportador de petróleo, importa a maior parte dos derivados que consome

Se o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tinha no bom desempenho da economia um forte argumento a seu favor na corrida eleitoral, com o barril do petróleo superando a casa dos US$ 100, por causa do ataque de Estados Unidos e Israel ao Irã, essa posição precisará ser reanalisada. O impacto direto nas contas públicas, na taxa de juros e, principalmente, na inflação, tem tudo para se tornar munição com alto poder de dano nas mãos dos adversários — ainda que apresentem apenas rasas propostas e profundo desconhecimento do cenário. Como para eles o importante é somente manter os percentuais nas pesquisas de opinião, pode se esperar um chorrilho de falácias e frases de impacto nas redes sociais.

Para o governo, porém, é um nó apertado. Apesar de o Brasil ser grande produtor e exportador de petróleo, importa a maior parte dos derivados que consome. Isso inclui o diesel, elemento fundamental da cadeia logística nacional. Sabe-se de antemão o que isso significa: combustível mais caro e carestia em rota de subida.

As notícias que vêm de fora são motivo de preocupação. Deixou de ser sinistrose dos analistas a hipótese de uma paralisação na produção mundial de petróleo, cujo efeito imediato será a estagnação econômica e o risco de uma disparada inflacionária em países cujas finanças estão em permanente desequilíbrio. Para se ter ideia, o Iraque, quinto maior fornecedor mundial, desacelerou a produção vertiginosamente por não ter mais onde estocar. No vizinho Kuwait, os reservatórios também estão repletos de óleo à espera de escoamento.

Na semana passada, a Aramco — maior petrolífera do planeta — derrubou a praticamente zero a atividade de uma de suas refinarias e desacelerou a produção de dois megacampos. O fechamento do Estreito de Ormuz pela marinha iraniana estrangulou o fluxo comercial dos países do golfo e levou os armadores a pagarem mais caro pelo seguro do transporte e pela utilização de rotas alternativas, e mais longas, da navegação internacional. Produtos e commodities chegarão mais caros para todos.

Antecipando-se ao colapso, ministros das finanças dos países do G7 discutiram, ontem, a liberação conjunta de petróleo de suas reservas. A medida de emergência seria coordenada pela Agência Internacional de Energia e é apoiada pelos governos de EUA, Grã-Bretanha e França. Isso indica que o conflito com o Irã não terminará tão cedo.

Para a Petrobras, trata-se de uma equação difícil de ser resolvida. O barril acima dos US$ 100 não necessariamente é um bom negócio, apesar do aumento da demanda e da redução no fluxo. Os custos da cadeia sobem generalizadamente, o que inclui a importação de derivados. Isso significa uma diminuição da capacidade da empresa em segurar os custos para o consumidor. E como já se viu anteriormente, conter o preço do combustível artificialmente para evitar impacto inflacionário é uma medida de alto risco. Em algum momento, a barragem rompe, e o repasse na bomba vem com força cavalar.

Assim, não é permitido ao Palácio do Planalto demora na tomada de decisão. A omissão precipita o desastre. Abre espaço para que se agregue a esse quadro crescentemente difícil duas sérias ameaças à estabilidade institucional. A primeira, de cunho econômico: pressão das grandes frotas para o aumento no preço do frete. A segunda, consequência da primeira, mas na seara eleitoral: o manjado oportunismo de setores da política ao incitar paralisações de caminhoneiros com a única finalidade de tirar dividendos nas urnas. Nesse caso, o que menos importa é o conjunto da população.

Em respeito aos artistas e à cidade

Por O Povo (CE)

É uma vergonha para a cidade de Fortaleza, que caminha para festejar seus 300 anos de existência, dia 13 de abril próximo, o que acontece no momento com uma escultura entregue ao nosso espaço público pela generosidade de um artista com o peso de Sérvulo Esmeraldo.

O estado em que reportagem do O POVO encontrou a obra "clones", doada por ele - que é natural do Crato - como demonstração de amor à comunidade que o acolheu e ao lugar que escolheu viver até sua morte, nove anos atrás, expõe um descaso dos responsáveis, do poder público e de entidades representativas da sociedade, que coloca em dúvida até se merecemos, como cidade, um regalo de tanta riqueza.

Trata-se de uma escultura de seis metros de altura, instalada faz 29 anos, aproximadamente, no chamado Parque das Esculturas, às margens do riacho Pajeú, próximo à sede do Clube dos Diretores Lojistas (CDL) de Fortaleza. Resultado, na época, de uma parceria entre a entidade classista, a prefeitura e artistas dispostos a expressar sua ligação afetiva com a cidade expressando-se através das linguagens que dominam.

O quadro de abandono em que se encontra a obra, numa situação denunciada inicialmente pelo próprio Instituto Sérvulo Esmeraldo, através de suas redes sociais, demonstra uma lamentável e constrangedora falta de compreensão com sua importância simbólica, que é incomensurável.

Aliás, uma visita de equipe do O POVO ao local expôs um quadro de negligência generalizada de quem é responsável pela manutenção e atinge quase que todo o conjunto das esculturas que compõem o Parque, numa área central de Fortaleza. Sem contar aquelas que simplesmente desapareceram, possivelmente roubadas como resultado direto da falta de atenção com os cuidados mínimos de proteção que deveriam ser observados. E não são.

É um momento oportuno para o problema ser apontado e de se encontrar maneiras de mudar de atitude e levar o quadro à transformação necessária, no sentido urgente de uma melhora.

O desrespeito com a obra de Sérvulo, um artista de repercussão internacional, que espalha seu talento pelos endereços mais prestigiados do mundo, dá uma ideia do nível de descaso que o quadro expõe para vergonha de todos nós, moradores que somos da cidade que lhe deve uma consideração maior.

O Grupo de Comunicação O POVO amplifica o grito de Dodora Guimarães, dedicada dirigente do Instituto Sérvulo Esmeraldo, viúva do inesquecível escultor, no sentido de as obras colocadas em espaços públicos de Fortaleza serem tombadas para tornar possível, ou mais fácil, uma ação protetora delas. O assunto exige um tratamento sério da parte das gestões públicas, dos setores políticos e de parcelas representativas da própria sociedade para que cenários lamentáveis como este observado no Parque das Esculturas - mas vista em outras áreas da cidade -, sejam revertidos a partir de um comportamento geral que faça jus à sua importância real.

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